Sem os paraíbas, não existiria o Rio: da Feira de São Cristóvão a Luiz Gonzaga, a marca do Nordeste que moldou a cidade
Nessa altura do campeonato, até quem não ouvia nada sobre Ed Motta desde o lançamento da música “Manuel foi pro céu” está sabendo do que aconteceu em um restaurante no Jardim Botânico. Os jornais, portais e afins se dedicaram a semana toda a atualizar nuances do caso. Foi assim que aprendemos o que é a cobrança de rolha de vinho, por exemplo. Para quem fica à espera de uma promoção de supermercado, os preços das garrafas assustaram um bocado. Em um instante da confusão, que se desenrolou em áudio enviado por zap no dia seguinte, o cantor chamou o garçom de “paraíba” filho daquilo.
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Na virada do século XIX para o XX, houve uma crescente migração de nordestinos para o Rio de Janeiro. Atraídos pela pujança financeira da então capital do país, oportunidades de empregos que a República prometia, e fugindo, evidentemente, dos desafios de suas terras, pernambucanos, paraibanos e cearenses, entre outros, contribuíram e muito para o desenvolvimento da cidade — em diferentes áreas, vale deixar claro.
Uma das mais evidentes atuações foi como mão de obra na construção civil. Em abertura de avenidas, aterramentos ou construções faraônicas, como a Ponte Rio-Niterói, lá estavam eles, bravos, com seus sotaques e culturas. O Rio não seria e nem é feito sem os paraíbas, Manuel.
Feira de São Cristóvão
A viagem durava de 10 a 12 dias. Ao desembarcarem no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, milhares de nordestinos chegavam sem emprego, moradia ou qualquer rede de apoio. Muitos sequer tinham dinheiro para retirar as malas do bagageiro do pau de arara, que ficavam retidas pelo motorista como garantia de pagamento.
Em vez de acolhimento, encontravam preconceito. Parte da imprensa reforçava a ideia de que aqueles migrantes eram “menores”, vindos de um Brasil visto como atrasado e distante da civilização urbana carioca.
Mas a resistência veio pela cultura. Rapidamente, o Campo de São Cristóvão passou a ser ocupado por passos de forró, triângulo, zabumba, cordelistas e barracas de comidas típicas. O espaço se transformava em ponto de encontro, memória e pertencimento.
A Feira de São Cristóvão passou a ser reconhecida oficialmente como feira em setembro de 1945. Naquele período, soldados brasileiros que retornavam da Segunda Guerra Mundial passaram pelo local, e o poeta e cordelista paraibano Raimundo Santa Helena leu um folheto em homenagem ao grupo, marcando simbolicamente o início de uma nova trajetória.
Ao longo das décadas seguintes, a feira enfrentou diversas tentativas de remoção por diferentes gestões municipais. A legalização só veio em 1982. Em 2003, o funcionamento foi transferido para o atual pavilhão do Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, consolidando o espaço como um dos principais símbolos da cultura nordestina no Rio.
Por falar em Luiz Gonzaga
Foi na antiga zona de prostituição da cidade, conhecida como Mangue, que Luiz Gonzaga, o Gonzagão, começou a mostrar ao país o tamanho do seu talento. Pernambucano de Exu, depois de anos servindo ao Exército, ele reencontrou uma velha paixão de família: a música.
Foi um amigo quem o levou para tocar nas boates da região. Ali, Gonzaga se apresentava para turistas e estrangeiros, tocando repertórios que pouco tinham a ver com suas origens. Paralelamente, tentava espaço nos programas de calouros do rádio, mas colecionava fracassos e, muitas vezes, humilhações públicas.
Até que veio a virada. Durante uma apresentação, estudantes nordestinos que assistiam ao show foram diretos: mandaram que ele parasse de tocar música estrangeira e passasse a tocar música do sertão. O conselho mudou tudo.
Gonzagão começou a tocar xote, baião e ritmos que carregava desde sua cidadezinha de Pernambuco. O impacto foi imediato. O público parou para ouvir. Quando voltou aos programas de calouros, ele já sabia exatamente o que precisava mostrar. Até Ary Barroso, conhecido pelo rigor e pelas críticas duras, teve que reconhecer o talento de Gonzaga.
Não custa perguntar
Não seria mais fácil todos os restaurantes informarem no cardápio o valor da tal rolha? Será que, a partir de um mínimo de consumo, essa rolha não poderia ser de graça? Por fim, deve ser horrível ficar parado como estátua esperando um cliente balançar a taça, cheirar o vinho, olhar a textura, cheirar novamente, beber um golinho, cheirar pela terceira vez, olhar a textura por outro ângulo e, tal qual Nero, decidir se está bom ou não. Minha solidariedade aos garçons. E que saudade do Tim Maia.
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