Sem apoio militar dos EUA, Arábia Saudita recorre à China para pressionar o Irã a conter avanço dos houthis no Mar Vermelho, diz agência

Sem apoio militar dos EUA, Arábia Saudita recorre à China para pressionar o Irã a conter avanço dos houthis no Mar Vermelho, diz agência - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

A China pediu ao Irã, em privado, que ajude a conter os houthis, grupo rebelde do Iêmen aliado a Teerã como parte do "Eixo da Resistência", após um apelo da Arábia Saudita em meio ao avanço dos rebeldes pela costa do Mar Vermelho, ao redor do estratégico Estreito de Bab el-Mandeb. A informação foi revelada pela agência Reuters, que ouviu três fontes iranianas familiarizadas com o assunto. O apelo a Pequim ocorre dias depois de os sauditas buscarem ajuda direta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que negou, pelo menos por ora, realizar uma ação militar direta contra o grupo, oferecendo apenas compartilhamento de inteligência e ajuda na definição de alvos.

Reuters: Houthis se reuniram com autoridades dos EUA e prometeram poupar navios americanos e israelenses, exceto sauditas Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Diante da recusa americana, a Arábia Saudita se voltou para a China, maior parceira comercial do Irã há mais de uma década e principal compradora de seu petróleo — cerca de 80% das exportações. Pequim tem pedido publicamente moderação, diálogo e o restabelecimento da segurança da navegação, mas, segundo as fontes, a mensagem privada a Teerã foi além.

As fontes não detalharam como a mensagem foi transmitida, nem se isso ocorreu durante a visita à China, na quarta-feira, do ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi. A resposta de Teerã, ainda de acordo com as fontes, foi de que a estabilidade e a paz na região dependem do fim da guerra entre EUA e Israel contra o Irã. As autoridades chinesas não fizeram ameaças explícitas nem indicaram que Pequim tentaria pressionar economicamente o Irã, caso este não usasse sua influência sobre os houthis.

Procurado pela Reuters, o Ministério das Relações Exteriores da China disse que o país "não deseja que as tensões regionais se alastrem ainda mais para o Iêmen e o Mar Vermelho". A escalada da instabilidade regional, disse a pasta, "não interessa a nenhuma das partes". "A soberania e a segurança de todos os países devem ser respeitadas, e as instalações vitais para a subsistência das pessoas não devem ser alvejadas. A China apela ao fim das ações que complicam ainda mais a situação e insta à resolução das questões por meio do diálogo e da negociação", acrescentou o ministério. — Pequim é uma das poucas capitais que ainda podem pressionar o Irã a conter os houthis — afirmou um diplomata de alto escalão na região à Reuters. Houthis se reuniram com autoridades dos EUA Autoridades americanas reuniram-se com representantes dos houthis na Embaixada dos Estados Unidos em Omã, no último domingo. No encontro, também revelado pela Reuters, o grupo afirmou que não atacaria navios israelenses, americanos nem quaisquer embarcações comerciais, exceto as pertencentes à Arábia Saudita. Contexto: Conflito no Iêmen deixa 125 mil deslocados enquanto houthis avançam pela costa e atacam a Arábia Saudita, que promete revidar Questionado pela agência sobre o encontro, um porta-voz do Departamento de Estado americano não confirmou, mas disse que “salvaguardar a liberdade de navegação no Mar Vermelho e impedir a exportação de terrorismo do Oriente Médio eram interesses fundamentais dos EUA”. No último sábado, um dia antes da reunião em Mascate, Trump afirmou que os rebeldes pediram a Washington que não intervenha no conflito iemenita – contato ratificado pelo vice-presidente JD Vance na segunda-feira. — Tivemos discussões. Os houthis nos ligaram e não querem lutar contra nós — disse o presidente a jornalistas durante uma visita à Irlanda, na ocasião. — Eles não querem que vamos atrás deles. No último dia 11, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, pediu ajuda a Trump para combater os rebeldes, porém o presidente negou bombardear o grupo. Trump, segundo a Reuters, teve pelo menos duas conversas telefônicas com o líder saudita na ocasião. No fim das contas, a Casa Branca informou a Riad que não estava disposto a realizar uma ação militar direta até o momento, mas ajudaria no compartilhamento de inteligência e na definição de alvos, segundo a agência. O presidente dos EUA, Donald Trump (D), reúne-se com o príncipe herdeiro e primeiro-ministro do Reino da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman (E), no Salão Oval Brendan SMIALOWSKI / AFP — Os EUA estão concentrados em proteger nossos principais interesses de segurança nacional, como garantir a liberdade de navegação no Mar Vermelho, enquanto fortalecem nossos parceiros regionais para que assumam a liderança na gestão e na resolução dos desafios de segurança regionais — disse à Reuters uma autoridade de alto escalão do governo Trump, na ocasião.

Em março do ano passado, o governo Trump designou os houthis como uma "organização terrorista estrangeira". Mas, desde então, Washington tem negociado com eles, chegando a um cessar-fogo dois meses depois. Durante esse tempo, as forças americanas bombardearam alvos do grupo para interromper uma campanha de ataques a navios no Mar Vermelho. Escalada dos houthis Na semana passada, os rebeldes assumiram o controle efetivo de toda a costa do Mar Vermelho no Iêmen, incluindo o porto histórico de Mocha e a ilha de Perim, no estratégico Estreito de Bab el-Mandeb, a porta de entrada sul para o Canal de Suez. Combatentes leais aos Houthis reúnem-se durante um ato de recrutamento em Sanaa, em 10 de setembro Mohammed Huwais/AFP Os houthis, que tomaram a capital do Iêmen em 2014, lutam contra uma coalizão liderada pela Arábia Saudita há mais de uma década. A guerra havia se acalmado sob um cessar-fogo nos últimos anos, mas os combates recomeçaram em julho, quando eles declararam um bloqueio à navegação saudita no Mar Vermelho em resposta a um bloqueio saudita aos portos iemenitas. O Estreito de Bab el-Mandeb, que liga a Europa à Ásia pelo Mar Vermelho e pelo Canal de Suez, se tornou crucial para a Arábia Saudita, principal exportador mundial de petróleo, desde que o Irã bloqueou o Estreito de Ormuz, do outro lado da Península Arábica.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo