Série Ouro: personalidades negras participam de homenagem à Conceição Evaristo na segunda noite

 

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A homenagem que o Império Serrano prestará à escritora Conceição Evaristo, com o enredo "Ponciá Evaristo Flor do Mulungu", reunirá diversas personalidades negras na segunda noite de desfile das escolas de samba da Série Ouro, neste sábado, na Sapucaí. Também cruzarão a Avenida, a partir das 21h, a Botafogo Samba Clube, Em Cima da Hora, Arranco do Engenho de Dentro, Estácio de Sá, União de Maricá e Unidos da Ponte.

No último carro do Império Serrano intitulado “Casa de Preto também é academia” será apresentado como espaço de saber, memória e ancestralidade, transformando-se simbolicamente em um palácio ancestral. A alegoria traduzirá a força da escrevivência negra ao unir livro, palavra e samba, em uma cena que funde passado, presente e futuro a partir do conceito do Tempo Espiralar, desenvolvido por Leda Maria Martins.

As cadeiras imortais que remetem às ancestrais Tia Maria do Jongo, Vovó Joana, Dona Ivone Lara, Tia Eulália e Jovelina Pérola Negra serão ocupadas por grandes mulheres do nosso tempo. Ao lado de Ainá Evaristo — filha da homenageada — , estarão a jornalista Flávia Oliveira, a filósofa Sueli Carneiro, a escritora Eliana Alves Cruz e a ialorixá Mãe Meninazinha de Oxum.

— O enredo surgiu a partir de um encontro entre o Império Serrano e dona Conceição Evaristo. Já tinha muita vontade de falar sobre ela. Achei que não seria possível, mas tudo deu certo e vamos levar para a Avenida os conceitos de escrevivências que são as vivências das mulheres pretas através da escrita e da obra dela — explica o carnavalesco Renato Esteves do Império, quarta escola a desfilar.

A noite será aberta pela Botafogo Samba Clube que, em seu segundo ano na Sapucaí, mostrará o legado de Roberto Burle Marx, mestre do paisagismo e das artes visuais. O enredo "O Brasil floresce em arte" mostrará a flora e os biomas brasileiros em desfile que contará com plantas cenográficas. Além do lado artístico no modernismo, assim como a expedição por florestas e seus jardins tropicais, seu sítio em Guaratiba será lembrado.

Em seguida é a vez da Em Cima da Horam, cujo enredo "Salve todas as Marias- Laroyê Pombagira" é uma reverência ao seu espirito de resistência, sua conexão com as ruas e encruzilhadas da vida. A terceira escola a entrar na Sapucaí é a Arranco do Engenho de Dentro, promete transformar a Sapucaí em picadeiro, com a história de Maria Eliza Alves dos Reis (1909-2007), a mulher por trás do Palhaço Xamego, a primeira palhaça negra do Brasil.

Leandro Vieira desenvolveu enredo da Maricá "Berenguendens e Balangandãs"

Léo Queiroz/Divulgação União de Maricá

Do Papa Negro da Estácio ao tamborzão da Ponte

A segunda metade do desfile será aberto pela Estácio de Sá, cujo enredo retratará o líder espiritual Tata Tancredo, que morreu em 1979, aos 74 anos. O pai de santo, que, através de práticas religiosas, impulsionou a tradição de se passar o réveillon na Praia de Copacabana, será representado pelo ex-rei momo Djeferson Mendes.

A União de Maricá mais uma vez tenta subir para o Grupo Especial com o enredo "Berenguendéns e Balagandãs", desenvolvido pelo premiado Leandro Vieira, que na elite do desfile responde pela homenagem a Ney Matogrosso, na Imperatriz Leopoldinense. Em seu desfile, a agremiação vai contar a história da joalheria produzida por negros no Brasil.

—Esse enredo é uma ideia antiga. Vem um pouco na esteira desse pensamento que acaba marcando o meu trabalho desde 2019, que é contar um pouco a história que a história não conta. Existe por trás do balangandã uma história de identidade rebeldia, transexual —explica Leandro.

A Porto da Pedra vai falar das profissionais do sexo no seu enredo "Das mais antigas da vida, o doce e amargo beijo da noite", desenvolvido por Mauro Quintaes. Os desfiles da Série Ouro serão encerradas pela Unidos da Ponte, cujo enredo "Tamborzão - O Rio é baile! O poder é black!", vai exaltar as raízes negras e periféricas prometendo transformar a Sapucaí num grande baile de resistência, identidade e celebração.

Conheça as letras dos sambas

BOTAFOGO SAMBA CLUBE

Carnavalesco: Alexandre Rangel e Raphael Torres

"O Brasil que floresce em arte"

Tão natural quanto o tom da natureza

Relicário de beleza

O abstrato

Nas telas, seus pincéis cheios de vida

Em alma colorida que retrato

E foi assim

Da arte seu talento fez pra mim

Imaginária fonte de inspiração

Inovadora criação

O dom criou as calçadas imortais

Nas curvas de delírios tropicais

O traço que encanta e cativa

Viva a natureza viva!

