A fome em Oleshky chegou a tal ponto que muitos dos que restam na cidade ucraniana ocupada pela Rússia passaram a cozinhar plantas do quintal para sobreviver, segundo relatos à rede britânica BBC. Isolada entre o rio Dnipro e as linhas russas, a cidade está há três anos sem eletricidade, gás e água, e as estradas de saída foram minadas e são alvo de drones.
O cessar-fogo que entrou em vigor nesta terça-feira e vai até o próximo domingo deve permitir a entrada de alimentos e remédios e a saída de quem quiser deixar a cidade. Mas a rota combinada passa por território russo, e muitos moradores temem ser detidos, feridos ou impedidos de voltar à Ucrânia.
Cessar-fogo temporário: Trégua humanitária é iniciada na cidade ucraniana de Oleshky, ocupada pela Rússia Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países
Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Kiev estima que até 6 mil pessoas, entre elas 200 crianças, ainda estejam em Oleshky e arredores, das quais cerca de 1.700 na cidade.
Antes da guerra, eram 24 mil habitantes. A cidade foi tomada pela Rússia nos primeiros dias da invasão em larga escala, em fevereiro de 2022.
Segundo moradores ouvidos pela BBC, só um hospital funciona parcialmente, alguns dias por semana, para fazer amputações urgentes. Uma mulher que pisou numa mina terrestre contou à emissora que já passou por duas cirurgias e teme não conseguir participar da retirada durante o cessar-fogo tempor.
A trégua deve permitir também a limpeza das minas nas estradas, para que os moradores possam sair em segurança. O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que suas tropas vêm fazendo “reconhecimento de engenharia” e retirando explosivos e armadilhas das principais vias de acesso.
Mas muitos detalhes do plano ainda são incertos, como onde se inscrever para a retirada, se é possível levar animais de estimação e qual futuro terão os que deixarem suas casas. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, alertou que as rotas desminadas levarão os civis “em direção à Rússia”, embora tenha dito que alguns chegarão a território ucraniano “de um jeito ou de outro”.
Zelensky discursa na Assembleia Geral da ONU TIMOTHY A.
CLARY/AFP — É de importância crítica que esta missão para resgatar nossa gente avance com sucesso e segurança — disse o chefe de gabinete de Zelensky, Kyrylo Budanov.
'Todos têm medo' Há também desconfiança.
Alguns temem que Moscou não os deixe seguir para território ucraniano, ou que revise seus celulares e redes sociais em busca de sinais de apoio a Kiev, o que poderia levar a detenções e tortura. — Não acredito na humanidade da Rússia — disse um morador à BBC.
No mês passado, o Kremlin reconheceu que a cidade enfrentava uma “situação crítica” e “problemas no abastecimento de alimentos e remédios”, mas culpou Kiev. Leia também: Rússia rejeita reduzir ataques à Ucrânia durante negociações, mas cita possibilidade de tréguas humanitárias limitadas
Do outro lado do rio, em Kherson, maior cidade ucraniana na linha de frente, a trégua trouxe alívio, mas também apreensão. Segundo a rede americana CNN, dois civis morreram e 38 ficaram feridos na região, entre eles seis crianças, desde 20 de outubro.
Com a pausa nos ataques de drones, moradores saíram às ruas para ver as casas danificadas, algo que não conseguiam fazer. — As pessoas estão felizes, mas todos têm medo de que, depois do cessar-fogo, venha um ataque inacreditável — disse à CNN a moradora Zhanna Yakovleva.
Mediação de Melania Segundo o comissário de Direitos Humanos do Parlamento ucraniano, Dmytro Lubinets, que viajou à região para coordenar a operação, a trégua faz parte de uma missão humanitária mediada pela primeira-dama americana, Melania Trump, em cooperação com a comissária russa de Direitos Humanos, Yana Lantratova.
O presidente dos EUA, Donald Trump, acompanha cerimônia em memória das vítimas do 11 de Setembro no Pentágono, ao lado da primeira-dama Melania Finn Gomez/Getty Images/AFP
Na última sexta-feira, Melania anunciou que havia atuado como “intermediária exclusiva” entre os dois lados. Segundo seu gabinete, a situação de Oleshky chegou a ela durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro.
“Os moradores que quiserem sair receberão apoio coordenado e transporte até o destino de sua preferência. Imagino que alguns vão querer ir para a Rússia, e outros, para a Ucrânia”, afirmou a primeira-dama em comunicado.
Na Índia: Putin diz que o envio de tropas europeias à Ucrânia significaria guerra com a Rússia, que não descarta retomar negociações em outubro O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, creditou a ela uma “contribuição significativa”, e Zelensky disse que Kiev negociava o acordo havia “algum tempo”.
O Papa Leão XIV também apelou ao presidente russo, Vladimir Putin, neste mês, pela entrada de alimentos e remédios em Oleshky e pela retirada segura dos civis. Fora da cidade, os combates continuaram.
Na noite de segunda-feira, um ataque russo a Kiev atingiu uma universidade e uma ponte, matando uma mulher de 46 anos e ferindo mais de uma dezena de pessoas. Na Rússia, um ataque de drone ucraniano matou uma pessoa e feriu seis em Bryansk.
O Globo