Sem tecnologia ‘bombástica’, TVs apostam de novo em telas gigantes para a Copa
A Copa do Mundo não é vitrine apenas para craques da bola e sistemas táticos envolventes. Historicamente, o torneio da FIFA é também o grande palco para demonstrações em massa de tecnologias de aparelhos de TV. Em 2026, as fabricantes vão apostar menos no craque que “resolve tudo sozinho” e mais na força do conjunto.
Sem tecnologias muito diferentes de anos anteriores, os aparelhos deste ano se destacam pela combinação de evolução em sistemas de iluminação, maior capacidade de processamento e, principalmente, na expansão das telas.
Isso significa que variações do Led (Qled, Qned, mini-Led) com resolução 4K permanecem na linha de frente das marcas, como ocorreu nas últimas duas Copas. O que mudou foi o tamanho: TV grande agora tem mais de 70 polegadas, e o mercado deve mirar em vendas entre 50 e 65 polegadas — há quatro anos, TVs grandes iniciavam em 65 polegadas e as fabricantes miravam as vendas entre 43 e 50 polegadas.
— A TV evoluiu tanto que passou a ser um produto técnico. Não é mais como era nas Copas passadas, quando você tinha uma tecnologia predominante. Toda TV já é 4K, smart e tela plana. Agora, a gente fala de Qled e mini-led, na qual a ideia é atingir uma maior densidade de Leds no painel — explica Níkolas Corbacho, gerente de produtos da TCL.
É uma mudança importante de ritmo em relação às últimas cinco Copas. Em 2006, por exemplo, teve início a transição dos tubos para telas planas. Em 2010, houve uma aposta fracassada em aparelhos 3D. Em 2014, o recurso mais falado eram as TVs smart. Em 2018, o 4K despontou como aposta, enquanto o crescimento dos painéis ganhou fôlego quatro anos atrás. Agora, a indústria tenta evoluir e consolidar tecnologias apresentadas desde o torneio no Brasil.
É por isso que o Led não sai de moda, ainda que tenha ganhado alegorias na nomenclatura para representar melhorias: Qled, em marcas como Samsung, TCL e Hisense, e Qned, no caso da LG. Ou seja, embora o princípio tecnológico seja o mesmo (uma matriz de cristais líquidos modula uma fonte de iluminação no fundo do painel), o Led de hoje não é como o Led de ontem, como explica Matheus Benatti, diretor de marketing da Hisense Brasil:
— Os primeiros painéis de Led tinham as lâmpadas posicionadas usualmente nas laterais ou na base da TV. Isso resultava no efeito de blooming, onde áreas que deveriam ser pretas pareciam acinzentadas devido ao escape de luz. A tecnologia evoluiu para posicionar os LEDs atrás da tela. No mini-Led, essas lâmpadas são significativamente menores, permitindo que milhares delas iluminem zonas minúsculas de forma independente.
Essa nova disposição aumenta o contraste e o brilho. As novas TVs atingem brilho de 3 mil nits, muitas vezes o dobro do que era possível em 2022. Por padrão, por exemplo, o painel de um smartphone precisa ter cerca de 1 mil nits para funcionar em ambientes externos com forte luz solar. Já o salto nas cores é representado pela letra “Q”: elas indicam os pontos quânticos que permitem uma paleta de cores maior ao emitir de forma mais pura o vermelho e verde.
Samsung e LG também mantêm no mercado painéis de Oled, que operam verdadeiramente sobre princípios diferentes do Led, mas entendem que são aparelhos nichados, com custo mais elevado para o consumidor. Por exemplo: uma TV de Oled da LG de 65 polegadas pode sair por R$ 10 mil, enquanto uma Qned de mesmo tamanho sai por R$ 3,8 mil.
Quanto maior melhor
Com tecnologias evolutivas nos sistemas de imagem e iluminação, a principal aposta das marcas recai novamente sobre o tamanho dos painéis, uma tendência que se acelerou em duas décadas — há 20 anos, na Copa de 2006, a população ainda migrava de aparelhos de tubo com tamanho médio de 29 polegadas para telas planas pouco acima de 30. Hoje, as vendas devem ficar acima dos 50 polegadas.
— Normalmente, o crescimento médio anual de tela no Brasil é de 0,4 polegada. Em ano de Copa, esse número sobe para até uma polegada — diz Corbacho.
