Serviço do crime: distribuidora de bebidas na Lapa é ponto de encontro de traficantes e esconderijo de drogas, aponta polícia
Na entrada, a vitrine expõe balas, chicletes e chocolates, enquanto, no balcão, há coberturas comuns aos sorvetes de açaí, como caldas e granulados. Já no interior, a oferta é de uma infinidade de opções alcoólicas, da cachaça ao uísque. Localizado no número 117 da Rua Joaquim Silva, na Lapa, o King parece ser uma pequena distribuidora de bebidas, sempre movimentada. Mas, para a polícia, ele funciona como ponto de encontro de traficantes do bairro, ligados ao Comando Vermelho, e de esconderijo para drogas e dinheiro.
O local foi um dos alvos de busca e apreensão da Polícia Civil em 17 de março, numa operação conjunta com a Polícia Militar e o Ministério Público. Doze pessoas foram presas na ocasião, num total de 28 alvos com mandado de prisão em aberto. Entre os que continuam foragidos está Margareth Bernardo Paes, a Margô, mãe de Wesley Paes Saturnino de Souza, o WL, gerente-geral da facção da área — também foragido —, e de Wendel Paes Saturnino de Souza, morto em confronto com a polícia em 2019. Segundo o relatório que fundamentou essa ação, é ela quem administra o King.
As investigações não concluíram se o imóvel é ou não fruto de uma invasão, mas, segundo policiais, ele foi dado a Margô por Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, membro da cúpula da facção. A “sociedade” do estabelecimento é dividida entre ela, Wesley e Anderson Venâncio Nobre de Souza, chefe do tráfico do bairro. Ele também era um dos alvos da operação, mas fugiu antes da chegada dos agentes.
Segundo o inquérito, Margô apoia o tráfico ao receber as “sangrias” das bocas — dinheiro da venda das drogas que fica com os vapores após o fim dos plantões —, guardando-as no bar até que sejam levadas para o Fallet-Fogueteiro, comunidade em Santa Teresa usada pelos traficantes da Lapa. Essa dinâmica, como aponta o relatório, “simula licitude” aos valores arrecadados com o comércio ilegal.
“Consigne-se que os traficantes abordados, ainda que sem a posse de drogas e somente com dinheiro, já afirmaram em mais de uma oportunidade que seria do bar, como forma de simular a origem lícita”, esclarece o documento.
Em uma conversa de 17 de setembro de 2024, interceptada pela polícia, Margô e Pedro Martins Ramos, o Magrinho, gerente do tráfico na região, falam sobre uma quantia de R$ 11,5 mil que estava guardada no King.
“Quando eu acabar aqui, eu te aviso. Ele deixou oito mil e deixou três e quinhentos. Tá até tudo arrumadinho, eu consegui trocar bastante nota inteira, né? Mas ainda ficou mais uns trocadinhos de vinte, alguma coisinha lá trocado. Mas tá bem diluído em nota inteira. Pra adiantar vocês também. Não ficar com muito volume pra lá e pra cá!”, explicou ela ao Magrinho. Na sequência, Margô mandou foto do dinheiro embalado em sacolas plásticas.
A polícia também afirma que Margô é responsável por organizar festas de rua na Lapa, semelhantes a bailes funk. Em 6 de maio de 2025, um DJ contratado para os eventos prestou depoimento na 5ª DP (Mem de Sá) e afirmou que seu pagamento, em todas as vezes que se apresentou na Rua Joaquim Silva, foi feito por ela. Os depósitos foram comprovados por Pix.
