Sem Orbán, União Europeia endurece pressão contra Israel com novas sanções a colonos

 

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Os ministros das Relações Exteriores dos países da União Europeia (UE) aprovaram nesta segunda-feira um pacote de sanções contra colonos israelenses na Cisjordânia, ligados a atos de violência contra os civis palestinos. Uma decisão em boa parte creditada à saída de cena de um dos principais aliados de Israel no continente, o agora ex-premier húngaro, Viktor Orbán, e que marca um novo ponto de inflexão nas relações do bloco com o país.

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Segundo o jornal israelense Haaretz, citando fontes com acesso à decisão, a lista inclui organizações de extrema direita como a Regavim, cujas lideranças são próximas de um ministro do Gabinete do premier Benjamin Netanyahu, Bezalel Smotrich. No ano passado, ele e seu colega de governo, Itamar Ben-Gvir, foram alvos de sanções de Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Noruega e Reino Unido, por incitação à violência contra palestinos na Cisjordânia e pela promoção dos assentamentos judaicos, ilegais pela lei internacional.

Além dos israelenses, as sanções incluem lideranças do grupo palestino Hamas, condição imposta por alguns governos para apoiarem a medida.

“Já era hora de sairmos do impasse e partirmos para a ação. Extremismos e violência têm consequências”, escreveu na rede social X a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas.

Gideon Sa’ar, chanceler de Israel, disse que a UE escolheu “impor sanções a cidadãos e entidades israelenses devido às suas opiniões políticas e sem qualquer fundamento”. Smotrich pediu a Netanyahu que acelere um plano de anexação de terras palestinas em resposta a Bruxelas. Em comunicado, Ben-Gvir acusou o bloco de ser “antissemita”.

Delegação da União Europeia visita vila nos arredores de Hebron, na Cisjordânia, atacada por colonos israelenses

Mosab Shawer / Middle East Images via AFP

Embora as punições tenham sido consideradas brandas por alguns — um eurodeputado irlandês disse que era um “belo passo inicial (de bebê)” —, elas confirmam uma mudança de ares nas capitais europeias em relação a Israel. A saída de cena de Viktor Orbán na Hungria, após derrota nas urnas, afastou o líder mais pró-Israel na UE, e que há anos exercia seu poder de veto para impedir punições ao país. Sem ele, o pacote foi aprovado por unanimidade, como exigem as normas do bloco.

— Agora a discussão sobre influência e pressão voltou à mesa — disse Martin Konečný, diretor do Projeto Europeu para o Oriente Médio, em Bruxelas, ao jornal britânico Guardian. — Se você der um passo e a situação não melhorar, a pressão para dar o próximo passo aumenta muito rapidamente.

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Não foi a primeira vez em que a UE aplicou sanções contra colonos israelenses. Em abril de 2024, o bloco, ao lado dos EUA, impôs medidas a pessoas e organizações envolvidas em ataques contra palestinos. Dois anos depois, a maioria dos governos europeus defende ações ainda mais duras, refletindo uma mudança mais ampla na visão da sociedade local sobre Israel.

Em 2025, uma pesquisa global do Instituto Pew apontou que mais de 60% dos entrevistados em oito países europeus tinham uma opinião desfavorável sobre Israel. Mesmo na Hungria de Orbán, o índice foi de 53%. Uma outra sondagem, do YouGov, revelou que o apoio a Israel no continente era o mais baixo já registrado, com até 70% de desaprovação. Na Alemanha, uma pesquisa da rede ARD, de março, mostrou que apenas 17% dos entrevistados veem Israel como um parceiro confiável.

As imagens da destruição na Faixa de Gaza, causada pela guerra lançada após os ataques do Hamas em outubro de 2023, mobilizaram a opinião pública nos últimos três anos de maneira pouco vista em tempos recentes. Um número crescente de políticos passou a acusar Israel de cometer genocídio, citando os mais de 70 mil mortos, e ao menos quatro países da UE se juntaram à África do Sul no processo contra Israel na Corte Internacional de Justiça.

