A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) ainda não havia definido se seria candidata ao Senado quando o irmão Diego Torres Dourado ouviu do ex-presidente Jair Bolsonaro que ele deveria ser o suplente.
Após deixar um cargo no governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, para ajudar a irmã com os afazeres domésticos, Diego ganhou a confiança do ex-mandatário, que o escolheu para ser o substituto da mulher caso ela venha a ser eleita.
Mas não será só Michelle quem vai disputar um cargo no Senado tendo um parente na chapa.
Levantamento do GLOBO identificou ao menos 21 vínculos familiares nos candidatos a suplências no Senado.
Em 14 casos, candidatos reservaram uma das duas vagas para integrantes da própria família.
Nos outros sete, o espaço foi destinado a parentes de aliados, numa combinação de relações de confiança e costuras políticas para uma eleição que definirá 54 dos 81 senadores, equivalente a dois terços da Casa.
Os sobrenomes são apenas uma das marcas encontradas na linha de sucessão dos senadores.
O levantamento identificou ainda dois outros grupos recorrentes nas escolhas: empresários e representantes religiosos.
Entre os atuais suplentes, 90 são empresários.
Nas chapas de 2026, pelo menos 13 nomes com esse perfil aparecem entre os escolhidos.
Outro grupo recorrente é o de nomes ligados ao segmento religioso.
Ao menos oito aparecem nas chapas analisadas pelo GLOBO.
O eleitor não vota separadamente nos suplentes.
Eles são eleitos junto com o titular e podem assumir temporariamente em caso de licença ou afastamento — ou definitivamente se houver renúncia ou morte.
No caso dos parentes, são pais, filhos, irmãos, mulheres e maridos colocados na linha de sucessão de mandatos de oito anos.
Além de Michelle, Bia Kicis (PL-DF) escolheu o filho Samuel Kicis; Ciro Nogueira (PP-PI), o irmão Raimundo Nogueira; e Styvenson Valentim (Podemos-RN), a irmã Anne Valentim.
Eduardo Braga (MDB-AM) terá novamente a mulher, Sandra Braga, enquanto Chico Rodrigues (PSB-RR), Marcelo Castro (MDB-PI) e Domingos Sávio (PL-MG) recorreram a filhos.
No Pará, a montagem da chapa de Helder Barbalho (MDB) fez a relação entre família e suplência atravessar três gerações.
O ex-governador terá como primeiro suplente na disputa o pai, o senador Jader Barbalho (MDB), que terminará seu atual mandato neste ano.
Quando Jader chegou ao Senado, em 1995, era o pai dele, Laércio Barbalho, quem ocupava a primeira suplência.
Três décadas depois, os papéis se inverteram: o filho disputa o mandato e o pai fica na linha de sucessão.
A lista cresceu com as últimas convenções.
Em Roraima, Pastor Isamar Ramalho (União) escolheu o filho Isamar Júnior, enquanto Teresa Surita (MDB) colocou a filha Luciana Surita na chapa.
No Piauí, Tiago Junqueira (PL) terá a mulher, Jhamya Junqueira, como primeira suplente.
No caso de Michelle, a decisão de manter a primeira suplência dentro da família antecedeu a própria candidatura.
Diego afirma que foi escolhido diretamente por Bolsonaro ainda no ano passado.
— O presidente Bolsonaro que me escolheu.
Ele disse: “Eu sei que você não gosta de aparecer, mas preciso que você proteja a Michelle.
A melhor pessoa para ser suplente é você” — diz ele.
Na outra candidatura do PL ao Senado no Distrito Federal, a primeira suplência também ficou em família.
Bia Kicis (PL-DF) escolheu o filho Samuel Kicis.
Procurada pelo GLOBO para explicar os critérios usados na escolha, a deputada não respondeu.
Atual senador, Ciro Nogueira (PP-PI) adotou a mesma estratégia familiar pela segunda eleição consecutiva, mas trocou o integrante da família.
Em 2018, colocou a mãe, Eliane Nogueira, como primeira suplente.
Ela chegou a assumir a cadeira quando o filho se licenciou para comandar a Casa Civil no governo Bolsonaro.
Desta vez, a vaga ficará com o irmão Raimundo Nogueira.
Questionado sobre o critério usado na escolha, Ciro resumiu:
— Estar filiado (ao PP).
Em Minas Gerais, a definição tardia da candidatura avulsa de Marcelo Aro (PP) levou a uma composição que também ficou em família.
O candidato escolheu como primeira suplente a própria mãe, Professora Marli, vereadora mais votada de Minas Gerais.
A segunda vaga ficou com Tileléo, também vereador.
Aro almejava concorrer ao governo do estado, mas seu partido preferiu apoiar a candidatura do governador Mateus Simões (PSD).
Parentes de aliados entram na costura
A família que ganha espaço nem sempre é a de quem aparece na urna.
Em outros sete casos identificados pelo GLOBO, a suplência foi destinada a parentes de aliados, revelando como as vagas também são usadas nas negociações para reunir grupos políticos numa mesma candidatura.
No Rio Grande do Norte, Coronel Hélio (PL-RN) terá Valério Marinho, pai de Rogério Marinho, como suplente.
Marcelo Queiroga (PL-PB) colocou Carol Morais, mulher do senador Efraim Filho, na chapa.
Mendonça Filho (PL-PE) terá Adriana Ferreira, irmã de Anderson Ferreira; Luizianne Lins (Rede-CE), Rodrigo Oliveira, filho de Eunício Oliveira; Nabor Wanderley (Republicanos-PB), Renato Feliciano, filho de Damião Feliciano; e André Fufuca (PP-MA), Perla Amaral, mulher de Rildo Amaral.
No caso de Queiroga, a negociação alterou o desenho original da chapa.
O ex-ministro afirma que pretendia priorizar mulheres e inicialmente trabalhava com o nome de Nayana Pontes, que foi escolhida vice de Efraim, abrindo espaço para a esposa do senador na chapa.
— Eu priorizei mulheres.
Inicialmente seria Nayana Pontes.
Mas depois, com Carol, que é esposa do Efraim, conseguimos construir uma unidade maior.
A segunda suplência ficou com Emir Candeia, ex-secretário de Tecnologia de Campina Grande, definido por Queiroga como “um homem técnico”.
Há chapas em que as duas modalidades aparecem ao mesmo tempo.
Marcelo Castro terá o próprio filho, Dário Castro, como segundo suplente, enquanto a primeira vaga ficou com Felipe Sampaio, filho do vice-governador Themístocles Filho.
Uma posição mantém a eventual sucessão ligada à família do candidato; a outra contempla a família de um aliado.
Da suplência para o plenário
A comparação com o Senado atual mostra que essas escolhas não ficam necessariamente restritas à ficha de registro das candidaturas.
Hoje, quatro senadores têm como suplente um parente próprio ou de outra liderança política.
O exemplo começa pelo comando da Casa.
Davi Alcolumbre (União-AP) tem o irmão Josiel Alcolumbre como primeiro suplente.
Rodrigo Cunha (PSDB-AL) foi eleito com Eudócia Caldas, mãe do ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, na primeira suplência.
Wilder Morais (PL-GO) tem Izaura Cardoso, mulher do também senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO).
E Ciro foi eleito tendo a mãe nessa posição.
Empresários ocupam 90 suplências atuais
Além da proximidade, a escolha de suplentes pelos candidatos também passa por cálculos eleitorais e econômicos.
Nas chapas de 2026 mapeadas até agora, pelo menos 13 nomes com esse perfil aparecem entre os escolhidos.
Entre os nomes escolhidos estão empresários com atuação de peso em seus estados.
No Acre, Márcio Bittar (PL-AC) terá como suplente Jebert Nascimento, CEO do Grupo NP+, que atua em terceirização de serviços, gestão empresarial e recursos humanos.
Em Mato Grosso, Rafael Yamada, escalado por Janaina Riva (MDB), tem negócios nos setores de construção civil, mineração e entretenimento.
Já na Paraíba, Zenildo Oliveira, na chapa de João Azevêdo (PSB), fundador do Grupo Pau Brasil, apontado como o maior contribuinte de ICMS do estado em 2024.
Entre os atuais suplentes, 90 são empresários.
A presença expressiva mostra outra função que as vagas podem desempenhar na montagem das chapas.
Além da confiança pessoal e das alianças partidárias, candidatos buscam nomes capazes de agregar estrutura, inserção em setores econômicos ou capilaridade regional.
Pastores também ganham espaço
Outro grupo recorrente é o de nomes ligados ao segmento religioso.
Ao menos oito aparecem nas chapas analisadas pelo GLOBO.
Carlos Portinho (PL-RJ) terá Samuel Malafaia, irmão do pastor Silas Malafaia, como suplente.
O senador afirma que buscou alguém com perfil semelhante ao de Arolde de Oliveira, de quem foi suplente e cuja cadeira assumiu após a morte do titular.
Portinho e Samuel se conhecem desde a fundação do PSD e, segundo ele, mantêm uma relação de longa data.
— Eu busquei um perfil parecido e encontrei no Samuel Malafaia uma figura muito parecida com o Arolde, uma pessoa com quem eu sempre tive relação fraterna.
Agora, na verdade, os papéis se inverteram.
Eu tive que consolidar o meu mandato, e fiz isso, e agora busquei a estabilidade de uma pessoa com a mesma formação e os mesmos valores do senador Arolde de Oliveira — afirma.
Também há representantes religiosos nas chapas de Ciro Nogueira, Eli Borges (PL-TO) e Carlos Bolsonaro (PL-RJ).
A chapa de Helder Barbalho reúne duas das lógicas identificadas pelo levantamento.
Se a primeira suplência ficará com o pai, Jader, a segunda será ocupada pelo pastor Samuel Câmara, irmão do deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM).
Senado em família: candidatos escalam parentes, empresários e líderes religiosos como suplentes
Fonte:
