Keir Starmer anunciou que deixará o cargo de deputado por Holborn e St Pancras, distrito eleitoral de Londres que representa há 11 anos.
A saída deverá provocar uma eleição suplementar para definir seu sucessor no Parlamento britânico.
Em comunicado ao tablóide Camden New Journal, Starmer classificou a representação do distrito como uma “enorme honra e privilégio” e afirmou que pretende voltar sua atenção para "assuntos internacionais".
A decisão ocorre meses após Starmer deixar o cargo de primeiro-ministro, em junho, e Andy Burnham assumir seu lugar, em julho.
Nas semanas seguintes, houve especulações sobre a permanência de Starmer no Parlamento.
Pouco depois de deixar o governo, porém, ele havia afirmado em entrevista à BBC que continuaria como deputado até a próxima eleição geral.
Agora, Starmer disse estar pronto para “passar o bastão a um sucessor”.
Ao anunciar a saída do Parlamento, Starmer afirmou que pretende concentrar sua atuação em questões internacionais.
— Agora vou me concentrar em outras coisas, e isso será nos assuntos internacionais, incluindo defesa, segurança, comércio e tecnologia em um mundo em rápida transformação — declarou.
O ex-primeiro-ministro britânico Keir Starmer deixa o número 10 de Downing Street, no centro de Londres, em 11 de fevereiro de 2026, para participar da sessão semanal de 'Perguntas ao Primeiro-Ministro'
ADRIAN DENNIS / AFP
Segundo ele, a mudança de atuação não significa o abandono de uma pauta que acompanha sua trajetória.
Starmer afirmou que continuará trabalhando contra a violência contra mulheres e meninas, tema que considera extremamente importante.
Segundo ele, esse trabalho começou antes de sua entrada no Parlamento e continuará depois de sua saída.
— Também continuarei, como faço há muito tempo com outras pessoas, trabalhando no combate à violência contra mulheres e meninas; essa é uma questão que é extremamente importante para mim — disse: — Esse é um trabalho que comecei antes de me tornar deputado e que quero continuar depois de deixar o Parlamento.
Portanto, de um lado, os assuntos internacionais e, de outro, a continuidade do meu trabalho contra a violência contra mulheres e meninas.
Renúncia ao cargo de primeiro-ministro em junho
O anúncio da renúncia de Keir Starmer ao cargo de primeiro-ministro e à liderança do Partido Trabalhista, em junho deste ano, encerrou um ciclo que começou há mais de dois anos, quando o ex-procurador-geral britânico conduziu a legenda a uma vitória histórica nas eleições gerais e pôs fim a 14 anos de governos do Partido Conservador.
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A trajetória política de Starmer foi relativamente rápida.
Ele entrou para o Parlamento há pouco mais de uma década e, em menos de cinco anos à frente do Partido Trabalhista, conseguiu reconstruir uma legenda que havia sofrido sua pior derrota eleitoral desde a década de 1930.
Seu principal movimento foi reposicionar o partido em direção ao centro político, ao mesmo tempo em que explorou o desgaste acumulado pelos governos conservadores.
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Advogado especializado em direitos humanos antes de ingressar na política, Starmer construiu sua reputação como procurador-chefe do Reino Unido.
Na vida pública, manteve um estilo discreto e técnico, frequentemente descrito por aliados e adversários como sério, pragmático e pouco carismático.
Em vez da retórica inflamável, apostou em um discurso voltado para a gestão e a solução prática de problemas.
Durante a campanha que o levou ao poder, evitou grandes demonstrações de entusiasmo e concentrou seus ataques nos escândalos que marcaram os governos conservadores, como o "Partygate", os contratos relacionados à pandemia de Covid-19 e as acusações de falta de transparência.
Mesmo sem despertar grande entusiasmo popular, conseguiu consolidar a imagem de um líder capaz de devolver credibilidade ao Partido Trabalhista.
Criado em uma família da classe trabalhadora em Surrey, nos arredores de Londres, Starmer foi o primeiro de sua família a concluir o ensino superior.
Estudou na Universidade de Leeds e, depois, cursou Direito na Universidade de Oxford.
O premier britânico, Keir Starmer, discursa na Inglaterra: Trabalhista é alvo de pressões por nomeação de ex-embaixador envolvido com Epstein
Peter Nicholls/AFP
Seu nome é uma homenagem a Keir Hardie, sindicalista escocês e primeiro líder do Partido Trabalhista.
Ainda jovem, porém, contou que preferia ser chamado de Dave ou Pete.
Como advogado, representou manifestantes processados pela rede McDonald's antes de assumir o cargo de procurador-chefe do Reino Unido, função que lhe rendeu o título de cavaleiro.
Na política, levou o mesmo perfil técnico para o Parlamento e ganhou notoriedade ao confrontar o então primeiro-ministro Boris Johnson sobre as festas realizadas na residência oficial de Downing Street durante as restrições impostas pela pandemia.
Quando os conservadores levantaram suspeitas de que ele também teria desrespeitado as regras sanitárias ao participar de um jantar com colegas em 2021, Starmer prometeu renunciar caso fosse considerado culpado.
A polícia concluiu que ele não havia cometido irregularidades.
Reconstrução do Partido Trabalhista
Ao assumir a liderança do Partido Trabalhista após a derrota eleitoral de 2019, Starmer herdou uma legenda profundamente dividida e desgastada.
Inicialmente eleito com o apoio de setores ligados ao então líder Jeremy Corbyn, da ala mais à esquerda do partido, rapidamente passou a conduzir uma guinada ao centro.
Primeiro-ministro britânico, Keir Starmer foi criticado por ter recebido presentes avaliados em 107 mil libras, cerca de R$ 772 mil, desde 2019
Bnejamim Cremel/Pool/AFP
Entre as principais mudanças promovidas durante sua gestão estiveram o abandono de propostas como a nacionalização da indústria energética, o compromisso de não elevar impostos sobre famílias trabalhadoras e a defesa de uma postura mais firme em temas ligados à defesa nacional.
Também promoveu uma ampla reformulação interna para combater o antissemitismo que havia marcado o partido durante a gestão de Corbyn, chegando a afastar o ex-líder da legenda e restringir a candidatura de nomes identificados com a ala mais à esquerda.
Durante o anúncio de sua renúncia, em junho, Starmer citou justamente essas mudanças como parte de seu legado.
Disse que encontrou o Partido Trabalhista "politicamente, financeiramente e moralmente falido", mas afirmou ter demonstrado que aqueles que consideravam a legenda "acabada" estavam errados.
Também destacou o trabalho para "erradicar o veneno do antissemitismo" e para restaurar a confiança "na economia, na defesa e na segurança nacional".
