Sem remédio, sem diagnóstico e com carnaval: conheça o espaço do SUS que cuida dos pacientes com arte e convivência

 

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Durante muito tempo, a Colônia Juliano Moreira foi marcada pelo isolamento. Hoje, no mesmo território, oficinas de música, artesanato e percussão reúnem moradores, artistas e usuários da rede pública no Centro de Cultura e Convivência (Cecco) Pedra Branca, equipamento do SUS em Jacarepaguá que aposta na convivência como forma de cuidado.

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Localizado na Estrada Rodrigues Caldas 3.400, o Cecco é o primeiro centro de convivência do município do Rio e integra a Rede de Atenção Psicossocial (Raps). Diferentemente dos serviços tradicionais, o espaço não realiza atendimentos clínicos individuais nem trabalha com diagnósticos ou prescrição de medicação. Ali, o cuidado se constrói no encontro cotidiano, por meio de oficinas e atividades abertas à comunidade.

Atualmente, o centro oferece oficinas gratuitas de música, artes visuais, artesanato e percussão, atividades corporais e ações culturais, reunindo pessoas de diferentes idades, trajetórias e vínculos com a rede de saúde mental. O aprendizado é coletivo; e a convivência, o eixo que orienta todas as ações.

— O trabalho que o Cecco desenvolve dentro da colônia é fundamental para desconstruir o imaginário de manicômio que ainda persiste neste território. São mais de cem anos de história, e nossas ações permitem ressignificar esse espaço e ampliar suas possibilidades de uso — afirma a psicóloga Victoria Pasqual, que atua há mais de uma década na interface entre arte e atenção psicossocial.

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Nas oficinas, explica Victoria, a técnica não ocupa lugar central:

— O que orienta as oficinas é a experiência, o processo coletivo e a convivência que se constrói a partir daí.

Ela cita como exemplo o caso de uma pessoa que frequentava a oficina de violão e também produzia artesanato com jornal.

— A partir dessa oficina, a curadoria do Museu Bispo do Rosário, em Jacarepaguá, conheceu sua obra e o convidou para a exposição “100 anos de Colônia” — conta.

A convivência entre pessoas com histórias de vida distintas é, segundo a coordenadora do Cecco, Cecília Estella, o que sustenta o espaço. Essa mistura se torna especialmente visível nos eventos culturais promovidos pelo centro, como o sarau.

— Quando se apresentam, são todos conviventes. Temos moradores do território, usuários da rede de saúde mental, artistas, pessoas em situação de rua, antigas trabalhadoras do manicômio, crianças, todos apresentando um trabalho artístico que construíram juntos — relata.

De acordo com Cecília, o convívio cotidiano cria vínculos e experiências que dificilmente aconteceriam em espaços onde há segregação.

— Aqui, as relações não se estruturam por hierarquias rígidas. Todos são reconhecidos como conviventes, com direitos, saberes, limites e potências. O papel dos profissionais é estar a serviço da convivência — afirma.

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Além das oficinas, o Cecco abriga desde 2013 o Bloco Império Colonial, criado em 2008. O bloco reúne usuários da Raps, familiares, trabalhadores, artistas e moradores em atividades culturais ao longo de todo o ano. No dia do desfile, a relação com a comunidade se amplia e se torna visível para quem vive nos arredores.

— É interessante perceber os moradores saindo de suas casas para acompanhar o bloco. Alguns pelas janelas, outros seguindo o cortejo. O bloco transforma não apenas a relação das pessoas com a rua, mas também com o próprio Cecco — observa Cecília.

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Para a coordenadora, nada no espaço é fixo ou definitivo.

— A construção é coletiva, e quem chega também pode propor, criar e transformar junto. Apostamos que arte, cultura e convivência são formas potentes de produzir cuidado e fortalecer vínculos — conclui.

Além dos desfiles, o Bloco Império Colonial mantém uma programação contínua ao longo do ano. O grupo, que realiza cerca de 20 apresentações anuais e promove oficinas carnavalescas, também fará ensaios abertos até o carnaval, ampliando o acesso da comunidade às atividades culturais. Os ensaios regulares acontecem todas as segundas, terças e quintas-feiras, às 14h, no Cecco.

A agenda inclui ainda ensaios externos: na próxima sexta-feira, às 15h, no CAPSI III Eliza Santa Roza, na Taquara; e em 6 de fevereiro, ao meio-dia, dentro da programação do Sextou no Bistrô, no Museu Bispo do Rosário.

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