O esgotamento da cota de exportação de carne bovina para a China em 2026 impactou a cadeia frigorífica nacional de forma geral, mas a situação é mais delicada para as empresas do Pará.
O Estado não tem habilitação para exportar para outros mercados, como Estados Unidos, Chile, México e União Europeia, que poderiam absorver parte das cargas que deixarão de ser enviadas aos chineses neste ano.
Segundo a Associação Brasileira dos Frigoríficos (Abrafrigo), os efeitos já começaram a ser sentidos pelas empresas paraenses em julho, com queda “substancial” nas exportações.
Dados do Agrostat, compilados pela reportagem, mostram que os frigoríficos paraenses exportaram 130 mil toneladas de carne bovina entre janeiro e julho de 2026, com faturamento de US$ 745,2 milhões.
A China importou quase 90 mil toneladas no período, com negócios de US$ 552,3 milhões.
Em julho, as vendas do Pará para a China caíram pela metade.
Saíram de 15,8 mil toneladas em junho para 7,3 mil toneladas e US$ 48,2 milhões em faturamento.
Ao considerar todos os destinos, os embarques recuaram de 20,6 mil toneladas para 14,8 mil toneladas, o que demonstra a importância do mercado chinês para as empresas locais.
“Com a cota da China para o Brasil praticamente esgotada, o cenário para os meses restantes do ano traz preocupações para os exportadores, em especial os que não dispõem de alternativas relevantes de mercados, como é o caso das indústrias localizadas no Estado do Pará”, disse a Abrafrigo, em nota.
“O desempenho do Estado, que já era prejudicado antes da decretação da quota chinesa, deverá ser agravado ainda mais”, completou.
Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior, o Brasil exportou 308,2 mil toneladas de carne bovina em julho para todos os destinos, redução de 16% na comparação com o mesmo mês de 2025.
Desde o mês passado, os frigoríficos brasileiros pisaram no freio na produção e exportação de cortes específicos para a China diante do avanço do preenchimento da cota.
As vendas para os chineses caíram 39,6% em receitas, para US$ 529,2 milhões, e 47,8% em volume, para 82,7 mil toneladas no mês passado.
Apenas em 10 de agosto o governo chinês informou que 90% do volume autorizado para o ano, de 1,106 milhão de toneladas, foi ocupado.
Mas a perspectiva é de esgotamento com as cargas que estão em trânsito.
Segundo maior rebanho
O Pará tem o segundo maior rebanho bovino do país, com 25,56 milhões de cabeças atrás apenas de Mato Grosso, com 32,85 milhões, mas é apenas o quarto colocado em abates (3,9 milhões de cabeças, em 2025) e o sétimo em exportações de carne bovina, com 222,1 mil toneladas no ano passado, conforme dados levantados pela Abrafrigo.
“Isso indica que o desempenho exportador do Pará está muito aquém do seu potencial, deixando de gerar renda para produtores rurais, indústrias frigoríficas e outros serviços relacionados, além de perda de receitas para o Estado e para o país como um todo”, disse a entidade.
A situação de aperto será agravada nos próximos meses, segundo a Abrafrigo, sem a China no portfólio de exportações.
“Embora parte da carne que seria vendida à China possa ser redirecionada para outros destinos ou mesmo para o mercado interno, não há alternativas viáveis para absorver todo o excedente de produção do segundo maior rebanho bovino do país”, indicou.
Em 2025, a China representou 77% das exportações dos frigoríficos paraenses.
Oito plantas estão habilitadas para embarcar aos chineses.
A Abrafrigo disse que não há justificativa técnica ou sanitária para manter o Pará fora de importantes mercados de exportação.
O Estado, assim como todo o país, tem o status de livre de febre aftosa sem vacinação, ressaltou a entidade.
“O Pará precisa ser tratado como prioridade nas negociações com vistas à sua aprovação para todos os mercados relevantes com os quais o Brasil comercializa a sua carne”, completou.
A associação citou o avanço das exportações para os EUA e as perspectivas favoráveis para o restante do ano, diante do elevado déficit de abastecimento da proteína no país.
Na semana passada, o presidente Donald Trump anunciou a isenção da tarifa de importação, de 26,4%, para até 300 mil toneladas de carne.
O Brasil tem potencial para ocupar boa parte do volume, mas o Pará não tem habilitação para vender aos americanos.
Os frigoríficos brasileiros aguardam a publicação da ordem executiva de Washington com a definição dos critérios dessa comercialização.
“Apesar de todo o esforço que vem sendo feito para ampliação de mercados para a carne bovina brasileira, é preciso lembrar que o setor ainda possui uma elevada dependência em poucos mercados”, ressaltou a Abrafrigo.
Mercado concentrado
Entre janeiro e julho de 2026, os cinco maiores importadores de carne bovina brasileira foram China, Estados Unidos, Chile, União Europeia e Rússia.
As vendas renderam US$ 7,9 bilhões, que representaram 75,5% das exportações do produto in natura.
Esses mercados absorveram 1,27 milhão de toneladas, ou 73,4% total no perído.
“Essa elevada concentração é especialmente preocupante em um cenário de agravamento dos problemas geopolíticos atuais, como as guerras e as disputas tarifárias, que causam aumentos de custos e instabilidades no mercado, afetando especialmente os produtores dos Estados que, além de tudo, ainda sofrem com barreiras comerciais”, reforçou a entidade.
Segundo dados compilados pela Abrafrigo, 116 países aumentaram suas compras de carne bovina do Brasil enquanto outros 60 reduziram suas importações de janeiro a julho deste ano.