Baila no ar

Pousa na vitória-régia

Pra encontrar o cerrado dos ipês

Mandacaru é a flor que nasce onde mais seca

A aquarela mais perfeita de meu Deus

Vem contemplar as bromélias

A sutileza coloriu meu pantanal

Em todo canto desse meu Brasil menino

Diversidade sem igual

Cada flor que você protegeu

Cada espécie que catalogou

É mais que moldura, maior que o gesto

É manifesto de amor

Botafogo Samba Clube

Vem cantar é carnaval

O teu legado é patrimônio mundial

Vamos semear o bem como o Mestre ensinou

Entreguei meu alvinegro pra você encher de cor

O amor floresceu nesse lindo jardim

História que não vai ter fim

EM CIMA DA HORA

Carnavalesco: Rodrigo Almeida

"Salve todas as Marias- Laroyê Pombagira"

Acorda Exu, Laroyê

Tem pimenta e dendê

Pombogira Mojubá

Fiz um pedido aos pés de uma figueira

Pra saudar Rosa Caveira

Pambu Njila a girar

Ganga Dilê, Ganga Dilê, ô Ganga

Dona das Almas vai quebrar demanda

Feiticeira dos encantos

Nunca me deixou sozinho

No Cruzeiro ou na Calunga

Meia-noite toca o sino

É lei, é lei, à fogueira, condenada

Quanto mais o fogo ardia, ela dava gargalhada

Ê, cacurucaia, é Tata de Angola

Dona Sete Catacumbas é da Em Cima da Hora

Alma cigana, entregue à liberdade

Te chamam de impura, corpo sem dignidade

Das cinzas renascida, enfrenta o julgamento

Leva pro inferno as más línguas do consenso

É Quitéria, colondina, Rosa Negra e Mortalha

É Mulambo e Padilha, é menina e navalha

Na encruzilhada vou oferecer

Vela preta e vermelha, a champanhe e o padê

Em cada esquina, meu povo vai incorporar

E Cavalcanti vem baixar nesse Congá

Abre a roda

Em Cima da Hora firma o ponto no tambor

Acende um toco, dá um pito e um marafo

Porque a Dona da Casa chegou

ARRANCO DO ENGENHO DE DENTRO

Carnavalesco: Annik Salmon 

"A Gargalhada é o Xamego da vida"

A alegria tomou conta de mim

Rufem tambores pra anunciar

Sou eu Falcão pairando em trampolim

No circo da ilusão brilhar

Ó, Guarany!

Na arte, alforria pra resistir

A pretitude às bênçãos do Rosário

A trupe em família se consagrou

Esse é o legado

Ser palhaço é revolucionário

Ê, chamego num xote pra lá de bão

Reina amor no coração

Vem cheio de graça

Com seu par, chamegando daqui acolá

No picadeiro, nosso altar

Será que ela é homem

Ou ele é mulher?

Será que isso importa? Pois é

Não é Benjamin, Carlitos não é

O nome é Maria, aplaudam de pé

E assim, quando a dor torturar

A camélia secar, sorri

Ainda que a lona desbote

A Estrela não morre, sorri

Artista-mãe que nos inspira

Não é delírio, é fantasia!

Nas encruzilhadas da felicidade a sambar

Não tem corda bamba que faça meu riso tombar

Dou gargalhada feliz da vida

O meu Arranco é Xamego na avenida

História de garra, coragem e fé

De tantas Marias, de toda mulher

IMPÉRIO SERRANO

Carnavalesco: Renato Esteves

"Ponciá Evaristo Flor do Mulungu"

Sou eu, a Flor do Mulungu

Brilham os olhos d'Água!

Orayeyê! É de Mamãe Oxum!

Sou Ponciá Consagrada

Entregue às palavras

E ao axé das ancestrais

Se tempos atrás

Ecoavam vozes do porão

Hoje reescrevo a história

Poesia a despertar nas pretas mãos

Nos becos da minha memória

Meu verbo é ouro de aluvião

Meu verso é barro de artesão

Pra Folia de Reis, chamo vô e chamo tio

Na Folia de Reis, vou vivendo por um fio

Ô lê lê, lá vem batuque, pra congada começar

Angorô, vira menino! Angorô, não vou virar!

Não é fácil emergir nesse contraste

Benevuto, a maldade, não quer me ver sorrir

No refúgio desses becos e vielas

De mãos dadas com Sabela

Eu só quero ser feliz

O Rio que me acolheu me ensinou também a florir

Vi muita gente de lá no rosto negro do povo daqui

Sou eu quem dá voz à caneta que silencia o fuzil

Me torno imortal no Livro Brasil

Malungo! Que Negro-Estrela possa ser reconhecido

Sem o choro de um futuro interrompido

Por todo preto, escreviver!

A gente combinamos de não morrer!

Combinamos de não morrer!

Chamei Maria, preta velha jongueira

Vovó Joana, pra benzer Madureira

Busquei Ivone pra matar essa saudade

O negro é raiz da liberdade!

É Kizomba de preta literatura!

É escrita sem censura no Império a florescer!

Casa de Preto também é Academia

Serrinha, Ponciá Yalodê!

