Segunda temporada de 'Cangaço Novo' estreia nesta sexta-feira (24), com João Gomes e BaianaSystem na trilha sonora

 

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O diretor-geral Fabio Mendonça repete o registro da cena mais de um par de vezes. O encontro dos irmãos Dinorah e Ubaldo Vaqueiro nada tem de ordinário. Planta-se a semente de um assalto. O maior de todos. O calor impiedoso do Cariri, que no saber local é garantia de “um sol para cada cabeça”, ajuda com um minuto de trégua rara. Alice Carvalho e Allan Souza Lima dão então à seleta plateia no sertão paraibano um cheiro da segunda temporada de “Cangaço Novo”. O resultado é o oposto de pouco.

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Após quase três anos, e em formato inédito para a plataforma, a partir de hoje os sete novos episódios da série estarão disponíveis na íntegra na Prime Video. E a história da família Vaqueiro na fictícia Cratará, lugarejo imaginado pelos criadores e roteiristas Mariana Bardan e Eduardo Mello no vizinho e não menos árido Ceará, segue sem miséria no quesito tragédia.

Se este texto será quase vazio de spoilers, ao espectador recomenda-se aumentar o volume para acompanhar mais sequências de ação, mais explosões, mais efeitos especiais, mais música — a trilha sonora do BaianaSystem inclui mimos que se revelarão indispensáveis, entre eles o revisitar do talento musical de Alice e a aparição de um certo João Gomes — e, claro, mais citações cinematográficas ao fino do faroeste.

— A estética e a linguagem são as mesmas, só investimos ainda mais no que chamamos de Nordestern, com referências de enquadramento que os entendidos entenderão. Aumentamos a dose da pimenta — afirma Mendonça, diretor e também showrunner de “Cangaço Novo”.

Em agosto de 2023 a colunista do GLOBO Patrícia Kogut deu cinco estrelas para “Cangaço Novo”, sintetizada como “brilhante”. Sua crítica destacou a produção ter passado léguas de distância “do Nordeste estetizado, postiço e sintético que vemos tantas vezes na tela”. Os oito episódios originais, escreveu, eram assim como um mergulho “num mar de legitimidade”, que banhava um canto imaginário “entre o Sertão da Paraíba e o do Rio Grande do Norte, com elenco (majoritariamente) local”. Um “olhar de dentro”, que “elevou a temperatura e atribuiu verdade irrestrita ao resultado final”. Touché.

Também cairia no gosto do público a mistura de ação, centrada no grupo de bandidos que vive de assaltar bancos no sertão nordestino dos dias de hoje, daí o título, com o drama familiar dos Vaqueiro, três irmãos separados após uma desgraça revisitada em curta-metragens apresentados em preto e branco no começo de cada episódio. O frescor do trio central foi crítico para a atração se tornar cultuada em tempo recorde, uma irmandade formada pelo Ubaldo de Souza Lima, a Dinorah de Alice Carvalho e a misteriosa Dilvânia, defendida com mão firme por Thainá Duarte. Vítima de um trauma, incapaz de falar, a personagem se refugia, ao lado da Tia Zeza, papel da não menos impressionante Marcélia Cartaxo, em um misticismo que ganha protagonismo na segunda temporada.

— A história recomeça exatamente após o minuto derradeiro do último capítulo da primeira temporada, com o incêndio da igreja, a destruição, o luto. Por isso, era fundamental parecer que estávamos filmando na sequência. Esse era meu maior receio. Que desapareceu no exato momento em que recomeçamos e percebi que todos voltaram com mais recursos, mais potência. Ver isso, do lado de cá, foi, acima de tudo, uma delícia — conta Mendonça.

Entre uma e outra temporada, a potiguar Alice Carvalho multiplicou seus fãs em produções da Globo, com destaque para a Joaninha do remake de “Renascer” e a Otília de “Guerreiros do Sol”. E também no cinema, onde roubou a cena na inesquecível passagem-relâmpago, com barulho de trovoada, por “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, indicado a quatro estatuetas do Oscar. No set em Cabaceiras, na fazenda dos Maleiro, inimigos dos Vaqueiro, sua Dinorah aparece armada com um revólver, de camiseta de cor forte e calça jeans, com a intensidade de quem não parece ter nada a perder.

