Secretária de Justiça dos EUA depõe a Comissão da Câmara em meio a críticas por condução do caso Epstein

 

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A secretária de Justiça dos EUA, Pam Bondi, depõe perante a Comissão Judiciária da Câmara nesta quarta-feira, em um momento de crescente pressão por parte de republicanos e democratas sobre a condução da investigação do caso Jeffrey Epstein — e a atrapalhada divulgação de documentos pelo Departamento de Justiça, que resultou na exposição de nomes, fotos e dados pessoais de vítimas do criminoso sexual. A liberação da última leva de arquivos do caso provocou desdobramentos ao redor do mundo, com a queda de figuras proeminentes de seus cargos e abertura de investigações no exterior, enquanto ninguém foi processado em solo americano com base nas descobertas.

Durante a audiência, Bondi disse se estar "profundamente arrependida" pelo sofrimento das vítimas de Epstein. Sem pedir desculpas explicitamente pelos erros na divulgação dos arquivos, ela afirmou que o Departamento de Justiça retirou os documentos ao identificar o problema e que a equipe agiu dentro do prazo legal.

— Qualquer acusação de delito criminal será levada a sério e investigada — acrescentou Bondi.

Quando compareceu perante uma comissão do Congresso pela última vez, Bondi obstruiu os democratas por quatro horas e leu uma lista de insultos ensaiados em resposta a questionamentos sobre sua conduta a frente do cargo. É improvável que uma estratégia protelatória e de confronto aberto funcione desta vez, com deputados dos dois partidos insatisfeitos com o andamento das investigações sobre Epstein.

Para os republicanos, o fiasco interminável de Epstein definiu o mandato da secretária. O deputado republicano Thomas Massie tem criticado Bondi frequentemente, assim como o vice-secretário Todd Blanche — ex-advogado pessoal do presidente Donald Trump — pela forma como lidaram com os arquivos, acusando-os de protelar ou bloquear a divulgação de alguns materiais.

Coautor da lei bipartidária que obrigou o Departamento de Justiça e o FBI a divulgarem todos os arquivos, Massie sugeriu na terça-feira que questionaria Bondi sobre os arquivos.

— Ela tem se mostrado contraditória — disse o deputado, em entrevista à rede americana CNN.

Os democratas também estão se mobilizando para questionar Bondi sobre os arquivos de Epstein. Entre as fileiras do partido, também causa incômodo a forma com que a secretária apenas executa ordens de Trump — levando a frente casos duvidosos contra seus adversários, e agindo com menos energia quando se trata de medidas que desagradam o presidente, como nos casos de cidadãos americanos mortos durante protestos contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega).

Contraste com o resto do mundo

A atuação do Departamento de Justiça dos EUA a partir da obtenção dos documentos na investigação é alvo de críticas por parte de figuras de ambos os partidos, de ativistas e das vítimas por não ter levado ao indiciamento de nenhum suspeito de ter colaborado ou se beneficiado da suposta rede de tráfico sexual montada por Epstein — a exceção da principal cúmplice do magnata, Ghislaine Maxwell, que cumpre pena. Teorias sobre acobertamento se tornaram populares, sobretudo pelo perfil das pessoas citadas nos documentos.

Em contrapartida, os e-mail, troca de mensagens e fotos reveladas ao público em janeiro provocaram uma forte reação da Europa à Ásia. Jack Lang, que já foi ministro da Cultura da França, anunciou no sábado que renunciaria ao cargo de chefe do Instituto do Mundo Árabe, uma prestigiada instituição cultural em Paris, após as autoridades francesas afirmarem que estavam investigando relatos de que ele e sua família tinham ligações financeiras com Epstein.

Mona Juul, que foi embaixadora da Noruega na Jordânia e no Iraque, renunciou após a divulgação de transações financeiras entre ela, seu marido e Epstein. Miroslav Lajcak, conselheiro de segurança nacional do primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, deixou o cargo após a divulgação de e-mails entre ele e o Sr. Epstein, nos quais os dois homens pareciam brincar sobre mulheres jovens.

No Reino Unido, o rei Charles III e o premier Keir Starmer foram forçados a se posicionar após o ex-príncipe Andrew e o trabalhista Peter Mandelson, indicado ao cargo de embaixador em Washington em 2024, voltaram a aparecer nos documentos de forma comprometedora, incluindo suspeitas de que os dois teriam, em momentos distintos, compartilhado informações sigilosas do governo britânico com o magnata.

Mesmo na Ásia os laços com Epstein provocam reações, abalos políticos e retratações. O Dalai Lama afirmou no domingo que nunca conheceu o americano, após ter o nome citado nos arquivos. O premier indiano, Narendra Modi, foi apontado por opositores como "vulnerável à manipulação de monstros estrangeiros", por ter sido citado em um e-mail de Epstein. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu explorou a divulgação de e-mails entre o criminoso e Ehud Barak, um ex-primeiro-ministro que tem sido seu crítico vocal, para atacá-lo.

"O relacionamento estranhamente próximo de Jeffrey Epstein com Ehud Barak não sugere que Epstein trabalhou para Israel. Prova o contrário", escreveu Netanyahu nas redes sociais em 6 de fevereiro. "Preso em sua derrota eleitoral de mais de duas décadas atrás, Barak tem tentado obsessivamente, há anos, minar a democracia israelense".

Com NYT.