ESTÁCIO DE SÁ

Carnavalesco: Marcus Paulo

"Tata Tancredo - O Papa Negro no Terreiro do Estácio"

Macumba é macumba, canjerê, mojubá

Macumba é macumba, firma ponto no gongá

Kolofé, saravá Omolokô

No terreiro de Tancredo a Estácio incorporou

Oh, Tata!

Traz a guia de miçanga

Pra quem é da nossa banda a demanda enfrentar

Oh, Tata!

Salve a linha de umbanda e a bandeira de Oxalá

Naquele tempo de malandro e meganha

Eu usei lata de banha pra fazer o instrumento

Ensinamento pro São Carlos que subia

A ladeira todo dia encarando o regimento

Tancredo o bastião e testemunha

O primeiro fundamento da curimba e da mumunha

Atabaques no terreiro, na porteira o guardião

Uma vela no cruzeiro, duas velas pro leão

Chegou general da banda, azeitado no dendê

Na canjira galo canta, Cantagalo eu quero ver

Vai, nas ondas do mar

Yemanjá ganhar presentes de fé

Todo povo da cidade num só canto

Contra o quebranto firma no batuquejê

Ao papa negro, mandingueiro, de arerê

Quem é de santo, veste branco e vai dizer

Coisa de acender, pemba de riscar

Folha e feitiço pra cura

Coisa de acender, pemba de riscar

Banho de folha e feitiço pra curar

UNIÃO DE MARICÁ

Carnavalesco: Leandro Vieira

"Berenguendéns e Balangandãs"

Nega da ladeira do Pelô

Tens o som de Salvador

E a magia que fulgura

Revolucionar é seu papel

E a arte do cinzel

Tu carregas na cintura

Junto ao tabuleiro nas manhãs

Há o sonho das irmãs que anseiam liberdade

Ecoa toda Nzinga de Matamba

A mandinga e a demanda

Realeza, identidade

Balanço que lembra meu adarrrum

Na armadura de Ogum, memória ancestral

Adorno que guardo no meu Ilê

Herança dos Malês

É forja do metal!

Santa luz da rebeldia que moldou o livramento

Somos joias da princesa, filhas do empoderamento

Penduricalho que te entrego de lembrança

Guarda a fé, o fogo e o talho

Resplandece a esperança

Eu peço aos meus Orixás

E entrego todo o axé

A nega pode e vai ter o que quiser

Tantas pretas consagradas

Meu espelho com orgulho

A quem renega a mulherada

Vá dormir com esse barulho

Balangandãs, berenguendéns

Canta Maricá, o que a baiana tem

Pertencimento que reluz no amuleto

Claro, tinha que ser preto!

PORTO DA PEDRA

Carnavalesco: Mauro Quintaes

"Das mais antigas da vida, o doce e amargo beijo da noite"

Dama do luar e cabaré

Quem ousa enfrentar a força da mulher?

Meu corpo, encruzilhada de mistérios

Na boca, minha língua, uma navalha

Caminho para o céu e o cemitério

Na esquina, o feitiço que gargalha

A ninfa divindade do erudito

Libido que te leva ao infinito

Sou Geni que se libertou

Fiz um Porto da Pedra que você jogou

Eu vim de longe para lhe satisfazer

Meu ofício vem do vício que alimenta seu prazer

A preferida da realeza e do cais

Conheço o chão das promessas que o homem faz

Parceira no amor, transveste sedução

Musa do escritor, veneno e salvação

Também sou moça e de família

Mãe e filha, meu sustento vem da luta

Uma puta mulher, que sabe o que quer

Em casa, na cama, na rua

Dona de mim, vestida ou nua

O preço da vida quem sabe sou eu

Preserve seu corpo, meu bem, ao encontro do meu

Sou da chama a centelha na vermelha luz

Minha sina se assemelha à dor da Vera Cruz

Tenho a garra e a certeza

Sou o que eu queria

Tigresa que mata um leão por dia!

UNIDOS DA PONTE

Carnavalesco: Nicolas Gonçalves

"Tamborzão - O Rio é baile! O poder é black"

Nascido e criado nos berços da África

Venci as mazelas, trilhei o caminho

Essência que luta e resiste

Sou filho valente do Afrobeat

Tentaram suprimir a minha voz

A batida é negritude, tem fundamento

Na ginga, dancei Lundu

No Maxixe, me requebrei

Na força do Black onde o negro é rei

Pega a visão, meu irmão

Não venha afrontar, fechar na vacilação

A gente vai bater de frente e o baile vai rolar

Tenha consciência que o pobre tem seu lugar

Vai, varar a madrugada até o dia amanhecer

O nosso morro tem voz e poder

É dia de graça pra tantos irmãos

Vem botar abaixo a segregação

Nossa arte estampa os muros

Tem charme no viaduto

Ninguém resiste ao nosso som

Minha estrela sempre vai brilhar

Não vou esquecer minha raiz

Sou mais um Silva, eu só quero é ser feliz

Paredão já tá formado, quem quiser poder chegar

Todo mundo convidado a funkear

150 BPM acelerado

No tamborzão da Ponte, ninguém fica parado