A o contrário da maioria das puérperas que anseiam pelos momentos de sono do bebê para, finalmente, relaxar ou dormir, a gerente de marketing Marina Lopes, de 40 anos, mãe de Theo, 4 meses, quer produzir. “Nunca consegui não fazer nada, ficar numa boa, e, infelizmente, nem agora, após ter me tornado mãe. Preciso resolver minha vida: ler e-mails, trabalhar, fazer um curso de inteligência artificial para não ficar para trás”, diz. A necessidade de performance, contudo, acompanha sua história há muito tempo. Com uma rotina em que o despertador toca cedo até nos finais de semana, os momentos de dolce far niente apenas não existem. “Não consigo só respirar, me acalmar e tomar uma água. Preciso ser produtiva, seja saindo ou fazendo alguma atividade em casa. No ano passado, tinha uma meta de leitura de 10 livros. Quando descobri a gravidez e foi aquela loucura, consegui ler apenas 3”, relembra Marina, frustrada. “É uma comparação o tempo todo”. A gerente de marketing Marina Lopes Arquivo pessoal Transformar os momentos de lazer em cobranças ou performance parece ser mesmo um mal dos nossos tempos. E isso, afirma a socióloga e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Marta Bergamin, surge em um momento de “gameficação” da vida. “O capitalismo transforma tudo em desempenho. Existe um mercado interessado em que a gente consuma, mesmo quando certas atividades não parecem estar conectadas a isso, como a corrida, a cerâmica ou outro hobby, por exemplo”. Com o uso e a exposição constante nas redes sociais, a culpa acompanha majoritariamente as mulheres, que vivem na ciranda multitarefas. “Muita coisa é oferecida, e nós somos sempre muito cobradas para ter o melhor desempenho”, continua a socióloga. “Perdemos muito enquanto sociedade, porque vamos para um caminho da individualidade, e não do coletivo”. A empresária e comunicadora Maíra Rossétti, de 40 anos, também aprendeu, a duras penas, o quanto profissionalizar os momentos de ócio é perigoso. “Fui jogadora de vôlei durante muito tempo, o que criou uma cobrança interna grande por performance. Sempre me senti frustrada”, conta ela. Há dois anos, quando decidiu ter um hobby pela primeira vez, caiu na mesma cilada. “Decidi tocar na bateria de um bloco de carnaval e senti que deveria ser a melhor. Mas na análise, com o passar do tempo, vi que não precisava ser uma especialista nisso. Foi quando relaxei”. Para Maíra, finalmente, ter uma atividade sem um resultado objetivo ou de caráter competitivo também poderia ser divertido. “Sou consciente de que há uma cobrança social grande: na academia, na alimentação... É algo inatingível. Hoje, já me permito curtir o ócio. Apesar das comparações, entendo que cada um é de um jeito”. A empresária e comunicadora Maíra Rossétti Arquivo pessoal Segundo a professora e escritora Mariane Santana, que investiga o produtivismo na cultura contemporânea, a culpa por descansar tem duas raízes: uma moral religiosa e outra moral econômica. “A preguiça é um dos sete pecados capitais. Já a mercantilização do tempo é representada na famosa máxima de Benjamin Franklin, de que ‘tempo é dinheiro’. Internalizamos a ideia de que todos os nossos momentos precisam ser convertidos em resultado. Por isso tentamos otimizá-los ao máximo”, pontua ela. O tempo que não rende, portanto, é tratado como um tempo perdido, aliado à nossa dificuldade em sustentar os espaços vazios, o tédio, e o não-fazer, continua Mariane. “Reconhecer de onde vem essa culpa é o primeiro passo para mudar a relação com o descanso. Quando a gente entende que ela não é natural, e sim histórica e cultural, fica mais fácil questionar essa voz que nos impede de aproveitar o tempo livre”. Para redescobrir as delícias do dolce far niente, sem culpa nenhuma, é preciso se questionar: qual a minha necessidade do momento? O que está acontecendo comigo? “Nos virarmos para dentro, sem querer mostrar ou provar nada para os outros. Escutar-se. Permitir-se experimentar as pausas, porque elas são necessárias”, alerta a psicóloga Daniela de Oliveira. “E não existe uma fórmula para isso, cada pessoa precisa descobrir a sua. Senão, isso pode se tornar mais uma regra, e mais uma forma de pressão”, finaliza. Às vezes, não fazer nada já é fazer o bastante.
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Sente culpa ao descansar nas horas vagas? Entenda porque o lazer também virou tarefa, e o ócio, motivo de culpa
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O Globo
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