Sem concessões do Irã, Trump cogita ataque para fragilizar regime, mas países alertam para cenários de caos na região

 

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Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, mantém suspense sobre a decisão de lançar (ou não) um ataque de grande porte ao Irã, países da região se lançam em uma ofensiva diplomática para evitar um cenário potencialmente catastrófico, com impactos além das fronteiras da República Islâmica. Mas Trump parece incomodado com a resistência dos iranianos em aceitarem um acordo sob seus termos: de acordo com a imprensa americana, planos para fragilizar e derrubar o regime estão sobre a mesa, mas torná-los reais pode ser mais difícil do que ele gostaria.

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Nesta quinta-feira, o ministro da Defesa saudita, Khalid bin Salman, próximo do príncipe herdeiro, Mohammad bin Salman, chegou a Washington para reuniões com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com Steve Witkoff, negociador-chefe da Casa Branca. A mensagem é similar à enviada por Riad desde que Trump retomou as ameaças militares contra Teerã: a de que um ataque mais poderoso do que o do ano passado, voltado às instalações nucleares do Irã, vai desestabilizar a região.

Há cerca de duas semanas, quando Trump parecia decidido a bombardear o Irã, sob justificativa de apoiar os protestos contra o regime, os sauditas, ao lado de Catar, Omã e Egito, convenceram o presidente a não atacar. Mas agora, com o republicano exigindo um acordo maximalista, pelo qual o Irã abriria mão do programa nuclear, faria concessões militares que incluem restrições ao programa de mísseis balísticos e o desmantelamento da rede de milícias aliadas, o desafio é ainda maior.

Porta-aviões USS Abraham Lincoln, deslocado para o Oriente Médio

Zachary PEARSON / Marinha dos EUA / AFP

Os iranianos reiteram seu direito a atividades nucleares pacíficas e alegam que seus mísseis balísticos são uma ferramenta de defesa contra nações consideradas hostis. Publicamente, o regime não está disposto a ceder, e Trump soa cada vez mais impaciente. Mas em mensagens transmitidas por emissários e nas entrelinhas dá a entender que não fechou as portas à diplomacia.

À rede CNN, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento, afirmou que o governo está disposto a negociar, desde que as conversas fossem “genuínas”, ao mesmo tempo em que criticou a retórica trumpista.

— Não acho que esse seja o tipo de conversa (genuína) que o presidente dos Estados Unidos busca, ele só quer impor [sua vontade] — afirmou Ghalibaf. — Talvez Trump possa iniciar uma guerra, mas ele não tem controle sobre como ela terminará.

Abbas Araghchi, chanceler do Irã

ATTA KENARE / AFP

Em mais uma frente diplomática, Araghchi irá à Turquia nesta sexta-feira, onde ouvirá que o governo local se opõe a uma guerra no Oriente Médio, mas também será aconselhado a fazer concessões, por mais dolorosas que sejam, aos americanos, além de gestos de confiança aos vizinhos.

— É errado atacar o Irã. É errado recomeçar a guerra. O Irã está pronto para negociar a questão nuclear — disse o chanceler turco, Hakan Fidan, à rede al-Jazeera. — Pode parecer humilhante para eles (Irã). Será muito difícil explicar isso não só para si mesmos, mas também para a liderança. Portanto, se pudermos tornar as coisas mais tolerantes, acredito que isso ajudará.

Nesta colagem de fotos, à esquerda, o presidente dos EUA Donald Trump, durante discurso em Washington; à direita, o Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, durante discurso em Teerã

BRENDAN SMIALOWSKI e KHAMENEI.IR / AFP

De acordo com a agência Reuters, citando fontes da Casa Branca, se Trump autorizar um ataque, ele deve ter como objetivo final o enfraquecimento do regime, criando “condições para que ele seja derrubado”. Pelo plano, afirma a Reuters, alvos ligados aos serviços de segurança da República Islâmica — responsável pela repressão que deixou milhares de mortos nos protestos das últimas semanas —, instalações militares e nucleares (já atingidas em junho do ano passado) e membros do alto escalão. O líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, seria um dos alvos.