— Dinorah traz a visceralidade daquilo que precisa ser dito. É uma mulher forte, arrimo de família, guerreira amorosa, com um discurso feminino, em minha abordagem, que me contempla dos pés à cabeça. É uma personagem singular no audiovisual brasileiro, ainda escasso de nossas protagonistas, especialmente as do Brasil Profundo — afirma.

Xamã ganha papel na trama

Entre um e outro take, Alice Carvalho, de 29 anos, revela ter voltado a uma videoinstalação das artistas Manuela Libman e Maria Clara Contruti para guiá-la no reencontro com Dinorah. Na peça, três ações são proclamadas, em sequência: “Conquistar o mundo, viver de nada, virar fantasma.”

— Após tanto tempo, foi mais difícil retornar a ela do que tirá-la do barro lá no começo. Recuperar a emoção, o sentimento, foi trabalhoso. E como a série agora já existe, e teve imensa repercussão, tive o maior cuidado para não fazer uma caricatura da Dinorah que já conhecemos. Tive de ignorar meu trabalho anterior e partir dele ao mesmo tempo. Não podia interpretar de novo a personagem que eu já vi fora de mim. Na hora em que entro em cena, viro o fantasma lá da instalação de Manuela e Maria Clara — conta ela.

O cantor e autor Xamã

Divulgação/Laura Campanella

Se tivesse de reduzir a segunda temporada para a protagonista em uma única sensação, conta Alice, seria o instante em que Dinorah exige ser respeitada pelos demais. Já Ubaldo, conta Souza Lima, busca ainda mais uma “cura” para seus males.

— Voltar ao Ubaldo foi doloroso. Ficamos muito amigos e conversei bastante sobre isso com a Alice. Enquanto a Dinorah é explosiva e joga tudo pra fora, Ubaldo guarda a dor do mundo dentro dele. São duas potências enormes, paralelas. Fazendo ele, mergulhei em minhas próprias dores e as trouxe para as filmagens. Entendi no processo que meu silêncio é muito maior do que eu mesmo imaginava. E Ubaldo agora é, de fato, um reflexo do que eu mesmo vivi — conta o ator pernambucano, de 40 anos.

Em sua concepção original, a direção da série era de Mendonça e Aly Muritiba (de, entre outros, “Deserto particular”). Agora Fabinho, como é conhecido pelos colegas, assina a direção-geral e Caíto Ortiz (da série “Coisa mais linda”), a direção.

Dentre outras novidades do Cangaço Novo 2.0 se destaca a entrada do ator e músico Xamã, no papel de um sudestino que amplifica o poder de fogo do grupo de bandidos. Lá atrás, o ator se tornou fã da série e brincou com Alice que ela poderia arrumar um papel para ele na nova temporada. Deu certo.

Ao retornar a Cratará, o espectador coçará novamente a cabeça, incrédulo por Alice, Allan e Thainá não serem, também na vida real, sangue do mesmo sangue. No set, conta o diretor, a dinâmica fraternal ultrapassou as fronteiras da ficção, até na hora de implicar com o outro. Irmãos sim, confirma Souza Lima:

— Encarnar Ubaldo foi tão intenso que ia pro quarto da Alice só para chorar. Um puxa o outro, né? Quando Ubaldo está virado no demônio, ela me cata, e vice-versa no caso da Dinorah. Estabelecemos esse jogo desde a primeira cena e assim nos salvamos. Quando me pergunto por que esse “Cangaço” deu certo, penso em como compramos o barulho de viver juntos aqui, de não botar pozinho para sujar a roupa e sim nos jogar no chão. De encarar o sol sem sombreiro. De potencializar os elementos para fazer um Nordeste daqui, das pessoas que vivem aqui ou vêm daqui. Da gente. (Eduardo Graça viajou a convite da Prime Video)