Assim, Mateus Bando, pesquisador da NielsenIQ, explica que o grande volume de vendas deve se concentrar na faixa de 50 a 55 polegadas, que sozinha deve representar quase metade do mercado. A categoria já representava 48% das vendas no período entre março e abril desde ano — em 2018, esse número foi de 15,4%. Mas tem um detalhe, como ele explica:
— Telas de 43 até 59 polegadas andam de lado com relação aos últimos anos. O que mais cresce são 59 mais. Porém, não significa que será um produtor “popular”, pois representará entre 15% e 20% do mercado.
No total, as vendas de TV neste ano também devem crescer entre 15% e 20%, marca inferior à alcançada no último ano de Copa, que foi de 35,4%. Mas, em 2022, o torneio teve uma peculiaridade: ele ocorreu no mesmo período de Black Friday, então o impulso de “compra de Copa” colidiu com os descontos mais agressivos do varejo. Neste ano, Bando não vê marcas e varejos a realizarem promoções no mesmo ritmo que a Black Friday impõe.
LG e TCL exibem suas apostas para a Copa em shopping de São Paulo
Edilson Dantas/O Globo
E o 8K, hein?
Depois de captações e transmissões experimentais em 8K das Olimpíadas de 2012, 2016 e 2020, além da Copa de 2014, era de se imaginar que as telas 8K chegassem à Copa de 2026 prontas para serem experimentadas, mas não é isso que vai acontecer. O 4K continua soberano entre as marcas — no Brasil, só a Samsung tem modelos do tipo. Em fevereiro, por exemplo, a LG abandonou a produção desses painéis.
— O 4K é uma tecnologia que tem uma qualidade muito alta, especialmente quando você compara com o FullHD. Além disso, os conteúdos são feitos em 4K, então faz sentido a gente priorizar essa demanda do mercado — explica Diego Oliveira, gerente de produtos da LG.
Em outubro do ano passado, um estudo da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, afirmou que não há diferenças perceptíveis entre telas 4K e 8K. Pior: o mesmo estudo diz que os dois tipos de painéis não apresentam diferenças de nitidez quando comparados a telas de 2K a depender das distâncias e ângulos de visão.
— No Brasil, mais de 50% das pessoas só compram uma tecnologia nova se ela tornar a vida delas mais útil. É muito difícil você buscar em um produto que custa o dobro do preço se você não consegue ver o dobro do benefício. O 8K para o 4K não demonstrou um benefício tão grande. Isso foi diferente com Qled e Qned — afirma Bando.
Na Europa, restrições regulatórias severas sobre o consumo energético de eletrodomésticos dificultaram a comercialização de diversos modelos 8K que não atendiam aos novos padrões. Isso reduziu o volume global e manteve os preços altos nos países onde a comercialização ocorre sem restrições.
Hisense aposta em TVs de Qled para a Copa
Hisense/Divulgação
IA e processamento
Com a popularização dos serviços por streaming, as marcas também trabalharam para deixar as TVs ainda mais inteligentes, um movimento que evolui o que começou na Copa de 2014. Para isso, a capacidade de processamento dos aparelhos foi reforçada.
— Você vai ter uma infinidade de consumidores buscando conteúdo ao vivo no streaming. A fluidez das plataformas vai fazer diferença encontrar os jogos com rapidez, para a execução do conteúdo e para a redução de delay — diz Guilherme Campos, diretor de produtos da Samsung.
A fabricante aposta na maturidade do sistema operacional Tizen para oferecer atualizações de segurança e performance que vão garantir suporte a novos protocolos de transmissão sem engasgos. No geral, as marcas também investem em mais memória e armazenamento como estratégia para evitar travamentos à medida que as interfaces de plataformas de streaming evoluem — a TCL fala em 2 GB de RAM e 64 GB de espaço.
O reforço interno também ajuda a preparar as TVs para a era da inteligência artificial generativa. Algoritmos de processamento e melhorias de imagem não são novidades na indústria, mas o lançamento do ChatGPT aconteceu durante a Copa de 2022. Assim, as marcas tentaram adaptar os aparelhos para o novo momento.
Samsung terá o Vision Companion, uma ferramenta que quer eliminar a “segunda tela” (quase sempre o smartphone). Ela enxerga na tela o que o espectador está assistindo e responde a perguntas feitas por voz. Já a LG terá integração com o Copilot, da Microsoft, no qual os usuários poderão manter conversas mais naturais com o aparelho.
