Sem apoio na guerra contra o Irã, Trump diz que considera retirar os EUA da Otan e classifica a aliança como 'tigre de papel'

 

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O presidente americano, Donald Trump, afirmou que considera retirar os Estados Unidos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar liderada por Washington, devido ao que classificou como apoio insuficiente de aliados à sua guerra contra o Irã — conflito que, segundo ele, pode terminar em duas ou três semanas. Em entrevista ao jornal britânico Telegraph, publicada nesta quarta-feira, Trump classificou a Otan como "tigre de papel" e criticou o Reino Unido, dizendo que o país "nem sequer tem uma Marinha".

Trata-se da mais recente ameaça do republicano, que há muito critica o propósito e a eficácia da organização, que já chamou de "obsoleta", contra seus aliados após a relutância dos países europeus em ajudar Washington a reabrir o Estreito de Ormuz, rota marítima vital para o escoamento de 20% do petróleo mundial e praticamente bloqueado pelo Irã desde o início da guerra.

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— Nunca me deixei influenciar pela Otan. Sempre soube que eles eram um tigre de papel, e [o presidente da Rússia, Vladimir] Putin também sabe disso — afirmou Trump.

O republicano, de fato, ficou irritado com a recusa dos países europeus em enviar navios de guerra para ajudar a reabrir Ormuz, além da resistência deles em permitir que os EUA usem suas bases militares para lançar ataques contra a República Islâmica.

— Para além de não estarem presentes, era realmente difícil de acreditar. E eu não fiz grande esforço, apenas disse: "Ei". Não insisti muito. Acho que isso deveria ser automático. Nós sempre estivemos lá, inclusive na Ucrânia, que não era um problema nosso. Nós estivemos lá por eles, mas eles não estiveram lá por nós — acrescentou o presidente americano.

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Na entrevista, Trump criticou a capacidade militar do Reino Unido, afirmando que o país "nem sequer tem uma Marinha".

— São muito antigos e tinham porta-aviões que não funcionavam — disse ele, referindo-se à frota de navios de guerra do Reino Unido.

E mandou um recado direto ao primeiro-ministro britânico Keir Starmer.

— Não vou dizer a ele o que fazer. Ele pode fazer o que quiser. Não importa. Tudo o que Starmer quer são turbinas eólicas caras que estão elevando os preços da energia às alturas — disse o republicano.

Questionado sobre a entrevista de Trump ao Telegraph, Starmer afirmou que o Reino Unido está "totalmente comprometido com a Otan", que garantiu a segurança do continente europeu durante 80 anos, chamando-a de "aliança militar mais eficaz que o mundo já viu".

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— Ela (Otan) nos manteve seguros durante muitas décadas. Independentemente da pressão sobre mim e sobre os outros, agirei sob o interesse nacional britânico em todas as decisões que tomar — afirmou o premier.

Primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, durante uma coletiva de imprensa em Downing Street

FRANK AUGSTEIN / AFP

Sob pressão, Starmer anunciou uma cúpula com mais de 30 países que, segundo ele, estão dispostos a trabalhar para restaurar a segurança do transporte marítimo no Estreito de Ormuz.

— O Reino Unido já reuniu 35 nações ao redor da nossa declaração de intenção de atuar, unidos, pela segurança marítima no Golfo — afirmou Starmer.

'Vão pegar seu próprio petróleo'

Os comentários de Trump surgem um dia depois de ele ter alertado o Reino Unido e a França de que os EUA "não estarão mais lá para ajudá-los". Em publicação na sua plataforma Truth Social, o presidente já havia criticado os aliados dos EUA, principalmente o Reino Unido, por não atenderem ao seu pedido de ajuda para garantir a segurança do Estreito e disse que Washington não os ajudaria no futuro.

"A França foi muito inútil em relação ao 'açougueiro do Irã', que foi eliminado com sucesso! Os EUA se lembrarão", escreveu. Em outra publicação, o presidente criticou especificamente o Reino Unido, ao mesmo tempo que instou outros países a tomarem medidas no Estreito de Ormuz. "A todos esses países que não conseguem obter combustível de aviação por causa do Estreito de Ormuz, como o Reino Unido, que se recusou a se envolver na decapitação do Irã, tenho uma sugestão para vocês: primeiro, comprem dos EUA, temos bastante, e segundo, criem coragem, vão até o Estreito e simplesmente peguem", acrescentou.

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Também na terça, o chefe da diplomacia dos EUA, Marco Rubio, disse que Washington "terá que reavaliar" sua relação com a Otan quando a guerra contra o Irã tiver terminado. Para ele, "uma vez concluído este conflito, vamos ter que reavaliar essa relação".

A postura americana tem gerado atritos com seus aliados europeus. Países da Otan vêm resistindo a se envolver diretamente na guerra contra o Irã, num movimento que amplia o risco de tensões dentro da aliança militar em um momento já considerado delicado.

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Os líderes europeus consideram qualquer tentativa de reabrir o Estreito de Ormuz extremamente perigosa, visto que o Irã continua a atacar petroleiros na passagem que não são considerados de nações “amigas”. Autoridades também consideram que a guerra contra o Irã é uma escolha pessoal de Trump, sobre a qual não foram consultadas antes de seu início. Há também uma relutância em se envolver no que poderia se tornar outra “guerra sem fim” no Oriente Médio, como as do Iraque ou do Afeganistão.

Nos últimos dias, governos europeus adotaram medidas concretas para limitar o apoio às operações americanas no Oriente Médio. A Espanha, apontada como um dos principais alvos da irritação de Washington, fechou seu espaço aéreo para aeronaves dos EUA ligadas ao conflito e bloqueou o uso de bases em seu território. A Itália, por sua vez, negou autorização para que aviões militares com destino ao Oriente Médio pousassem em instalações na Sicília, enquanto a Polônia afirmou não ter planos de deslocar seus sistemas de defesa Patriot, apesar de pressões de Washington.

Enquanto o governo Trump afirma que a guerra alcançou seus principais objetivos, o chefe da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento iraniano, Ebrahim Azizi, reiterou que os EUA não recuperarão o acesso ao Estreito de Ormuz. “O Estreito de Ormuz certamente será reaberto, mas não para vocês; estará aberto para aqueles que cumprirem as novas leis do Irã”, escreveu Azizi nas redes sociais.

(Com New York Times)