Mulher e criança atravessam rua perto de batalhão do Exército israelense no campo de refugiados de Qalandia, na Cisjordânia

Zain JAAFAR / AFP

A violência dos colonos na Cisjordânia, muitas vezes com o apoio de militares, engrossou as críticas, especialmente diante de planos de anexar o território palestino. Segundo o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários, 1.091 palestinos foram mortos entre 7 de outubro de 2023, quando ocorreu o ataque do Hamas, e 3 de maio. Em março de 2026, um levantamento da Acled, projeto de mapeamento global de crises, relatou ataques em 29 áreas da Cisjordânia, e destacou que o número de vítimas disparou logo após o início da ofensiva contra o Irã.

“É necessária uma ação ousada e imediata, e todas as medidas devem permanecer em cima da mesa”, escreveram, em comunicado, os chanceleres de Irlanda, Espanha e Eslovênia, em uma carta a Kallas, em abril.

Mapa de ataques de colonos israelenses na Cisjordânia

Editoria de Arte

No fim do mês passado, em uma tensa reunião de chanceleres, os representantes de Itália e Alemanha bloquearam uma iniciativa para congelar um acordo entre a UE e Israel, em vigor desde 2000, uma ação que tem o apoio da maioria dos governos. Mas em um caminho paralelo, países como França e Suécia querem restringir o comércio de produtos e serviços ligados a assentamentos na Cisjordânia — Eslovênia e Espanha já aprovaram, no ano passado, legislações sobre o tema, enquanto Holanda, Irlanda e Bélgica prometem fazer o mesmo. Em 2019, a Corte Europeia de Justiça determinou que todos os produtos originados de assentamentos tragam um aviso nas embalagens.

— A ausência de medidas significativas contra Israel, em contraste com as extensas sanções impostas à Rússia, levantou preocupações sobre a existência de dois pesos e duas medidas e corre o risco de minar a credibilidade internacional da UE — afirmou Pasquale Ferrara, ex-diplomata e acadêmico italiano de alto escalão, ao jornal britânico Guardian.

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Nem só no campo político se faz a pressão. Islândia, Irlanda, Holanda, Eslovênia e Espanha anunciaram que não participarão do Festival Eurovision, um dos maiores eventos culturais da Europa, em protesto contra a presença de Israel, também criticada por mais de mil artistas. A Rússia, por sua vez, foi banida em 2022, após o início da guerra na Ucrânia.

Segundo o jornal New York Times, o governo israelense se envolveu politicamente no evento nos últimos anos, uma manobra pouco usual no histórico da competição e que ativistas dizem ter interferido nos resultados: em 2025, a representante do país, Yuval Raphael, ficou em segundo lugar.

Na Bienal de Veneza, cerca de 200 artistas pediram a exclusão de Israel, mas seu representante, Belu-Simion Fainaru, foi autorizado a participar. Na véspera da abertura oficial ao público, quando ocorreu a pré-visitação, vários pavilhões — incluindo Coreia do Sul, Japão e Holanda — fecharam temporariamente as portas, enquanto outros, como a Áustria, exibiram mensagens a favor da Palestina. Houve protestos diante do local destinado à exposição israelense.

No Congresso da Fifa, Infantino (centro) tenta fazer os representantes de Israel (esq) e Palestina (dir) se cumprimentar

Don MacKinnon/AFP

Nos gramados, a Uefa, que rege o futebol na Europa, enfrenta pressão para suspender a seleção de Israel e os clubes do país de competições internacionais, ainda sem definição clara. Em março, a Fifa rejeitou ação movida pela Federação Palestina de Futebol, relacionada à participação de clubes de assentamentos na Cisjordânia, alegando que o status do território “é uma questão não resolvida e altamente complexa no âmbito do direito internacional público” — contudo, os israelenses foram multados em 150 mil francos suíços (R$ 946 mil) por por “múltiplas violações” de regras contra a discriminação. Na Irlanda, atletas, jornalistas e ex-jogadores querem que a federação boicote uma partida contra Israel em setembro. Até o momento, o jogo está mantido.