Série Ouro: desfiles começam com homenagens a Xande de Pilares e Leci Brandão; UPM e Ilha entre as favoritas
É hoje o dia. Com todos os ingressos vendidos antecipadamente, garantindo casa cheia, as escolas da Série Ouro abrem na Sapucaí, nesta sexta-feira, a partir das 21h, os desfiles oficiais do carnaval carioca, prometendo um show de alegria e criatividade. Serão sete agremiações na primeira noite e oito na segunda, num total de 15. A campeã garantirá acesso ao Grupo Especial, enquanto as duas últimas colocadas serão rebaixadas para a Série Prata, que se apresenta na Intendente Magalhães, em Campinho. Os destaques na estreia ficam por conta das homenagens a dois grandes representantes do samba: Xande de Pilares, na Unidos Jacarezinho, e Leci Brandão, na unidos de Bangu. A UPM e a União da Ilha estão entre as favoritas ao título.
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A celebração a Xande de Pilares, pela Unidos de Jacarezinho, abre a noite. A escola retorna ao Acesso depois de 12 anos fora da Sapucaí e num momento de grande dificuldade, tendo enfrentado dois incêndios: na quadra, na semana passada e no barracão, em outubro. Com "O ar que se respira agora inspira novos tempos", verso inicial do samba "Novos Tempos", de Jorge Aragão e sucesso do Revelação, grupo no qual o homenageado surgiu, a agremiação exalta a trajetória do sambista do anonimato até a fama.
Em seguida, é a vez da Inocentes de Belford Roxo pisar na passarela. A escola da Baixada Fluminense fará uma homenagem à tradicional manifestação cultural pernambucana com “O sonho de um tal pagode russo nos frevos do meu Pernambuco”, enredo desenvolvido pelo carnavalesco e Edson Pereira, responsável também pelo desfile da Unidos da Tijuca, no Grupo Especial. O microfone também está nas mãos de uma figura bastante conhecida do carnaval carioca: o intérprete Ito Melodia.
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Depois vem a União do Parque Acari, que leva para a Avenida uma homenagem ao grupo pioneiro do teatro negro no país. Tendo entre seus fundadores, em 1949, Haroldo Costa (1930-2025), o "Brasiliana" revolucionou a cena teatral brasileira ao introduzir práticas culturais, musicais e narrativas populares como pilares de sua construção dramática, sempre através da visão e protagonismo de artistas negros.
A Unidos de Bangu, quarta escola da noite, presta homenagem a outro grande nome do samba: Leci Brandão. O enredo "As coisas que mamãe me ensinou" faz referência a um samba da homenageada, que no ano passado enfrentou alguns problemas de saúde. Atualmente vivendo em São Paulo, onde é deputada estadual pelo PCdo B, a sambista promete desfilar.
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UPM vai desfilar com enredo sobre a história de Clara Camarão, indígena potiguara que foi peça-chave na expulsão dos invasores holandeses no Recife, no século XVII
S1 Fotografia/Divulgação
UPM, União da Ilha e Vigário Geral fecham a noite
A noite prossegue com a Unidos de Padre Miguel, que voltou ao acesso depois de uma passagem relâmpago pelo Grupo Especial, no carnaval passado. Na busca pelo retorno à elite da folia, a Boi Vermelho da Zona Oeste Unidos de Padre Miguel aposta tudo na saga de Clara Camarão, indígena potiguar considerada peça-chave na expulsão dos holandeses do Recife, no século XVII. O enredo propõe um manifesto contra o apagamento histórico e celebra a força da mulher indígena como símbolo de resistência, liderança e espiritualidade.
— Um dos pontos altos será a forma como vamos retratar o exército feminino de Clara: não apenas como guerreiras de combate, mas como detentoras de um saber ancestral — adianta o carnavalesco Lucas Milato, responsável por desenvolver o enredo "Kunhã-Eté: o sopro sagrado da Jurema".
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Penúltima escola da noite, a União da Ilha do Governador aposta numa viagem fantástica e intergaláctica no enredo "Viva o hoje! O amanhã? Fica pra depois!" , que aborda aborda a perspectiva carioca em 1910, ano de passagem do Cometa Halley pela cidade do Rio de Janeiro. O boato de que a passagem do astro representaria o apocalipse fez o carioca viver o dia 19 de maio daquele ano como se não houvesse amanhã. A escola promete impressionar o público com alas como "Lunetas intergalácticas" e "Guarda-chuva estrelar".
A Acadêmicos de Vigário Geral encerra a primeira noite de desfiles da Série Ouro apresentando o enredo fantástico e crítico "Brasil incógnito". Os carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini desafiam a narrativa eurocêntrica do “descobrimento”, mostrando que somos capazes de devorar, absorver e transformar o mundo ao redor, num ritual antropofágico.
