Será que eu fui uma boa filha?
Ela é mãe, sogra e até avó. Essa descendência imensa que arrumou para si vai chegar hoje com flores, bilhetinhos de caligrafia infantil, telefonema dos que moram longe. Mas, neste Dia das Mães, sentada à janela um pouco antes do furacão, ela se pegou pensando numa pergunta meio inconveniente: será que eu fui uma boa filha?
Que saudade de sua própria mãe. Mas francamente: foram brigas, discussões e desentendimentos a perder de conta. Eram tão diferentes, e quantas vezes ela duvidou se a mãe não teria preferido outra filha, mais parecida consigo. E quantas vezes olhou naqueles olhos e leu a mesma dúvida do outro lado: como é que eu fui colocar no mundo um bicho tão diferente de mim? Será que ela também não prefere outra mãe a mim?
A mãe foi ficando velhinha, e devagar. Não rolou uma doença dramática, nenhum mal súbito, não aconteceu o telefonema na madrugada que toda filha teme. Foi degringolando: uma necessidade aqui, uma dificuldade ali, a cadeira de rodas, e um dia, a fralda. Daí a mãe maltratava a enfermeira, e ela tinha que apaziguar, pedir desculpas pelos modos de quem sempre foi a soberana absoluta da própria casa e dos próprios movimentos, dietas e decisões.
Um dia, alguém lhe disse: “agora você virou mãe da sua mãe”. Ela lembra sua reação ultrajada. Como assim? Só porque a mãe diminuía no corpo, na memória e na firmeza, não era para inverter os papéis. A lei natural é cuidar dos velhos como velhos, não como crianças. Não é tatibitate. É uma mulher cuidando da mulher que a colocou no mundo. Quando ela entendeu isso, alguma coisa se encaixou. Investiu-se daquele sentimento meio fora de moda que é o dever. E descobriu que dever é amor. Talvez o mais difícil, porque nem sempre vem com aplauso e reconhecimento.
Ela queria dizer tantas coisas, perguntar o que a gente sempre adia. Mas nem tudo mais podia ser dito ou sequer entendido. Então decidiu fazê-lo com gestos. Pentear o cabelo. Passar o batom. Ficar em silêncio, segurando a mão com aquela pele tão fininha. Um dia, a mãe olhou para ela com o semblante mais limpo, sincero e exausto do mundo, e disse: “obrigada”. Só isso. Mais nada. E então partiu. Ela ficou arrasada, claro, mas serena também. Fez o que era preciso, do jeito que sabia e podia. Mas que ninguém venha com aquela história de alívio. Não tem alívio. Dói. Dói menos com os anos, dói diferente, mas continua doendo, e em datas como essa dói um pouco mais.
E ela volta àquela pergunta do começo. Fui uma boa filha? Afinal, o que faz uma filha ser boa? Mulher carrega essa obrigação de ser boa: boa mãe, boa filha, boa esposa, normalmente aquela que não contraria as expectativas ou aquela que serve à família. No primeiro quesito, falhou. No segundo, bem, houve muitas épocas em que ela não teve tempo de servir direito. Domingos em que não apareceu, telefonemas cortados pela pressa, presentes comprados de última hora, sem sequer um bilhete. Não batia culpa, mas talvez uma certa tristeza de não ter permanecido aquela menina que passava horas escrevendo uma cartinha na escola para o grande dia.
Venceu, no entanto, a ternura que sobra dos silêncios entre as discussões. Prevaleceu o jeito como ela olhou pela mãe quando a mãe já não enxergava direito. Talvez ser uma boa filha não se trate da tirania do bom, da checklist exaustiva, mas atravessar a vida com aquela pessoa de forma imperfeita, muitas vezes incompreensível, mas digna, com respeito e afeto. E hoje ela pode dizer baixinho, para a única pessoa que ainda escuta de algum lugar que a gente não sabe direito onde fica: obrigada, mãe; de nada, mãe.
