O silêncio incomum no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) já dava, desde os primeiros minutos da sessão desta terça-feira, a dimensão da tensão que cercava o julgamento sobre os desdobramentos do caso Master. Ao longo de horas, o clima oscilou entre conversas reservadas, momentos de constrangimento, discussões públicas e algumas poucas risadas. O ponto de maior tensão, porém, ficaria para os minutos finais: um bate-boca entre Gilmar Mendes e André Mendonça, com direito a dedo em riste, antecedeu o pedido de vista de Flávio Dino que interrompeu o julgamento. As primeiras imagens da sessão já destoavam da rotina do plenário. Havia muitas cadeiras vazias na área destinada ao público, ocupada principalmente por assessores e jornalistas. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Beto Simonetti, acompanhava o julgamento na primeira fila. O esquema de segurança também chamava a atenção, com forte presença da Polícia Judicial. Dentro do plenário, o uso de celulares não era permitido à plateia. Os aparelhos precisaram ficar de lado durante as horas de julgamento e, para quem acompanhava a sessão de dentro — inclusive os jornalistas —, sobraram os métodos tradicionais: cadernos e canetas para registrar falas, movimentos e reações. Os ministros, por outro lado, podiam utilizar seus celulares, além dos computadores instalados nas bancadas. Enquanto o presidente do STF, Edson Fachin, lia o relatório, os ministros se concentravam em documentos espalhados sobre as bancadas. Consultavam papéis, faziam marcações, mexiam nos computadores e trocavam poucas palavras. Gilmar chegou a conversar com Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que estavam sentados próximos. Toffoli e Cristiano Zanin tomaram chá; Gilmar, Kassio Nunes Marques e Fachin, café.
Pouco depois das 11h, começou uma movimentação de entradas e saídas. Às 11h14, Gilmar deixou o plenário acompanhado de assessores e seguiu para a sala de lanches ao lado. Quatro minutos depois, foi a vez de Dino sair. O ministro retornou às 11h21. Gilmar voltou dois minutos depois. Foi então que o ambiente começou a mudar. Por volta das 11h23, Fachin perguntou aos integrantes da Corte sobre eventuais impedimentos e suspeições. Kassio pediu a palavra e, minutos depois, anunciou seu impedimento para participar do julgamento. A declaração foi feita em um ambiente de evidente constrangimento. Na sequência, Toffoli começou a explicar as circunstâncias de sua saída da relatoria das investigações do caso Master, ocorrida meses antes. Quando se preparava para anunciar sua suspeição, uma intervenção de Dino provocou o primeiro momento de tensão explícita entre os ministros. Dino tentou fazer uma observação à parte, e Fachin reagiu dizendo que o colega deveria se dirigir à Presidência para pedir a palavra. Dino respondeu que estava seguindo as regras. Fachin elevou o tom. O plenário, naquele instante, ficou em absoluto silêncio. Pouco depois, Toffoli anunciou a suspeição, embora tenha permanecido no plenário para acompanhar a sessão. Kassio deixou o local. A tensão aumentou novamente quando Gilmar passou a tratar do questionamento apresentado por Dino sobre a condução adotada por Fachin nos procedimentos envolvendo Moraes e Mendonça. Cópias dos documentos começaram a circular pelas bancadas, levadas pelos chamados "capinhas", servidores que auxiliam os ministros durante as sessões. Ao longo do julgamento, a disposição física dos ministros também ajudava a revelar os movimentos daquele dia. Moraes e Gilmar conversaram em diferentes momentos e chegaram a deixar juntos o plenário durante um dos intervalos. Mendonça, por sua vez, apareceu em diferentes momentos mais isolado dos colegas. Pouco antes das 13h, houve uma breve quebra no clima pesado. Fachin alertou que começaria a transmissão do horário eleitoral nas emissoras de televisão, inclusive na TV Justiça, e que, se Gilmar continuasse falando, sua manifestação deixaria de ser exibida. Dino brincou dizendo que Fachin deveria tornar a medida "perene". Os ministros riram. Depois da manifestação de Gilmar, Dino esclareceu sua posição e defendeu a redistribuição dos casos que estavam sob a condução de Fachin. Também em tom de brincadeira, disse que fazia a sugestão justamente por ser amigo do presidente do STF. A sessão foi então suspensa para o intervalo. Na saída, Moraes e Gilmar deixaram o plenário juntos. Mendonça e Dino permaneceram conversando por cerca de um minuto. Em seguida, Dino se aproximou de Fachin e deu um forte abraço no presidente da Corte. Os dois riram. Mendonça foi o último ministro a deixar o plenário. Pouco antes da retomada dos trabalhos, à tarde, o cenário parecia diferente. Da sala reservada aos ministros era possível ouvir risadas e uma conversa descontraída. Quando voltaram ao plenário, por volta das 15h30, aparentavam estar mais tranquilos. A trégua, porém, não duraria até o fim da sessão. Fachin iniciou seu voto contrário à questão de ordem apresentada por Gilmar para reunir os procedimentos envolvendo Moraes e Mendonça. Dino falou em seguida. Durante sua manifestação, Moraes fazia anotações. Quando Dino mencionou as novas sanções impostas pelos Estados Unidos a integrantes da Corte, todos os ministros passaram a acompanhar atentamente sua fala. Enquanto ele votava, um de seus auxiliares levou ao plenário uma pasta com reportagens recém-publicadas sobre o assunto. As horas seguintes voltaram a expor as divergências sobre a forma como o Supremo deveria conduzir os casos. E foi já nos minutos finais que ocorreu o momento de maior tensão do dia. Gilmar e Mendonça protagonizaram um bate-boca diante dos demais ministros. Em determinado momento, Gilmar apontou o dedo na direção de Mendonça. O ministro reagiu imediatamente e pediu ao decano que não apontasse o dedo para ele. A cena tornou explícita uma tensão que, durante boa parte do dia, havia aparecido sobretudo em gestos, silêncios e conversas reservadas. Foi nesse ambiente, logo após o embate, que Dino pediu vista e interrompeu o julgamento. Ainda houve espaço para uma última tentativa de distensão. Por volta das 18h15, Cármen Lúcia contou uma história e brincou com a condição de ser "avulsa", provocando risadas entre os colegas. Naquela altura, porém, Dino já havia pedido vista e o clima ruim deixado pelo confronto anterior estava formado. As últimas imagens da sessão também foram simbólicas. Ao fim dos trabalhos, Dino deixou o plenário abraçado a Toffoli. Os demais ministros foram saindo aos poucos, com Cármen ao lado de Fachin. Mendonça permaneceu por mais tempo e, assim como havia ocorrido no intervalo, acabou sendo o último a deixar o plenário, novamente sozinho.
O Globo