Seminário EXTRA debate capacitação diante de novo cenário do mercado de trabalho
O Brasil vive um cenário paradoxal no mercado de trabalho: ao mesmo tempo em que o número de vagas cresce, empresas enfrentam dificuldades para encontrar profissionais qualificados. A rápida evolução tecnológica, o avanço da inteligência artificial e as mudanças no perfil da população ajudam a explicar esse descompasso. Esses e outros desafios estiveram no centro do Seminário Extra, que teve como tema a capacitação para o mercado de trabalho.
O evento, que aconteceu nesta terça-feira (24) na sede da Editora Globo, na Cidade Nova, no Rio, foi mediado pela editora assistente de Economia do EXTRA, Mônica Pereira.
Seminário EXTRA: Capacitação para o mercado de trabalho é tema de debate com especialistas
Relembre: Seminário EXTRA debate os impactos da tecnologia
O primeiro painel do evento foi “Por que sobram vagas e faltam profissionais?”. Um dos participantes, Marcelo de Abreu, presidente do Banco Nacional de Empregos, destacou que a velocidade das transformações tem superado a capacidade de adaptação dos profissionais.
— O fato é que a mudança está sendo mais rápida do que nós, como profissionais, estamos capazes de nos adaptarmos a elas. E as empresas, por necessidade, estão pedindo que os profissionais cheguem já com aquela qualificação. Aí tem a lacuna. Há mais vagas do que necessariamente pessoas competentes para cumprir com essas vagas — disse.
Segundo ele, diante desse cenário, as empresas passaram a assumir um papel mais ativo na formação de seus funcionários.
— Parece que está sendo uma tendência também as empresas assumirem um papel de educação para poder dar essa qualificação para as pessoas, para poder suprir a necessidade delas — afirmou.
Além das competências técnicas, Abreu ressaltou que habilidades comportamentais têm ganhado cada vez mais espaço nas exigências das empresas.
— O que mais se exige hoje é a capacidade de aprender e a capacidade de adaptação. Quem não tem isso está fora. Depois disso, vêm as habilidades relacionais, como trabalhar em equipe, saber liderar e ser liderado — disse.
Representando o setor industrial, Eliane Damasceno, gerente de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), afirmou que a indústria tem ampliado a oferta de qualificação para reduzir a distância entre formação e mercado.
— A gente tem feito vários movimentos no processo não só de entendimento dessas necessidades, a partir de comitês setoriais e ajuste do modelo de formação, mas também na oferta de qualificação. Só este ano, aumentamos em 16% a oferta de cursos gratuitos, com quase 95 mil vagas — disse.
Ela destacou, no entanto, que ainda há barreiras importantes, principalmente para quem não teve acesso à formação básica.
— Existe um desafio que é justamente quem ficou para trás. Quem não tem a qualificação básica vai ter dificuldade de se reengajar no processo de formação e adquirir as competências demandadas pela indústria — completou.
Novas demandas
Damasceno também apontou que mudanças no próprio mercado, como o crescimento do trabalho por aplicativos, impactam a disponibilidade de mão de obra.
— O movimento de plataformização, intensificado no pós-pandemia, levou muitas pessoas para o trabalho por aplicativos, o que acaba se tornando uma concorrência para a indústria e exige estratégias específicas de transição — avaliou.
Já o presidente da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), Alexandre Valle, destacou que a instituição tem buscado atualizar sua oferta de cursos para acompanhar as novas demandas do mercado.
— A Faetec forma aproximadamente cem a 110 mil alunos por ano, mas o que a gente percebe é que existe uma dificuldade de todos os setores: as empresas dizem que precisam de mão de obra, mas não encontram profissionais, seja na hotelaria, na mecânica ou em outras áreas — afirmou.
Entre as iniciativas, ele citou a criação de um banco de oportunidades e talentos para conectar os novos profissionais ao mercado de trabalho.
EAD
O ensino a distância também foi apontado como parte da solução para ampliar o acesso à qualificação, embora os debatedores afirmem que este modelo não substitua completamente o presencial.
— O ensino a distância é fundamental. Ele não resolve tudo, mas faz parte do processo. Muitas vezes, é o que permite que a pessoa tenha acesso a conteúdos e professores que não conseguiria de outra forma — disse Abreu.
Damasceno ponderou que a modalidade ainda enfrenta desafios estruturais.
— O ensino a distância é uma realidade e traz oportunidades, mas também desafios, como o acesso à internet de qualidade, equipamentos e espaço adequado de estudo. Isso não é a realidade de uma grande parcela da população — afirmou.
Ao longo do encontro, os participantes convergiram na avaliação de que o mercado de trabalho continuará em transformação, com novas oportunidades surgindo — mas também com exigências cada vez maiores de qualificação e adaptação contínua.
— Estima-se a extinção de 98 milhões de empregos e a criação de outros 170 milhões. Ou seja, há mais oportunidades surgindo. O desafio é preparar as pessoas para essas novas funções. Todo brasileiro é um sonhador. Basta dar capacidade para que ele execute — concluiu Abreu.
Novo mercado de trabalho
Mônica Pereira com os debatedores Ana Paulo Prado e Rodolpho Tobler
Marcelo Theobald
As transformações no mercado de trabalho já impactam diretamente a forma como empresas contratam, retêm e se relacionam com seus funcionários. O avanço da tecnologia, a escassez de mão de obra qualificada e as novas expectativas dos profissionais têm levado a mudanças nos processos seletivos, na organização das jornadas e até nas prioridades dentro das empresas. Esses temas estiveram em debate no segundo painel, intitulado "O novo mercado de trabalho já começou".
