Faltando três semanas para as eleições presidenciais, o sentimento predominante em grande parte do eleitorado brasileiro não é a convicção e nem a dúvida, mas a distância. A mais recente pesquisa Quaest revelou que 62% dos brasileiros estão pouco ou nada interessados na disputa deste ano. Mais do que indecisão, o diagnóstico aponta para a apatia.
A realidade difere da visto em 2022. Naquela eleição, pesquisas mostravam que apenas 33% dos brasileiros diziam ter pouco ou nehum interesse na eleição a essa altura da campanha. Não faltam estímulos: os pedidos de voto, as promessas e os ataques entre candidatos dominam o rádio, a TV e as ruas. Mas nada disso empolga a professora paranaense Alice Pentes.
Acho que, pela primeira vez em quatro anos, eu não faço a menor ideia do que está por vir. As propostas não são cativantes. Justamente por eu não ter interesse em nenhuma das propostas, dessa vez, eu sinto que o meu voto não vai fazer diferença alguma. Se no passado a disputa mobilizava a atenção da população desde os primeiros meses de campanha, agora o cenário é de alheamento.
O cientista político da UFRJ, Paulo Baia, analisa que esse comportamento sinaliza uma desconexão profunda entre as urgências do eleitor e o discurso que vem das urnas. 'A eleição de 2026 é atípica no cenário das últimas eleições brasileiras de 1982 até agora, porque a população desenvolveu uma certa apatia ao mundo político que veio crescendo de 2018 até o momento. Não é só uma indecisão diante de candidaturas, é a ideia de que a eleição não faz parte da vida do eleitor.' Essa percepção de que "tudo ficou igual" alimenta o fenômeno de jogar cada vez mais pra perto da eleição a escolha de um candidato.
Dados da Quaest mostram que um em cada cinco eleitores deixa a definição do voto para a reta finalíssima da campanha: 10% decidem apenas nos últimos sete dias, e outros 10% tomam a decisão no próprio dia da eleição, já diante da urna.
É o caso do Arthur Affonso, estudante de engenharia elétrica. O desinteresse vêm principalmente da generalização das propostas dos candidatos. Não acho que tenha muita proposta factível, então eu não tenho estado muito interessado nessas eleições. Acredito que eu vá me interessar e definir um candidato para mim uma semana antes das eleições, porque já se encerram as sabatinas e a gente consegue analisar mais friamente qual é a proposta de cada um.' Esse desinteresse generalizado contrasta com a intensidade do debate político dos últimos anos, decorrente da polarização acirrada entre esquerda e direita. O cientista político Paulo Baia explica que esse desgaste prolongado fez com que o brasileiro naturalizasse o confronto e passasse a evitar o tema no cotidiano. 'A polarização acabou sendo naturalizada, então ela não está mais produzindo aqueles efeitos de 2018 ou 2022. Como as pessoas já sabem mais ou menos o que as outras pensam, elas não tocam no assunto. Mais do que isso, a polarização fez com que as diferenças desaparecessem, antes você tinha dois campos, mas agora, qual é a diferença entre um campo e o outro? É isso que [a polarização] está fazendo: não a indecisão, mas a apatia, o distanciamento.' Com a maioria da população desconectada do processo, o maior desafio das campanhas dos candidatos nesta reta final não é virar voto. É conseguir convencer o eleitor de que o resultado da urna ainda muda alguma coisa na rotina dele.
CBN