É seguro voar na região do Golfo Pérsico hoje? Veja o que dizem especialistas em tráfego aéreo

 

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Gitu Ramani-Ruff estava até emocionada por se encontrar a bordo do voo que sairia de Dubai para voltar a Nova York na quinta-feira (5 de março), depois de ter ficado retida, ao lado do marido e dos dois filhos, nos Emirados Árabes Unidos, no fim de semana anterior, quando seguiam para a Índia para visitar familiares. Antes da decolagem, porém, sentiu uma pontada de medo e enviou uma mensagem à irmã:

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"Caso algo aconteça conosco ou com o avião", começou, antes de descrever onde guardavam seu testamento, "cuide para que nossos pets tenham uma vida longa e cheia de amor", completou.

O avião pousou em segurança no Aeroporto John F. Kennedy na quinta-feira, primeiro voo regular da Emirates a chegar aos EUA desde que o país começou a atacar o Irã ao lado de Israel, em 28 de fevereiro.

Ramani-Ruff, de 55 anos, disse que não temeu pela vida uma única vez observando os estouros no céu sobre Dubai:

— Foi só quando me toquei de que estaríamos no primeiro voo para os EUA. Aí sim, comecei a ficar nervosa.

Uma explosão em um dos saguões do Aeroporto Internacional de Dubai feriu quatro pessoas no domingo (8 de março). Em Abu Dhabi, os destroços de um drone que tinha como alvo o Aeroporto Internacional Zayed mataram uma pessoa e feriram outras sete no último fim de semana. De acordo com a empresa de dados de aviação Cirium, desde o início do conflito cerca de 30 mil voos foram cancelados em todo o Oriente Médio.

Mas mesmo com os mísseis e drones iranianos ameaçando os Emirados Árabes Unidos na sexta-feira (6 de março), os voos comerciais começaram a ser retomados lentamente, inclusive no Aeroporto Internacional de Dubai, um dos mais movimentados do mundo: quase 160 voos partiram de lá na sexta-feira.

Para Michael McCormick, professor de gerenciamento de tráfego aéreo da Universidade Aeronáutica Embry-Riddle que trabalhou com as Forças Armadas dos EUA como controlador de tráfego aéreo no Iraque, nos anos 2000, o perigo que os passageiros enfrentam entrando ou saindo da região é "mínimo":

— Os satélites rastreiam os mísseis que se aproximam, e também há sistemas de defesa aérea para derrubá-los, ou seja, os controladores têm bastante tempo para interromper as decolagens e fazer o tráfego de retorno voltar — afirmou. — Embora os aeroportos sejam alvos óbvios de possíveis ataques, o avião, individualmente falando, é muito pequeno e muito ligeiro para ser alvo dos mísseis e drones que estão sendo usados nesse conflito, principalmente à longa distância. Além disso, o espaço aéreo onde esses projéteis estão voando permanece fechado para evitar um impacto acidental. O risco maior seria algo atingir o terminal com os passageiros lá dentro, e não uma aeronave.

A Autoridade Geral de Aviação Civil dos Emirados Árabes Unidos não atendeu ao nosso pedido de esclarecimentos. Já Philip Pitt, porta-voz da Etihad Airways, com sede em Abu Dhabi, disse que a companhia está operando um número limitado de voos "após minuciosas avaliação das condições de segurança, e somente depois que todos os critérios foram atendidos", embora tenha se recusado a responder perguntas específicas.

Um especialista em tráfego aéreo nos Emirados Árabes Unidos, que pediu anonimato por não estar autorizado a falar com a imprensa, disse que os passageiros "não poderiam estar mais seguros" no espaço aéreo do país:

— As aeronaves comerciais estão operando apenas no espaço aéreo que as Forças Armadas determinaram estar preservado, mantendo-se próximas às fronteiras com a Arábia Saudita e Omã, e não sobrevoando o Golfo Pérsico, onde poderiam correr o risco de um ataque. Sem resguardo, ninguém vai voar.

E acrescentou:

— Todo mundo sabe que o Irã e Israel interferem nos sinais de GPS da região, através de bloqueio e falsificação, o que pode afetar a percepção de localização no espaço dos pilotos, mas as autoridades de aviação dos Emirados Árabes Unidos vêm lidando com muitas situações nesse último ano, e há pouco tempo passaram por treinamento para aprimorar o processo de auxílio à aeronave que eventualmente se torne alvo.

Jodie Briggs, escritora do Brooklyn que foi ver o namorado em Dubai, conseguiu embarcar em um voo da Emirates para Atenas, na Grécia, na sexta-feira, depois de três cancelamentos na semana. Em entrevista por telefone enquanto esperava o embarque na conexão para Nova York, na capital grega, ela disse que não houve "nenhuma referência" ao conflito quando passou pelo aeroporto de Dubai para pegar o primeiro voo:

— Todo mundo sorrindo.

Ainda assim, depois de acompanhar a primeira salva de mísseis sobre Dubai no sábado, foi preciso bem mais do que sorrisos para acalmar a ansiedade:

— Fiquei com o olho grudado no canal de mapas o voo inteiro. Só depois que saímos do Oriente Médio é que consegui relaxar um pouco e tirar uma soneca. Já fazia seis dias que não dormia tão bem.