Segundo especialistas, as empresas têm adotado novas estratégias para conseguir atrair candidatos em um cenário de baixa taxa de desemprego e alta rotatividade. A tecnologia passou a ter papel central nesse processo.
— Todo esse processo seletivo que hoje tem gamificação, WhatsApp e tecnologia vem para atender uma necessidade das empresas. Apesar da taxa de desemprego baixa, elas têm muita dificuldade de contratar e precisaram encontrar alternativas para chegar mais perto dos candidatos — disse Ana Paula Prado, CEO da Redarbor Brasil.
De acordo com ela, o uso de ferramentas digitais tem permitido ir além do currículo tradicional, especialmente em um contexto em que a inteligência artificial também passou a influenciar a forma como os profissionais se apresentam.
A tendência, segundo a executiva, é de intensificação do uso de canais como aplicativos de mensagem nos processos seletivos.
— Nós estamos evoluindo como serviço e as empresas buscam cada vez mais tecnologia. Caminhamos para um universo de WhatsApp, mensagens e voz. Cerca de 90% dos brasileiros usam WhatsApp, então é para lá que os processos seletivos estão indo — explicou.
O cenário é reforçado por dados apresentados pelo pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), Rodolpho Tobler, que apontou a dificuldade crescente das empresas para contratar e reter trabalhadores.
— A gente tem visto uma escassez de mão de obra muito grande. No final do ano passado, quase 70% das empresas falaram que têm dificuldade para contratar ou reter essa mão de obra. Isso faz com que as empresas adotem novas tecnologias, novos processos seletivos, para tentar encontrar esses profissionais com mais facilidade — afirmou.
Segundo ele, esse contexto tem ampliado o poder de negociação dos trabalhadores, que passaram a priorizar melhores condições de trabalho.
— Em um mercado aquecido, o trabalhador tem mais poder de barganha. Ele consegue comparar propostas e negociar melhores condições. E o principal fator de insatisfação ainda é a remuneração baixa, seguido da carga horária elevada e, mais recentemente, das questões de saúde mental — disse.
Saúde mental e novas exigências
A pressão por atualização constante e o ritmo acelerado das mudanças têm impactado diretamente a saúde mental dos profissionais, tema que ganhou destaque no debate.
— Estamos em um momento de aumento das questões de saúde mental, com profissionais pressionados por demandas de upskilling e reskilling, o que gera sobrecarga tanto no trabalho quanto na vida pessoal — afirmou Ana Paula.
Tobler destacou que o tema passou a fazer parte das decisões tanto de empresas quanto de trabalhadores.
— Hoje há uma preocupação maior com saúde mental, tanto em grandes quanto em pequenas empresas. Esse debate se ampliou e passou a fazer parte das decisões no mercado de trabalho — disse.
Jornada e novas formas de trabalho
As mudanças nas relações de trabalho também passam pela forma como a jornada é estruturada. Modelos mais rígidos têm sido questionados por parte dos trabalhadores, especialmente diante da busca por qualidade de vida e flexibilidade.
— Muitos profissionais já não aceitam determinados modelos de trabalho e acabam migrando para alternativas, como aplicativos ou informalidade. Isso aumenta a dificuldade de contratação, mas também pode levar as empresas a buscar formatos mais atrativos — afirmou Ana Paula.
Tobler ponderou que discussões sobre redução de carga horária precisam equilibrar bem-estar e sustentabilidade dos negócios.
— É um debate importante, mas precisa ser feito com base em dados. A redução da carga horária pode melhorar o bem-estar do trabalhador, mas também pode aumentar custos para as empresas. É preciso encontrar um equilíbrio — disse.
Ele também chamou atenção para o peso da informalidade no país, que amplia os desafios do mercado formal.
— A gente tem muitos desafios no Brasil. Como acessar essa mão de obra que está na informalidade? Como tornar as empresas mais atrativas para essas pessoas? Esse é um ponto central — avaliou.
O debate também abordou o papel da diversidade nas empresas e o cenário recente das políticas afirmativas. Segundo Ana Paula, houve recuo na oferta de vagas voltadas a grupos específicos, apesar dos benefícios já comprovados.
— Tivemos uma diminuição nas vagas afirmativas no último ano. É uma pena, porque a diversidade já é comprovada como um fator que traz mais criatividade e melhores resultados para as empresas — disse.
Já Tobler ressaltou que as desigualdades no mercado de trabalho brasileiro ainda são profundas e avançam lentamente.
— Houve melhora, mas o ritmo ainda é muito lento. As desigualdades no Brasil são históricas e ainda muito grandes. A gente precisa avançar mais rapidamente — afirmou.
Retenção e novos critérios
Além de contratar, reter profissionais também se tornou um desafio central. Segundo os especialistas, fatores como salário, flexibilidade e ambiente de trabalho têm pesado cada vez mais nas decisões dos trabalhadores.
— O salário ainda é o principal fator, seguido pela flexibilidade. Além disso, o reconhecimento e o alinhamento com o propósito da empresa também são muito valorizados — disse Ana Paula.
Para Tobler, benefícios e perspectiva de crescimento são decisivos.
— Não é só a remuneração. Plano de carreira, benefícios e um ambiente mais agradável são fundamentais para reter talentos. As pessoas querem previsibilidade e se sentir parte da empresa — afirmou.
Ao final do painel, os especialistas destacaram que o mercado de trabalho já passa por uma mudança estrutural, impulsionada por tecnologia, novos comportamentos e maior exigência por qualidade de vida — um cenário que deve continuar moldando as relações profissionais nos próximos anos.
Inicialmente confirmada para o painel, a subsecretária executiva da Secretaria estadual de Trabalho e Renda, Lelian Cabral, não pôde participar do evento por questões de saúde.
