Sequenciamento genético aponta cidade argentina como provável origem de surto de hantavírus em navio; veja qual

 

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O sequenciamento genético do hantavírus revelou que a cidade argentina de San Martín de Los Andes, na Patagônia, é o provável local do primeiro contágio da doença. A descoberta foi feita a partir da comparação do material genético coletado de seis pessoas infectadas com bancos internacionais de dados sobre o vírus. A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou 11 casos de hantavírus associados ao surto registrado entre passageiros do navio de expedição MV Hondius, distribuídos por sete países. Até o momento, três pessoas morreram em decorrência da infecção.

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Segundo o médico geneticista e diretor científico da Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica (SBGM), Salmo Raskin, as análises — realizadas pelo Centro Nacional Suíço de Referência para Infecções Virais Emergentes, Hospitais Universitários de Genebra e Instituto de Virologia Médica da Universidade de Zurique — mostraram que os seis pacientes apresentam sequências genéticas “igualzinhas”, reforçando a hipótese de transmissão em cadeia entre os passageiros. O estudo também confirma que o vírus pertence ao hantavírus andino, um dos poucos tipos conhecidos capazes de transmissão entre humanos.

— O sequenciamento mostrou que essas seis pessoas têm o mesmo RNA viral, o que comprova que houve transmissão de uma pessoa para outra — afirma o médico geneticista.

A principal novidade, porém, veio da comparação genética com casos antigos registrados na Argentina. De acordo com o pesquisador, as amostras atuais coincidem com o chamado “clado 3” do hantavírus andino, identificado anteriormente em dois homens infectados em agosto de 2018 em San Martín de Los Andes.

— Agora conseguimos concluir que o vírus é super parecido com o clado 3 encontrado em San Martín de Los Andes. Isso dá uma pista muito forte sobre onde provavelmente aconteceu a infecção inicial — explica Salmo Raskin.

Vírus é diferente do associado à festa em 2018

Até então, especialistas comparavam o episódio do navio ao surto de hantavírus ocorrido em Epuyén, no sul da Argentina, em 2018, quando uma festa de aniversário terminou com 34 infectados e 11 mortos, que ajudou a comprovar, pela primeira vez, a transmissão do vírus de humano para humano.

No entanto, o novo sequenciamento revelou uma diferença importante: o vírus atual não pertence ao mesmo subtipo do evento.

— O vírus da festa era do clado 2. Esse agora é do clado 3. Eles são muito parecidos, mas não iguais — diz Raskin.

Segundo ele, ainda não é possível saber se essas diferenças genéticas podem influenciar na gravidade da doença ou a sua capacidade de transmissão.

— Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Ainda temos pouquíssima informação sobre o clado 3 — afirma.

Até o momento, há registros genéticos detalhados de apenas dois pacientes infectados por esse subtipo, ambos em San Martín de Los Andes.

Vírus sofre poucas mutações

Ao contrário do coronavírus, o hantavírus apresenta baixa taxa de mutação, segundo o médico geneticista. As sequências atuais são muito semelhantes às detectadas em casos registrados há anos na Argentina.

— Isso mostra que o vírus muda muito pouco. É praticamente igual ao identificado em episódios anteriores — conta Salmo.

Mesmo assim, ele ressalta que fatores além da genética influenciam o comportamento da doença, como ambiente fechado, quantidade de vírus à qual a pessoa foi exposta e a resposta imunológica individual.

*Estagiária sob supervisão de Constança Tatsch.