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UNIDOS DO JACAREZINHO
Carnavalesco: Bruno Oliveira
"O Ar Que Se Respira Agora Inspira Novos Tempos"
O vento que soprou no Turano anuncia
Desse morro nasceu nosso cria
E o sonho virou poesia
Por andar aí, leva a fé que nunca falha
Fez dos versos sua arma de batalha
Com cavaco e repique
Surgiu mais um herdeiro do Cacique
Cantando a vida, sambista imortal
No Jacarezinho, deu nó na tristeza
E fez da vida carnaval
A voz do morro é quem diz
Um bamba sabe de cor
Pilares dessa raiz
O nosso orgulho maior
Torrão amado, que tem gente como a gente
Nem melhor, nem pior, apenas diferente
Pintou de rosa e branco a inspiração
Do ventre que desperta a criação
Batizado pelos menestréis
E salgueirense da cabeça aos pés
Revelação para os palcos brasileiros
O talento verdadeiro
De quem deixou acontecer naturalmente
São novos tempos na trilha do amor
Legado que Tia Dozinha guiou
Patente alta do samba
Plantou a semente de bamba
Coração Radiante não deixa negar
É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar
Sapucaí vai tremer quando a sirene tocar
Jacarezinho, taca fogo no gongá
Vai ter pagode pelos becos e vielas
Salve, Xande de Pilares
Hoje, coroado na favela
INOCENTES DE BELFORD ROXO
Carnavalesco: Edson Pereira
"Um sonho de um tal pagode russo, nos frevos do meu Pernambuco"
Num remelexo que é de cair o queixo
Solta o fole, abre o fecho
Que o frevo vai começar
No bole bole tem que ter a cara dura
Quando a mão vai na cintura
O corpo chega a arrepiar
Virou fofoca, tremendo disse me disse
Cá nas bandas do Arrecife
A quadrilha do Czar
Uma indecência, despertando uma querência
Eu, na minha inocência, resolvi experimentar
Era gente dançando daqui
E o russo cantando de lá
Misturou polca com coco
Quero ver não se entregar
Era o russo cantando de lá
E a gente dançando daqui
Balalaica vai chorando
E o triângulo a sorrir
O cais tremeu com a zoada arretada
Virou valsa embolada, a sanfona no luar
Na praça, virou festa e cantoria
Feito chuva em São João
Foi-se o povo na folia
Tinha retrato e promessa no baú
Beijo danado que veio do sul
Mas o cabra se avexou, pôs-se o barco e partiu
Tão Inocente, Belford Roxo descobriu
Que Rússia nada, isso é Recife, meu Brasil
Samba meu povo, que a emoção não tem fim
No fervo do frevo, o destino sorri pra mim
Chegou a hora de apostar nessa virada
Canta, caçulinha da Baixada
UNIÃO DO PARQUE ACARI
Carnavalesco: Guilherme Estevão
"Brasiliana"
Sou eu, Brasil
Da retinta matriz africana
Ascendente que a arte proclama
No palco do meu carnaval
Descerrada a cortina
A dança ilumina o terceiro sinal
É o samba de novo, e a força do povo
A estrela divina, negra bailarina
Quitutes e cores, Maria Baiana
Acordam tambores, desperta Aruanda
Ibarabô, o terreiro ganhou plateia
Ecoou o batuque dos ancestrais
Quem consagrou foi Joãozinho da Gomeia
Rei Nagô, resistência dos rituais
É farra do coco, ladainha
Cenários, ensaios, livraria
Tem frevo rasgado de sombrinha
Musical, dramaturgia
Calunga, Maracatu, louvado seja Exu
Bahia de felicidade
Ninguém calou nossa voz, a história fala por nós
Requintes de brasilidade
Lança teus Caboclos
Que o amor se manifesta
Desce a ladeira
Zum zum zum, tem capoeira
Gira mundo e faz a festa
A ribalta alumiou
Nossa trupe vai passar
Preto velho abençoou o legado popular
No cordão de Acari, ela é soberana
O teatro é aqui, viva Brasiliana
UNIDOS DE BANGU
Carnavalescos: Lino Salles, Alexandre e Marcos Du Val
"As coisas que mamãe me ensinou"
Porteira aberta ao chão de Madureira
A bênção que nos deu Papai do Céu
Acordes da menina pioneira
Caminho de Exu, Vila Isabel
Retinta poesia em humildade
Necessidade de aprender e conquistar
Ainda mais nesse Brasil que se segrega
Eis que ela congrega o preto em seu lugar
Nem todo choro é pranto
Nem todo não é o fim
Um encanto na vitrola
Do chorinho ao bandolim
Liderança foi escola
Um alerta de amor
São coisas que mamãe te ensinou
Dos atabaques, percussão foi a magia
Se nos chamam minoria
Poesia militante
É nesse instante que a mulher assume a rédea
Faz da história enciclopédia
Faz do voto seu levante
Vi a paixão regar a árvore frondosa
Num palácio verde e rosa
Florescer e inspirar
Pra resistir feito Ciata e Dandara
Nossa gente, Odara, vem te saravá
Chama o Morro do Pau da Bandeira
Traz cavaco, pandeiro e tantã
Se a preta é rainha, é lá de Mangueira
Tem samba até de manhã
Ogunhê, meu pai Ogum
Epahey Oyá
Bato cabeça pra saudar seus orixás
Por um mundo mais igual
Firma na palma da mão
Axé, Bangu
Axé, Leci Brandão
UNIDOS DE PADRE MIGUEL
Carnavalesco: Lucas Milato
"Kunhã-Eté: o sopro sagrado da Jurema"
Quem vem lá é a Unidos de Padre Miguel
A chama da ira terrena que evoca o sagrado do céu
Girando inicia o toré, herança dos meus ancestrais
O passo marcado, nas mãos maracás
Virado no meu juremá
Xamã revelou a missão
A mata é de clara camarão
Kunha eté, sobrenome resistir
Sangue urucum as margens do Potengi
Mãe d’água (mãe d’água) desperta a fina flor
Poti, potiguara em nome do amor
Quando ecoa o tambor, vibra a alma da floresta
Nesse solo de guerreiros, o corpo se manifesta
Firma o pé, empunha a lança, que a justiça vem a tona
A nossa tribo avisa: essa terra aqui tem dona!
