Ondas ferozes de calor, incêndios florestais e tempestades históricas pulverizaram a Europa durante o verão no Hemisfério Norte.
Agora, uma sequência de secas, ampliadas pelas mudanças climáticas, afetaram algumas das principais vias fluviais do continente, aplicando ainda mais pressão sobre uma região que já enfrenta um baixo crescimento e uma competição global violenta.
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Um centro da crise é o “largo e sinuoso Reno”, como Lord Byron o descreveu, que se estende por mais de mil quilômetros, passando por seis países, em uma jornada dos Alpes Suíços ao Mar do Norte.
Essa artéria econômica vital é usada por milhares de navios e milhões de toneladas de carga, amparando o comércio e a indústria do continente.
— É uma das mais importantes molas propulsoras da economia alemã — disse Carsten Brzeski, chefe global de pesquisa macroeconômica da empresa ING, e também um dedicado remador.
Na última semana, os níveis do rio chegaram ao ponto mais baixo desde 1880, quando começou a medição, afetando cadeias de suprimentos, elevando os preços do frete e forçando reduções na produção.
Bancos de areia expostos nas margens do rio Danúbio, na Croácia
MARKO PERKOV / AFP
O calor extremo também afeta o rio Danúbio, o segundo mais longo da Europa, onde os níveis baixos tornaram visíveis os cascos de navios afundados durante a Segunda Guerra Mundial.
A crise hídrica ainda forçou a ativação de planos de emergência para o setor elétrico na Hungria e Romênia, que usam a água do Danúbio no resfriamento de reatores nucleares.
Os governos já pediram que residências e comércios economizem energia.
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Os efeitos dos baixos níveis dos rios podem ser vistos em Duisburgo, na Alemanha, onde as cargas são transferidas de navios maiores para embarcações menores, ou para trens, carros e caminhões.
Alguns barcos levam apenas um terço de suas cargas para que possam navegar com segurança no Reno, onde em alguns trechos a profundidade é pouco maior do que um metro.
— Agora nós vemos quem é um bom capitão e quem é um mau capitão — afirmou Wilma van Ingen, que com o marido conduziu um cargueiro de Roterdã, na Holanda, carregado com minério de ferro, à Alemanha.
O navio dela, que normalmente leva 5 mil toneladas, fez a viagem com apenas 1,2 mil toneladas.
Com cargas menores, o tráfego nas águas fica mais pesado.
— Trabalhamos no nosso limite — disse Markus Bangen, CEO do porto de Duisburgo, que processa cerca de 100 milhões de toneladas de carga e 20 mil navios por ano.
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O rio Reno moldou a geografia do sucesso industrial alemão, na medida em que as companhias construíram fábricas e rotas de comércio ao longo de suas margens, incluindo as titãs Basf, Mercedes-Benz, Bayer e ThyssenKrupp.
Cerca de 300 milhões de toneladas de carga passam por suas águas anualmente.
O Reno liga o porto de Roterdã, no Mar do Norte, a três dos principais núcleos industriais alemães, conectando refinarias de petróleo, siderúrgicas, indústrias químicas, usinas a carvão, dentre outros.
Seriam necessários até 100 caminhões ou um trem completo para transportar a carga levada por apenas uma das embarcações fluviais, diz Brzeski.
E mesmo assim, trocas são complicadas: segundo ele, as “as ferrovias também são um desastre”, e obras impedem o uso de uma das rodovias que acompanham o traçado do rio.
Em 2018, uma seca violenta fechou fábricas e causou um impacto de 0,3% sobre a produção do país, de acordo com analistas.
Mas a experiência fez com que o setor industrial passasse a agir de forma mais rápida, diz Jens Schwanen, diretor da Associação Federal de Navegação Interior da Alemanha, uma entidade do setor.
— Não podemos fazer a água aparecer por mágica — disse.
As empresas se adaptaram.
Se planejaram melhor para quando o nível da água cair.
Construíram mais espaço de armazenamento em portos de águas profundas, permitindo que os bens sejam entregues mesmo quando as hidrovias estão secas.
Essa foi a estratégia da Siemens Energy, cujas turbinas de 300 toneladas são tão robustas que não podem ser transportadas por rodovias ou ferrovias.
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Há estudos para construir navios capazes de navegar em águas mais rasas, mas até agora são poucos os que podem viajar em tempos de seca.
O tráfego mais lento, cargas mais leves e rotas alternativas custam mais caro.
Os consumidores alemães, cuja gasolina é transportada por rios, estão pagando mais caro nos postos.
Segundo uma análise do Instituto de Kiel para a Economia Mundial, um centro de pesquisas alemão, “os baixos níveis das águas causam problemas no transporte interno por hidrovias e uma redução significativa da atividade econômica”.
Depois de um mês de rios mais secos, “a produção industrial na Alemanha pode cair até 1%”, diz o estudo.
Isso é muito para um país que, “por um prolongado período de tempo, se encontra em estagnação ao invés de crescer de maneira significativa”, disse Stefan Kooths, diretor de pesquisas do Kiel.
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Os custos do frete fora da Europa também atingiram as economias locais.
A guerra no Irã e os problemas nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb elevaram o preço do petróleo e empurraram a inflação.
As forças geopolíticas e geográficas estão cobrando seu preço, e ainda mais pode vir.
Uma quantidade menor de neve nos Alpes durante os meses de inverno reduziu o fluxo nos rios no verão.
A seca atual significa que há menos chuva, e o calor provocou uma evaporação acima do normal neste ponto do verão no Hemisfério Norte.
Segundo a previsão do tempo, o calor e a seca devem se prolongar por mais algumas semanas.
