Sempre disponível e acessível, Oscar Schmidt foi um ídolo de outra época
Escrevi sobre Oscar Schmidt no GLOBO de ontem. E foi muito difícil fazer um personagem gigante caber nos três mil toques de uma coluna. Por isso, peço licença para lhe dedicar também este espaço. Não para trazer algo sobre a figura pública do Mão Santa que já não tenha sido dito ou escrito nas muitas e justas homenagens que todos os veículos de comunicação vêm lhe prestando desde a confirmação da notícia de sua morte. Só queria deixar aqui um registro do privilégio que foi conviver um pouco com ele, como jogador e companheiro de equipe.
Não posso me gabar de ter tido um relacionamento especial com Oscar. Fui um dos muitos de vocês da imprensa que acompanharam sua longa carreira. Nossos primeiros contatos eram por telefone, quando ele morava na Espanha —e sempre atendia. Achei que não teria o prazer de vê-lo jogar pessoalmente porque já tinha se despedido da seleção. Até que um convite de Ary Vidal, o querido mestre da vitória inesquecível no Pan de 1987, o fez voltar, para um pré-olímpico em Tucumán e Neuquén, na Argentina. O Brasil chegou a ser dado como eliminado, mas uma combinação milagrosa de resultados garantiu a classificação para sua despedida dos Jogos, em Atlanta 1996. “Vou tirar uma foto com os jornalistas”, disse, no saguão do hotel, depois da confirmação da vaga. “Vocês me enchem muito o saco, mas hoje é dia de comemorar”. Tenho o registro, que na época ainda era em papel, guardado com carinho.
Mesmo sem me dar o direito de falar em nome da categoria, arrisco dizer que Oscar fazia com que todos nos sentíssemos especiais. Ontem, no “Tá na Área”, ouvi Carlos Eduardo Éboli contar que o convidou, já aposentado, para uma pelada de basquete — e se surpreender quando ele aceitou e apareceu para jogar, parando o Aterro do Flamengo. No camarim, Felipe Diniz lembrou de quando, depois de entrevistá-lo, percebeu que o microfone não tinha funcionado. Voltou ao ginásio com um milhão de desculpas. Em vez da bronca que esperava, o que ouviu em resposta foi: “Você pode esperar cinco minutos? Estou apertado, preciso ir ao banheiro”. E gravou tudo de novo.
Oscar foi um ídolo de outra época, em que os maiores nomes do esporte — até os do futebol — eram acessíveis. Não gosto de passar a impressão de achar que no meu tempo era melhor, mas nesse caso preciso admitir que era mesmo. Estar perto dos atletas que a gente admira desde criança já é um privilégio que a profissão dá aos jornalistas esportivos. E quando esse contato vai além da formalidade de uma entrevista e vira um bate-papo, aí é que não tem preço mesmo.
Em 2008, Oscar trabalhou na cobertura da Globo e do SporTV nos Jogos de Pequim. Voltava na van com a equipe e, na caminhada para o hotel, ia contando casos da carreira e pedindo informações sobre os atletas brasileiros. Quando não estava no ar, queria ser só mais um torcedor. Gritou “Brasil!” em todas as arquibancadas que pôde frequentar. Mas logo se tornou impossível ignorar aquela presença de 2,05m de altura, rosto e voz inconfundíveis. Era parado a todo momento para uma foto, um autógrafo — e nunca negava.
O grande Oscar Schmidt, o Mão Santa que fez história no basquete brasileiro, vai ser sempre lembrado pelo que fez em quadra. Mas o gigante gentil que estava sempre disponível fora dela deixa uma saudade danada também.
