Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), entre 25% e 27% dos recursos minerários do país estão mapeados.
No Canadá ou na Austrália, são 99%.
Além da falta de informação, a escala cartográfica usada para localizar essas riquezas — de 1:100.000 e, em alguns casos, de 1:250.000 — é inconclusiva e chega a desestimular o investidor.
“A baixa disponibilidade de dados públicos aumenta o risco da exploração inicial e obriga o capital privado a investir mais antes mesmo de saber se a operação pode dar retorno”, explica Rodolfo Taveira, diretor de recursos naturais e energia da consultoria Oliver Wyman.
Um estudo do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) mostra que 50% dos investimentos globais em exploração de minerais não ferrosos estão em países com alto mapeamento geológico.
O Brasil conta com apenas 3%.
Sem a pesquisa geológica, “uma agenda de ontem”, o Brasil vai perder a grande oportunidade de se tornar protagonista no setor, adverte o diretor-presidente interino do Ibram, Pablo Cesário.
As dimensões continentais do país (cerca de 8.510.417 km²) e a falta de recursos financeiros ancorados numa política nacional de conhecimento geológico que combina diferentes níveis de detalhamento são os principais obstáculos.
Enquanto alguns países trabalham com continuidade orçamentária, metas plurianuais, atualização constante dos mapeamentos e integração de dados geológicos, geoquímicos e geofísicos, o Brasil ainda patina nessas frentes.
“Precisamos não apenas fazer cartografia, mas também utilizar novas tecnologias”, diz Cesário.
Imagens de satélite, sensoriamento hiperespectral, drones e uma técnica chamada aerogeofísica, que usa sensores instalados em aeronaves para mapear o subsolo e identificar propriedades físicas e químicas do terreno, são alguns exemplos.
Vilmar Medeiros Simoes, da SGB: dotação anual de R$ 370 milhões, por quatro anos, pode mitigar o problema
Igor Estrela/Divulgação
No Brasil, só se usa uma escala cartográfica mais refinada, a de 1:50.000, em regiões como Minas Gerais ou Goiás, onde há jazidas estratégicas de terras raras, nióbio e lítio, explica Giorgio de Tomi, professor de planejamento estratégico de mina da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).
“Mesmo sendo difícil adotar sempre essa escala a médio prazo, é preciso investir em conhecimento — até nas regiões de proteção ambiental.
Se não, como proteger o que não se conhece?”, endossa Nilson Francisquini Botelho, professor de mineralogia do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB).
Via de regra, a estratégia internacional consiste em fazer levantamentos regionais que oferecem cobertura inicial e, depois, estudos mais detalhados nas áreas consideradas promissoras.
“Essa priorização permite concentrar recursos onde a probabilidade de novas descobertas é maior”, afirma Taveira.
Segundo Francisquini, a falta de uma política de Estado que abrace a vocação mineral do Brasil se traduz por vários gargalos: “Não temos mecanismos de atração de investimentos e de compensação de risco nem programas de capacitação em geociências, nem laboratórios, nem mão de obra especializada.
Ninguém quer trabalhar na Amazônia com tanta depreciação salarial”, enfatiza.
Para mitigar o problema, o diretor-presidente do SGB, Vilmar Simões, avalia que uma dotação orçamentária anual de R$ 370 milhões, durante quatro anos, cobre o mapeamento de todas as áreas de alto potencial geológico para recursos minerais metálicos do país, o que corresponde à integralidade dos três cristalinos brasileiros.
Esse levantamento incluiria não só cartografia, mas também o uso de tecnologias avançadas como a aerogeofísica.
Para expandir a rede de laboratórios, o SGB quer recorrer à universidade.
Além disso, firmou parceria com a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para o repasse de R$ 209 milhões, visando construir o Centro de Referência em Geociências no Rio de Janeiro.
O complexo contará com instalações de ponta em isotópica e geocronologia, impulsionando a pesquisa em petróleo, gás, minerais críticos e mineração.
Outras alternativas poderiam reverter o atraso.
Para Cesário, contar com os Estados para custear mapeamentos regionais é uma solução.
Envolver o capital privado é outra: “Existem no mundo modelos de pesquisa mineral financiados pela iniciativa privada que são atrativos de diversas maneiras, pois oferecem ao investidor, por exemplo, titularidade em pesquisas posteriores ou participação societária”.
Há ainda, segundo Taveira, o gargalo do licenciamento.
“No Brasil, a perda de previsibilidade para a abertura e operação de uma mina depende da coordenação de títulos minerários, licenças ambientais, autorizações para supressão de vegetação e intervenções hídricas, frequentemente processadas por órgãos distintos.” Uma análise da Oliver Wyman apontou que o prazo médio desses processos de âmbito federal chegou, em 2023, a quase 9,3 anos.
Somado o tempo necessário para que uma mina se torne operacional, chega-se a um hiato de quase 18-20 anos.
Enquanto isso, os prazos de referência variam de menos de um ano em alguns processos nos Estados Unidos e a dois e cinco anos em processos mais complexos no Canadá e na Austrália.
Surveying - Time to explore
Between 25% and 27% of Brazil’s mineral resources have been mapped, according to the Geological Survey of Brazil (SGB).
Canada and Australia, meanwhile, have 99%.
Beyond the lack of information, the cartographic scale used to identify resources—standing at 1:100,000 and, in some cases, 1:250,000—is inconclusive and can even discourage investors.
“The limited availability of public data increases the risk of early-stage exploration and forces private capital to invest more before even knowing whether an operation can generate returns,” explains Rodolfo Taveira, a director at consulting firm Oliver Wyman.
Without geological surveying, Brazil will miss a major opportunity to become a leading player in the sector, warns Pablo Cesario, president of Brazilian mining industry association Ibram.
“We need not only to carry out mapping but also to use new technologies.” Satellite imagery, hyperspectral sensing, drones, and airborne geophysics are some examples.
There are several shortcomings, says Nilson Francisquini Botelho, professor of mineralogy at the University of Brasília’s Institute of Geosciences (UnB).
“We lack mechanisms to attract investment, laboratories and specialized professionals.” According to SGB president Vilmar Simões, an annual budget of R$370 million over four years could map all high-potential areas for metallic mineral resources.
Other alternatives could help reverse the delay.
For Cesario, making state governments responsible for funding regional mapping is one solution.
Involving the private sector is another.
“There are attractive mineral exploration models that offer investors ownership rights in subsequent exploration projects or equity stakes.”