Nativa, lidera mulheres em tantas batalhas
Muralha invisível que o tempo despiu
Brasil, na tua jurema que habita o sacrário
Leão é invasor, rei é o povo originário
Eh cabocla da pele morena
Tem doçura, tem encanto, no entanto não tem pena
Das águas sagradas aos seres de luz
Entrego o caminho a quem me conduz
é “clara” essa força que faz ir além
Incorporada no povo da vila vintém
Vai meu boi vermelho, honre a tua história
E seja a flecha viva da memória
Quantas vezes for preciso, haverá renascimento
Pra que a verdade não caia no esquecimento
UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR
Carnavalesco: Marcus Ferreira
"Viva o hoje! O amanhã? Fica pra depois!"
Hoje mirando o horizonte
Eu vi uma "terra" pra lá de estranha
Olhos vidrados no céu, moderna babel
Que loucura tamanha
Será... Que o mensageiro desse caos sou eu?
Ou esse povo ainda não entendeu
Que a fé no porvir, não muda o agora
Acreditar que tudo vai se acabar
Só deixa o mundo de "pernas pro ar"
Então não se culpe e só se preocupe ao chegar a hora
Descobri um rio de janeiro bon-vivant
Rebuliço carioca dura até de manhã
Poesia nas calçadas, festa batucada
Partideiro versejando pelas madrugadas
Ao longe também, eu vivi fevereiro de 26
Fiquei encantado com tantos cordões
Pra fazer história... Então fui enredo
Meu sonho era estar entre os foliões
Perder o juízo, pra mim nunca foi opção
Mas sei que é preciso um rastro de inspiração
Viva o hoje! Esqueça o depois de vez
Esse é meu conselho a vocês
Ilha... Te entrego com carinho o meu diário
Lições dessa jornada que bendiz
Ser presente é o segredo para ser feliz
Coração insulano bate dentro do peito
Aprendi a te amar, agora não tem jeito
Um dia eu volto pra te ver, meu grande amor
União da Ilha do Governador.
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ACADÊMICOS DE VIGÁRIO GERAL
Carnavalescos: Alex Carvalho e Caio Cidrini
"Brasil incógnito"
Sou eu teu canibal e remetente
Nessa carta incoerente
Vim lembrar do que passou
Aporto nesse mar de atrocidade
Pindorama insanidade
Que desvenda o Invasor
A tinta da história que insistiu me decifrar
Um bicho de arco e flecha a devorar
Os livros, ao contar que fui escravo do passado
Um filho de Tupã catequizado
Tomaram terra e me forçaram misturar
A pele preta, a coroa, o cocar
Deixa o chão tremer, ê, ê, ô
Que mata a dentro a cobiça reluziu
Qual é meu nome, ora pois
A força, o sangue de nós dois
Debaixo de pau, Brasil
Ao ler que minha fome de saber se alimenta
Degusta o verbo, te supera e reinventa
Devo sentir que a transgressão te causa dor
Se me criou, sabia um dia quais seriam os meandros
Teu Deus de pedra não põe medo em meus malandros
E teu sagrado insiste em vilipendiar
Vixe Maria Cabra da peste arretada é Betinha
A devoção da minha gente encarnada
A eterna fome de prazer me consumiu
Se festejar é minha sina
A Vera Cruz quem te assina
E te entregue a tua pátria que pariu
Se a canoa não virar, olê olá
Meu recado vira samba e carnaval
Chega ao destinatário
O meu grito libertário
Vigário Geral
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