A Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA, na sigla em inglês) e outras forças militares de inteligência e cibersegurança protegerão os sistemas eleitorais durante as eleições de meio de mandato de novembro, disse o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, na segunda-feira. Segundo o Pentágono, o memorando determina que os órgãos trabalhem para combater ameaças à infraestrutura eleitoral do país. Em vitória para Trump: Suprema Corte dos EUA autoriza uso de banco de dados federal para triagem de eleitores Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp A medida prevê a participação do Comando Cibernético dos EUA, unidade das Forças Armadas responsável por operações de guerra cibernética, da Agência de Segurança Nacional (NSA) e de outras estruturas de inteligência e apoio ao combate. Segundo o Pentágono, essas forças vão empregar “capacidades avançadas de inteligência e cibernéticas” para “identificar, interromper e neutralizar a interferência estrangeira nos processos democráticos dos EUA”. O documento, divulgado cerca de cinco semanas antes das eleições de 3 de novembro e quando a votação antecipada já está em andamento, determina que autoridades de inteligência da Defesa mobilizem todos os recursos disponíveis para “defender a infraestrutura eleitoral” da “influência estrangeira maligna” e garantir que “todo eleitor legalmente habilitado possa votar livre de intimidação, coerção ou medo provocado por agentes estrangeiros”.
A participação de especialistas militares em cibersegurança na proteção das eleições não é novidade. Eles ajudam a monitorar sistemas e a impedir a atuação de possíveis hackers desde 2017, quando equipamentos eleitorais passaram a ser classificados como “infraestrutura crítica”. As atividades descritas no memorando também são, em grande parte, ações que militares e agências de inteligência já realizavam antes do retorno de Donald Trump à Presidência, em 2025. A meses das eleições de meio de mandato: Corte dos EUA elimina teto da era Watergate para gastos com campanhas políticas Semanas antes da eleição presidencial de 2024, por exemplo, hackers do Comando Cibernético realizaram uma operação secreta para atrapalhar a atuação de trolls russos que disseminavam informações falsas entre eleitores americanos, segundo a CNN americana. Desde o pleito de 2020, a NSA e o Comando Cibernético também reuniam integrantes no Grupo de Segurança Eleitoral (ESG), criado para compartilhar informações de inteligência e realizar operações contra agentes estrangeiros. O grupo atuou em todas as eleições gerais e de meio de mandato desde então e tinha como alvo trolls da Rússia, do Irã e de outros países que supostamente tentavam minar os pleitos americanos. Sua criação foi uma resposta à operação russa de influência em várias frentes durante a eleição presidencial de 2016, quando as agências de inteligência e segurança dos Estados Unidos foram pegas desprevenidas.
Impacto limitado A nova orientação, no entanto, ocorre após o segundo governo Trump dissolver ou reduzir estruturas federais encarregadas de combater operações de influência estrangeira, sobretudo dentro do FBI e do Escritório do Diretor de Inteligência Nacional. Trump também continuou a rejeitar ou questionar avaliações anteriores da inteligência americana sobre esforços da Rússia e da China para influenciar eleições. Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Essas medidas provocaram preocupação entre atuais e ex-integrantes da área de segurança nacional de que o segundo governo Trump não estivesse dando prioridade à proteção das eleições. As dúvidas aumentaram em abril, quando o novo chefe do Comando Cibernético e da NSA, general Joshua M. Rudd, disse a parlamentares que não sabia se uma equipe militar e de inteligência especializada em impedir ameaças estrangeiras às eleições havia sido constituída para o pleito deste ano. Na segunda-feira, Rudd afirmou que o Comando Cibernético e a NSA “combatem regularmente ações de agentes cibernéticos estrangeiros mal-intencionados, inclusive daqueles que têm a intenção de interferir em nosso processo democrático”. Ainda assim, Andrew Schoka, que trabalhou no Comando Cibernético durante o ciclo eleitoral de 2020, disse que a proximidade do pleito pode limitar o alcance das ações. — O que me preocupa é que [Rudd] declarou em depoimento, ainda em abril, que não tinha certeza se existia um Grupo de Segurança Eleitoral no comando — afirmou à CNN americana. — O trabalho do ESG exige meses de planejamento e coordenação, e grande parte de seu impacto ocorre muito antes do dia da eleição. Se isso só está começando agora, você está realmente limitando o impacto que pode ter sobre os adversários antes das eleições de meio de mandato. Direito garantido há mais de 150 anos: Suprema Corte dos EUA barra tentativa de Trump de restringir cidadania por nascimento O anúncio de Hegseth também ocorre após Trump reduzir a estrutura da Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura dos EUA (CISA), divisão civil do Departamento de Segurança Interna criada para proteger infraestruturas como os sistemas eleitorais. Na semana passada, o órgão divulgou um plano de segurança da infraestrutura eleitoral que descreve possíveis ameaças e enumera os serviços que ofereceria às autoridades, mas especialistas afirmaram que o plano era “inadequado e tardio”.
David Becker, ex-advogado do Departamento de Justiça que dirige a organização sem fins lucrativos Center for Election Innovation & Research, disse à AP que a divulgação das medidas poucas semanas antes do dia da eleição “sugere que isso não passa de encenação”.
— Se o governo estivesse realmente empenhado em ajudar as autoridades eleitorais estaduais e locais, não deveria ter desmantelado toda a capacidade de cibersegurança eleitoral do governo federal e demitido todos os seus especialistas no início de 2025. Entenda: Suprema Corte dos EUA permite contagem de votos por correio após o dia da eleição Embora a assistência da NSA e do Comando Cibernético seja rotineira, especialistas em eleições, grupos de defesa dos direitos civis e autoridades eleitorais democratas estão atentos a sinais de interferência do governo Trump na votação ou na contagem dos votos. O presidente continua a promover alegações falsas de que as eleições são marcadas por fraudes enquanto tenta interferir em procedimentos já estabelecidos. A Suprema Corte dos EUA bloqueou uma tentativa de Trump de restringir o voto pelo correio, mas permitiu o uso de um banco de dados federal para verificar a cidadania dos eleitores. A decisão representou uma vitória para Trump, que tem pressionado o governo a buscar evidências de votação por não cidadãos. Casos desse tipo são raros, e críticos temem que o uso do sistema possa levar estados a excluir dos registros pessoas que têm direito a votar, já que, em consultas anteriores, a ferramenta apresentou erros.
(Com New York Times)
O Globo