Sem bandeiras há dois anos, praias do Rio têm padronização que descaracteriza um dos primeiros redutos LGBTQIA+ da cidade
Há quase quatro décadas, o Espaço Fau ocupa um lugar que vai muito além de uma simples barraca de praia em Copacabana. Fundado em 1985 por Fátima Mello, a Fau, o ponto se transformou em um dos primeiros territórios de acolhimento e resistência LGBTQIA+ nas areias cariocas, muito antes de outros redutos da diversidade virarem referência na Zona Sul do Rio. O que começou como um negócio familiar acabou se tornando um espaço de encontro, proteção e liberdade em meio a um cenário historicamente marcado por repressão policial e violência contra corpos dissidentes.
Em 2024, no entanto, a padronização das barracas imposta pela gestão municipal atingiu em cheio a identidade do espaço. As bandeiras da diversidade, que por décadas ajudaram a sinalizar o local como um ambiente seguro para pessoas LGBTQIA+, foram retiradas, descaracterizando um símbolo construído coletivamente pela própria comunidade.
“Eu me senti pelada. É como se tivesse me tirado uma roupa minha, me exposto. E aí a barraca ficou sem graça, ficou sem sal”, desabafou Fau sobre a perda dos elementos que marcavam o território como um refúgio afetivo e político na orla.
A história das bandeiras, aliás, é parte central da trajetória do espaço. Nos anos 1990, quando frequentadores tinham dificuldade de encontrar a barraca em meio à multidão da praia, a solução surgiu de forma improvisada: cangas, cabos de guarda-sol e criatividade viraram a primeira bandeira do arco-íris hasteada ali. A partir dali, o local passou a exibir diferentes símbolos da diversidade, se consolidando como um ponto de visibilidade gay, lésbica, trans e de outros grupos que raramente encontravam acolhimento em espaços públicos da cidade naquele período.
Para o jornalista e ativista Rafael Gomes, a Barraca da Fau não é apenas um comércio, mas um patrimônio afetivo da história LGBTQIA+ no Rio. Ele lembra que, antes mesmo da consolidação de outros pontos conhecidos da diversidade nas praias, Fau e sua companheira já enfrentavam LGBTfobia, abordagens da polícia e da guarda municipal, além do descaso de sucessivas gestões públicas.
“A padronização descaracterizou o espaço, tirou um pouco da cor e da referência, mas não apaga as décadas de histórias e os corpos que construíram essa liberdade de ser quem somos”, pontua.
Para Fau, que hoje toca o espaço ao lado da companheira Rose, a perda das bandeiras também se traduz em prejuízo material e simbólico: sem os símbolos que ajudavam a identificar o local como um território seguro, parte do público histórico deixou de frequentar a barraca, afetando diretamente o faturamento. Ainda assim, ela faz questão de reforçar que o sentido do Espaço Fau nunca foi apenas comercial.
“Que eles sejam acolhidos de verdade, que eles sejam tão vistos não só como faturamento, mas como pessoas”, diz.
Entre perdas, memórias e resistência cotidiana, a barraca segue existindo como um lembrete vivo de que a cidade também é construída por quem insiste em permanecer visível, mesmo quando tentam apagar suas cores.
Espaço Fau, em Copacabana
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