Sem citar EUA ou Venezuela, líder chinês critica ‘intimidação hegemônica’ e pede respeito ao direito internacional
Em sua primeira manifestação pública desde a invasão dos Estados Unidos na Venezuela no sábado, o presidente da China, Xi Jinping, fez nesta segunda-feira uma crítica indireta à atuação americana, ao afirmar que “práticas de unilateralismo e de intimidação hegemônica estão afetando gravemente a ordem internacional”. A declaração foi feita durante um encontro em Pequim com o primeiro-ministro da Irlanda, Micheál Martin, segundo nota oficial divulgada pela agência estatal chinesa Xinhua.
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Sem citar os EUA ou Trump, Xi defendeu que “todos os países devem respeitar o direito de outros povos de escolher de maneira independente seu próprio caminho de desenvolvimento”, além de cumprir o direito internacional e os princípios da Carta da ONU. A declaração foi coerente com o histórico do líder chinês, que raramente cita de maneira direta qualquer país ou chefe de Estado em seus discursos. Ainda assim, deixou clara a posição da China diante do que ele definiu como um mundo que vive “uma sobreposição de mudanças e turbulências”.
— As grandes potências, em particular, devem dar o exemplo — afirmou.
O chinês observou ainda que China e Irlanda compartilham o apoio ao multilateralismo e à defesa da equidade e da justiça internacionais. Segundo o comunicado oficial de Pequim, ambos os países defenderam o “fortalecimento da coordenação em assuntos globais, a preservação da autoridade das Nações Unidas e a promoção de um sistema de governança global que avance em uma direção mais justa e razoável”. As declarações ocorrem em meio à reação cautelosa de Pequim à ofensiva americana. Embora tenha adotado um tom crítico, o governo chinês manteve a resposta no campo diplomático e retórico.
Aliança política
A China tem sido um dos principais aliados políticos e econômicos do regime venezuelano liderado por Nicolás Maduro, capturado na madrugada de sábado por forças de elite dos Estados Unidos. Pequim figura como maior credora da dívida venezuelana, parceira comercial estratégica e principal compradora do petróleo do país sul-americano.
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A proximidade entre os dois governos ficou evidenciada na última atividade pública de Maduro antes de sua prisão: a recepção oficial, na noite de sexta-feira, de Qiu Xiaqi, enviado especial de Xi Jinping para Assuntos Latino-Americanos. O encontro, realizado no Palácio de Miraflores, durou mais de três horas. Ao final, Maduro descreveu a relação bilateral como “uma união perfeita, à prova de tudo e em todos os momentos”, expressão que dá nome à associação estratégica firmada entre os dois países em 2024, durante visita do venezuelano a Pequim.
Nos últimos meses, à medida que a pressão americana se intensificava, a China manteve apoio político constante a Caracas, com a divulgação de notas oficiais e a solicitação de reuniões do Conselho de Segurança da ONU para tratar da situação no país. Após a intervenção e a captura de Maduro, o Ministério das Relações Exteriores da China condenou o que classificou como “comportamento hegemônico” de Washington e exigiu a libertação imediata do venezuelano e de sua esposa, Cilia Flores.
Nicolás Maduro e Xi Jinping inspecionam guardas de honra chineses durante cerimônia de boas-vindas em Pequim
JHONN ZERPA / Presidência da Venezuela / AFP
Em nota divulgada no sábado, a chancelaria afirmou estar “profundamente consternada” e condenou o “uso temerário da força” contra um Estado soberano. No domingo, voltou a pedir garantias à integridade física do casal e a interrupção de ações destinadas a “subverter o regime venezuelano”. Segundo a avaliação de Pequim, a intervenção americana representa uma “grave violação” do direito internacional, um ataque à soberania da Venezuela e uma ameaça à paz e à segurança da América Latina e do Caribe.
— A cooperação entre China e Venezuela é uma cooperação entre Estados soberanos, protegida pelo direito internacional e pelas leis de ambos os países — disse nesta segunda-feira o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, acrescentando que a China acompanha de perto a situação e que, independentemente da evolução do cenário político venezuelano, Pequim mantém a disposição de aprofundar a cooperação bilateral em diversas áreas.
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Lin também estendeu a mensagem à região, ao reafirmar o apoio da China ao status da América Latina e do Caribe como zona de paz. Segundo o porta-voz, Pequim se opõe ao uso ou à ameaça do uso da força nas relações internacionais e rejeita a interferência de forças externas nos assuntos internos dos países latino-americanos, “sob qualquer pretexto”. Assim como no fim de semana, o governo chinês também pediu a Washington que “cesse os esforços para subverter o governo venezuelano e resolva as questões por meio do diálogo e da negociação”.
Reação iraniana
A posição chinesa foi acompanhada por manifestações semelhantes do Irã, outro aliado próximo do governo venezuelano. Também nesta segunda-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baqaei, classificou a operação americana como um “ato ilegal” que “não é motivo de orgulho”. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores pediu interferência das Nações Unidas e afirmou que a ação dos EUA contra um Estado-membro da ONU constitui uma grave ameaça à paz e à segurança regionais e internacionais.
As declarações de Teerã ocorrem em um momento de elevada tensão entre Irã e Estados Unidos. Na última semana, Trump voltou a ameaçar o país persa, advertindo que Washington interviria caso manifestantes pacíficos fossem mortos em meio a protestos internos. Após relatos de mortes, as declarações do presidente americano foram classificadas pelo chanceler iraniano como “imprudentes e perigosas”. Embora as tensões de Washington com Caracas e Teerã tenham origens e dinâmicas distintas, analistas afirmam que a iniciativa de Trump contra Maduro aumenta as chances de uma guerra com o Irã.
— Uma nova ilegalidade torna tudo menos estável e torna a guerra mais provável — disse Jamal Abdi, presidente do Conselho Nacional Irã-Americano (NIAC), à rede catari al-Jazeera. — Seja porque Trump passe a se encantar com mudanças de regime ‘cirúrgicas’, seja porque dê a Netanyahu um aval americano para ações semelhantes, é difícil não enxergar como isso dá impulso aos muitos atores que pressionam por uma nova guerra com o Irã. (Com AFP)