Mas como apontam estrategistas militares, mesmo que a cúpula do regime seja eliminada, não há sinais de que as Forças Armadas ou a Guarda Revolucionária, que controla as engrenagens militares e econômicas do Irã, aceitariam um novo governo aliado ao Ocidente. Caso a atual liderança seja afastada, a hipótese mais provável é a de que um governo comandado por militares e ainda mais linha-dura assuma o poder. Nesta quinta-feira, a União Europeia incluiu a Guarda Revolucionária na lista de organizações terroristas do bloco, citando a repressão dos protestos, uma decisão chamada de "grande erro estratégico" por Araghchi

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Uma transição democrática, como sonham alguns em Washington, depende de fatores internos, como um levante popular, similar ao visto em 1979 contra o xá. Embora os protestos tenham enfraquecido o regime, eles não têm uma liderança única, similar à de Ruhollah Khomeini há cinco décadas, tampouco pautas conjuntas e claras. O nome de Reza Pahlevi, filho do último xá e exilado nos EUA, ganhou força entre os manifestantes, mas segue longe de ser unanimidade. Se Trump quer ver autoridades favoráveis em Teerã pela via militar, o custo pode ser elevado.

— Se você quer derrubar o regime, precisa colocar tropas no terreno — disse à Reuters um integrante do governo israelense, a par das conversas estratégicas entre seu país e os EUA, em condição de anonimato.

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Para países como Turquia, Arábia Saudita e mesmo Israel, o momento posterior a um hipotético ataque também causa arrepios. Os iranianos afirmaram que usarão seus arsenais balísticos e de drones contra as forças americanas e também contra Estados “hostis”. No ano passado, Teerã lançou centenas de mísseis contra Israel durante a guerra de 12 dias, e atacou a base de al-Udeid, usada pelos americanos no Catar, após Trump bombardear instalações nucleares. Agora, com a ameaça de uma intervenção que põe a sobrevivência do regime em xeque, os cenários parecem ainda mais sombrios.

Mapa de cenários após um eventual ataque americano ao Irã

Editoria de Arte

Um alvo certo seriam as forças americanas no Oriente Médio, localizadas em navios no Golfo Pérsico e Mar da Arábia e em bases distribuídas por toda a região. Embora nações como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar tentem se distanciar de um ataque, instalações dos EUA em seus territórios podem ser atingidas, com o risco de mortes e danos colaterais às suas próprias estruturas.

Mesmo Israel, que vê no Irã uma ameaça existencial, pediu, há duas semanas, que Trump não atacasse os iranianos, alegando que seus sistemas de defesa aérea não estão preparados para uma retaliação de grande porte — nesta quinta-feira, um representante israelense foi a Washington para compartilhar informações de inteligência sobre alvos estratégicos. O fechamento do Estreito de Ormuz, ameaça recorrente de Teerã, teria impactos econômicos globais com a redução do volume de petróleo e gás disponíveis no mercado.

Míssil é lançado do Irã a Israel, no sexto dia de conflito

ATTA KENARE / AFP

A queda violenta do regime e o início de uma guerra levaria milhões de pessoas a buscarem refúgio em locais como Iraque e, principalmente, Turquia, que recebeu boa parte dos sírios que deixaram sua nação após o início do conflito civil.

Em Ancara, diplomatas temem que um governo fragilizado abra caminho para a fragmentação. Um medo específico é o empoderamento dos curdos: o Partido da Vida Livre do Curdistão, um grupo armado que atua no Curdistão iraniano, apoia a queda da República Islâmica e é aliado do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), presente na Turquia e que no ano passado anunciou o fim da luta armada. Para analistas, o fortalecimento do “braço” iraniano poderia incentivar os curdos "turcos" a repensar a decisão