Sem jogos, estádio do Pacaembu sofre com obras paradas e dívida de R$ 11 milhões
Concedido à iniciativa privada em 2019, na gestão Bruno Covas (PSDB), o estádio do Pacaembu, na Zona Oeste da capital paulista, reabriu parcialmente no ano passado, mas até hoje não recebeu o alvará definitivo da prefeitura, devido a obras pendentes que ainda impedem a emissão do documento. Ao atraso nas construções, somam-se mais de R$ 11 milhões em dívidas cobradas na Justiça da Allegra Pacaembu, gestora do contrato. Símbolo do futebol paulistano, o espaço não tem realizado jogos oficiais, mas vem promovendo shows e outras atividades.
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Apesar de entregar as obras obrigatórias no caderno de encargos, entre elas a reforma das arquibancadas, do gramado e do clube esportivo, a concessionária optou por também demolir o antigo “tobogã” — que comportava público de 10 mil pessoas — e construir em seu lugar um prédio de cinco andares, além de uma enorme passarela para ligar duas ruas no entorno do estádio, a Itápolis e a Desembargador Paulo Passaláqua. A empreitada adicional, porém, está paralisada desde meados de 2025, situação que inviabiliza a obtenção do alvará.
Sem máquinas nem operários, tanto o prédio, que abrigará um hotel, quanto a passarela seguem incompletos. Procurada, a concessionária afirma que os trabalhos serão reiniciados em maio, com previsão de finalização em outubro de 2027, dois anos após o prazo inicial.
Da conta de água a portas
As pendências na Justiça são outro complicador. O GLOBO obteve acesso a 46 processos, entre eles os que cobram falta de pagamento de conta de água (R$ 500 mil), compra de portas de ferro e inadimplências com empreiteiras contratadas para tocar serviços agora parados. Duas ações cobram da Allegra R$ 1,7 milhão pela locação de máquinas e equipamentos.
Além disso, há outros fornecedores que por ora optaram por não judicializar a dívida. Um informou que começou a prestar serviço em 2024, mas a partir do fim de 2025 deixou de receber o combinado e simplesmente parou de trabalhar. A conta já passa dos R$ 100 mil.
O atraso para a conclusão do prédio e da passarela, além das cobranças judiciais, não impedem que o Pacaembu opere em outras áreas, subutilizadas quando o estádio era municipalizado, com número significativo de usuários diários. Embaixo das cadeiras numeradas, nos dois lados do gramado, há uma academia, um café recém-inaugurado e a atuação, nas próximas semanas, de uma rádio FM. Existe também um salão de eventos.
Na área esportiva voltada à população, tanto a pista de corrida (gratuita, sem exigência de cadastro) quanto piscina e quadras estão abertas e funcionando normalmente. Nestes casos, é preciso baixar aplicativo para se cadastrar, com parte dos serviços gratuitos e outros cobrados.
Em outra frente de negócios, o estádio, rebatizado em janeiro do ano passado de Mercado Livre Arena Pacaembu, em transação que renderá R$ 1 bilhão à Allegra em 30 anos, continua promovendo shows, partidas amadoras e exposições, realizados por meio de licenciamentos específicos da prefeitura. Tanto o gramado quanto o centro de convenções subterrâneo, com 4.500 metros quadrados (e capacidade de 8.500 pessoas), receberam 150 eventos no ano passado.
— Este ano a gente já tem mais de 200 eventos vendidos. O Pacaembu, que no ano passado teve oito shows, já tem, até agora, 22 espetáculos confirmados. A gente tem muita coisa boa acontecendo — afirma o CEO da Allegra Pacaembu, Eduardo Barella.
O gestor destaca um evento de música eletrônica realizado no fim de semana passado, que começou no gramado e terminou no centro de convenções subterrâneo:
— O festival aconteceu durante o dia e a partir das 11 horas se estendeu para o centro de tênis, o ginásio poliesportivo e um dos salões de eventos, o Itápolis, na Alameda Leste.
Embora tenha conversado com o GLOBO por cerca de meia hora, Barella disse que se pronunciaria sobre as cobranças judiciais de R$ 11 milhões apenas por meio de nota. A concessionária informou “que mantém negociações com alguns fornecedores em torno de compromissos financeiros que, somados, representam menos de 1,5% do valor total de R$ 800 milhões investidos no empreendimento”.
“As tratativas decorrem de divergências relacionadas à fase de conclusão do projeto. Em fevereiro, foi estruturada a etapa final de financiamento do empreendimento, liderada por uma instituição bancária de primeira linha, em operação respaldada pela classificação AA atribuída pela Fitch”, conclui o texto.
Futebol escanteado
Enquanto acumula dívidas, obras paradas e eventos em outras áreas, o Pacaembu, inaugurado em 27 de abril de 1940, tem deixado de lado sua vocação original, o futebol. Os mais recentes jogos profissionais no estádio ocorreram no início de 2025, quando a Portuguesa de Desportos realizou seis partidas no endereço, do Paulistão e da Copa do Brasil. Depois disso, apenas eventos corporativos e pelejas amadoras foram realizados no gramado sintético. O motivo é justamente o piso.
— O nível de aceitação da grama artificial hoje é diferente do observado no início da concepção do projeto. Diante desse novo contexto, a concessionária avalia alternativas, como a adoção de tapetes de grama natural utilizados na Copa do Mundo de Clubes da FIFA, com o objetivo de compatibilizar a realização das partidas com a agenda de eventos — sustenta Barella.
Antes disso, o CEO da Allegra havia conversado com dirigentes de times de São Paulo e de outros estados para que fossem mandantes de partidas no Pacaembu, mas a rejeição ao tipo de gramado inviabilizou seus planos. Procurado, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), não comentou sobre os débitos judiciais da concessionária.
