‘Sem precedentes’: Governo argentino barra jornalistas na Casa Rosada por suspeita de ‘espionagem ilegal’

 

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O governo do presidente Javier Milei proibiu nesta quinta-feira a entrada de todos os jornalistas credenciados na Casa Rosada, sede do Executivo argentino, em meio a uma investigação sobre suposta “espionagem ilegal”, segundo uma fonte oficial. De acordo com o secretário de Comunicação e Imprensa, Javier Lanari, a decisão incluiu a remoção das impressões digitais dos profissionais do sistema de acesso ao prédio.

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“A decisão de remover as impressões digitais dos jornalistas credenciados da Casa Rosada foi tomada como medida preventiva após uma denúncia da Casa Militar sobre espionagem ilegal. O único objetivo é garantir a segurança nacional”, afirmou, em publicação no X.

A identificação por impressão digital é o método padrão utilizado para autorizar a entrada de jornalistas na Casa Rosada. Após a declaração de Lanari, Milei compartilhou a mensagem acrescentando apenas a sigla “NOL$ALP” — abreviação de “não odiamos jornalistas o suficiente”, expressão que costuma usar em críticas à imprensa.

O governo, no entanto, não divulgou mais detalhes sobre a investigação em curso nem publicou comunicado oficial sobre a medida. Segundo relatos de profissionais afetados, o acesso à sala de imprensa foi completamente interrompido.

— Todos ficaram do lado de fora da sala de imprensa. Me disseram que é temporário — disse Lautaro Maislin, jornalista do canal C5N.

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A restrição atinge cerca de 50 jornalistas credenciados. De acordo com diversos veículos locais, a investigação tem duas frentes. Uma delas apura a atuação de uma suposta rede de espionagem russa que, segundo o governo, teria organizado uma campanha midiática contra Milei em 2024. A outra envolve uma denúncia criminal contra dois jornalistas do canal Todo Noticias, acusados de espionagem por realizarem filmagens em áreas não autorizadas do palácio presidencial.

Na quarta-feira, Milei comentou o caso nas redes sociais ao publicar uma foto dos profissionais investigados: “Gostaria muito de ver esses lixos imundos que possuem credenciais de imprensa (95%) vir a público defender o que esses dois criminosos fizeram”, escreveu. “Espero que isso chegue aos responsáveis”, acrescentou.

Em nota conjunta, os jornalistas credenciados pediram uma “resolução rápida” para o impasse e classificaram a decisão como “discricionária e sem aviso prévio”. Segundo o grupo, a medida representa “um ataque explícito à liberdade de imprensa, ao exercício da profissão e ao direito de todos os cidadãos ao acesso à informação”.

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Os profissionais também destacaram que não há precedentes para uma restrição desse tipo, “nem mesmo durante a ditadura civil-militar (1976-1983)”. Em relatório global recente, a Anistia Internacional alertou para a existência de “processos criminais e assédio judicial” contra jornalistas na Argentina.

A relação entre o governo Milei e a imprensa tem sido marcada por tensão desde o início do mandato, em dezembro de 2023, com episódios recorrentes de ataques verbais do presidente a jornalistas, frequentemente chamados por ele de “lixo”.