Selinhos promocionais voltam com força nos mercados e atraem mais jovens
Guardar selinhos para trocar por prêmios virou uma verdadeira tendência e, para a historiadora Letícia Silva, a dinâmica lembra o entusiasmo de preencher um álbum de figurinhas.
A meta é clara: garantir aquele produto desejado com um super desconto no final.
"Eu acho que quando a gente recebe esses selos, querendo ou não, a gente fica com vontade de voltar para utilizar.
Ou como se fosse uma coleção de figurinhas.
Então, conseguir esses selos, eu tenho a possibilidade de voltar para retirar um item, ou então ter um desconto.
E, com certeza, quanto mais atrativo é o prêmio, mais vontade dá de comprar mais coisas para ter mais selos, para conseguir ganhar.
É realmente como se fosse uma coleção, assim, de álbum de figurinhas."
O que move "fãs de promoção" como a Letícia é o sentimento de conquista.
Para o comércio, a estratégia ganhou ares de game e se tornou um dos motores mais eficientes para atrair o público jovem e fidelizar novos clientes.
O gerente de marketing da rede Festval, Fabiano Szpyra, destaca que essas campanhas engajam porque transformam a ida ao mercado em uma experiência divertida.
Além disso, permitem que o consumidor consiga itens úteis, mas que nem sempre cabem no bolso.
"E eles estão muito ligados ao perfil de consumidor de cada negócio.
No nosso caso, nós estamos indo para a quarta campanha e nós vamos colocar agora panelas de ferro com cerâmica, né? É uma parceria aí com a Le Cordon Bleu, uma das maiores escolas de gastronomia do mundo.
Então, num padrão de qualidade extremamente alto e isso chama muito a atenção do público.
Panelas são, de fato, um dos itens que mais chamam a atenção.
E nós vamos observando muito o consumo, o hábito de consumo dos nossos clientes.
Também fazem muita interação nas redes sociais e acabam nos dando pistas de que tipo de produtos fariam sucesso numa campanha", diz.
Impacto nas vendas
O impacto nas vendas é direto.
Um levantamento da LoyaltyCom com mais de 500 supermercados e farmácias mostrou que mais de 75% dos clientes aderem a esse tipo de promoção.
Entre janeiro e maio deste ano, as redes participantes viram o faturamento subir, em média, 9,5%.
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A coordenadora da ESPM e especialista em comportamento do consumidor, Bianca Dramali, explica que, ao perceberem que estão perto de completar a cartela, os clientes concentram as compras no mesmo local e gastam mais.
Quem adere aos selinhos tem um tíquete-médio 42,6% maior em comparação com os não participantes.
"No primeiro momento, ela concentra suas compras no lugar onde ela está querendo obter aquele determinado benefício.
E, no próprio estabelecimento comercial, ela por vezes adiciona mais algum item por uma mensagem estimulada ali na tela de autoatendimento ou pelo funcionário, em que faz com que ela aumente o que a gente chama de tíquete-médio.
Essas estratégias conseguem mudar o hábito do consumidor porque se sente estimulado, acelerado a obter alguma recompensa.
E numa sociedade como a nossa, que tem muita pressa a acelerar a obtenção de ganhos, mesmo que seja investindo mais, acaba sendo um convite bem sucedido pelo contexto cultural e social que a gente tem hoje", explica.
Essa busca por completar a coleção fortalece o vínculo com marcas e estabelecimentos.
Isso é visto na prática pela diretora comercial e RH da rede Hortifruti, Flavia Picanço.
Ela conta que, além de atrair novos clientes, a prática ajuda a fidelizar o consumidor ávido por completar a coleção e inclinado até a gastar um pouco mais.
"As campanhas fortalecem bastante o nosso programa de fidelidade e estreitam ainda mais o nosso relacionamento com os clientes.
A gente também percebe um aumento na frequência da compra e no engajamento durante todo o período da ação, mostrando que esse tipo de iniciativa gera bastante valor, tanto para o consumidor quanto para a marca.
Costuma atrair novos clientes e também incentivar quem já compra com a gente a voltar mais vezes para as nossas lojas durante o período da ação", fala.
Planejamento com antecedência
Mas, para o jogo valer a pena, a recomendação é planejar as compras com consciência.
A professora Bianca Dramali reforça que o segredo é aproveitar os "selinhos" dentro daquilo que já se pretendia consumir, sem ceder ao impulso.
"Checar se, de fato, todas as condições de participação estão bem colocadas ali no regulamento.
Se aquele produto é benéfico para ele ou está sendo apenas persuadido por uma coisa que, de fato, não vai ser útil.
Não no sentido de utilidade funcional, mas que não vai fazer sentido para ele.
Então, acho que é um ponto de atenção, consumo.
A gente sabe que não opera só na lógica da funcionalidade, ele opera na lógica da cultura, do significado, de símbolos", diz.
No fim das contas, a febre dos selinhos mostra como a estratégia de fidelização se renovou: de um lado, o consumidor conquista itens de desejo com economia; do outro, o comércio ganha clientes mais engajados e recorrentes.
