Sempre inquieta, Rafaela Silva volta ao Instituto Reação e fala sobre provável última Olimpíada ao lado da irmã

 

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A vida já lhe reservou — e ainda vai lhe reservar — desafios aos montes e dos mais complexos. Mas a judoca Rafaela Silva, de 33 anos, campeã olímpica e bicampeã mundial, sempre busca mais, não sossega. Após cinco anos de uma parceria de sucesso com o Flamengo, clube que a acolheu após caso de doping (2019), ela resolveu voltar às origens, ao Instituto Reação, onde começou na modalidade. A mudança, segundo ela, não "era necessária", já que estava bem no clube da Gávea e tinha proposta de renovação para os Jogos de Los Angeles-2028. Mas veio "do coração" uma vez que acredita que este deve ser o seu último ciclo olímpico.

— O Reação já havia me chamado antes, só que ainda não era o momento. E depois de Paris-2024, precisava de desafios, de recarregar a energia. Primeiro veio a mudança de categoria, de largar meu quarto lugar no ranking mundial dos 57kg e recomeçar do zero nos 63kg. Mas ainda me sentia incomodada: "eu preciso mudar, preciso mudar". Era o momento de voltar para casa — conta Rafaela, que no último dia 7, quando já havia anunciado a mudança de clube, conquistou a medalha de ouro no Grand Slam de Paris. — Não consigo ser tranquila, estou sempre procurando algo (risos), inquieta. Quando saio do judô vou para o videogame e quero ganhar sempre. Parece que tenho hiper foco, só consigo parar algo quando sinto que, de fato, estou bem naquilo. Tenho de procurar sarna para me coçar. E até hoje está dando certo.

Rafaela, atual número 7 da categoria até 63kgs do ranking da Federação Internacional de Judô (IJF), chegou ao Flamengo em 2021 e colecionou títulos, como o ouro no Pan de 2023 – quando se tornou a primeira judoca brasileira a conquistar ouro em Jogos Pan-Americanos, Mundiais e Olimpíadas — , o bicampeonato mundial (Tashkent 2022) e o bronze olímpico por equipes em Paris-2024.

Rafaela Silva na apresentação no Instituto Reação: teve aula no tatame novo da unidade da Rocinha

Cadu Paiva/Divulgação

Segundo a atleta, a mudança foi motivada por questões afetivas. Além de ter a irmã Raquel como treinadora, a fase atual lhe faz pensar no pós-carreira. Rafaela tem vontade de seguir os passos da irmã que é a treinadora chefe da equipe feminina do Reação. Raquel foi a primeira judoca campeã pan-americana pelo Reação.

As duas começam a praticar judô juntas, no Reação, porque os pais, Luiz Carlos Silva, entregador de comida, e Zenilda Silva, caixa de supermercado, trabalhavam das 10h às 22h e as filhas precisavam de uma ocupação. A campeã olímpica chegou ao Reação aos 8 anos e o defendeu por 20.

— Por conta da idade, acredito que Los Angeles-2028 possa ser minha última Olimpíada. E por tudo o que o Reação fez por mim, por tudo o que conquistei. A pessoa que sou hoje, praticamente, foi construída aqui. Se este de fato for meu último ciclo olímpico, que seja pela minha casa. Devia isso ao Reação.

Rafaela, no entanto, não estabelece data para aposentadoria. Diz que "enquanto estiver feliz no tatame" vai competir. 

— Aqui no Reação a gente fala em "construir e compartilhar". Estou construindo ainda minha carreira, mas quando eu parar quero seguir os passos da minha irmã e compartilhar o que o judô me deu. Pretendo estar na mesma função que ela, puxando a orelha de vários porque eles dão trabalho.

Rafaela Silva no tatame novo do Instituto Reação

Cadu Paiva/Divulgação

Nesta terça-feira, Rafaela treinou na unidade da Rocinha, em evento emocionante que marcou o seu retorno ao instituto. O Reação está em festa, inaugura parte da obra de expansão desta unidade, que terá um prédio de quatro andares para abrigar entre outros espaços, um museu.

O ex-judoca Flávio Canto, idealizador do projeto, recebeu a família, parceiros comerciais, alunos, ex-alunos e um monde de gente que faz o projeto ser referência no país. Geraldo Bernardes, o primeiro treinador da Rafaela, acompanhou a volta da judoca mesmo acometido pelo Parkinson e um câncer. De cadeira de rodas, ele fez até discurso. 

— A Rafaela pode parar quando ela quiser porque está muito longe de apresentar sinais de que chegou a hora. Ela acabou de ganhar o Grand Slam de Paris que a gente não ganhava há dez anos e na categoria de cima. Mas, estar por perto no momento em que a aposentaria chegar também é uma oportunidade de contribuir para uma transição de carreira dela — disse Flávio, que comemora a volta da judoca ao projeto: — Não poderia ser um momento mais bonito para a gente. Esse espaço novo, que devemos concluir em uns dois meses, simboliza muita coisa. Teremos um museu que contará a história da Rocinha, do Reação... Essa é a favela mais visitada do Brasil e ainda tem gente que vem fantasiado de Indiana Jones aqui (excursões). Acho que precisamos de uma contação de história pela ótica da potência. E o Reação simboliza isso. Ter a Rafaela junto com a gente nesse momento é muito importante.

Raquel, a nova treinadora de Rafaela, promete não dar mole para a irmã. Ela diz que é dura com todos, mas tem mais abertura para cobrar Rafaela. Desde pequena ela está acostumada a cuidar e a cobrar a caçula. 

— A gente brigava por tudo, normal como todos os irmãos. Uma pegava a roupa da outra, era beliscão, discussão. Eu, como a mais velha, era a responsável por ela. E a Rafaela aprontava demais. Mas apesar disso, sempre fomos muito unidas. Uma apoiava a outra nas viagens do judô. Na nossa época não tinha tanto recurso tecnológico para estudar as rivais e a gente pesquisava para a outra — declarou Raquel, que fala sobre o desafio da profissão — Minha referência é o Geraldo. Ele nunca foi treinador de passar a mão na cabeça. Mas quando precisava, sabia as palavras certas. Para tirar o melhor dos atletas, não posso ser boazinha. Tem de espremer. Sou rígida com todos, mas com ela tenho mais abertura para puxar a orelha. Fico feliz de estar mais perto dela, agora no dia a dia. Foi o momento certo que Deus preparou para esta volta à nossa casa.