Seca em SP: chuvas do fim de semana não melhoram nível dos reservatórios, e situação preocupa
O nível dos reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo segue preocupante mesmo após as chuvas intensas registradas no estado no último final de semana. O sistema integrado metropolitano, que reúne sete mananciais, teve um aumento de apenas 0,2% no volume útil, segundo dados da Sabesp desta segunda (5).
A chuva atingiu principalmente cidades do litoral. A partir dos dados coletados com o monitoramento contínuo realizado pelo Gabinete de Crise SP Sempre Alerta, é possível constatar uma concentração de umidade na faixa litorânea. O fenômeno, intensificado pelo bloqueio orográfico na Serra do Mar, despejou em poucas horas volumes que eram esperados para semanas inteiras, mantendo as equipes de resgate e engenharia em estado de prontidão constante nas principais rodovias e núcleos urbanos.
Enquanto no dia 03/01 o maior acumulado estava no interior (Jales, 81mm), nos dias subsequentes os volumes dispararam no Litoral Norte e Baixada Santista, com Ubatuba registrando 178mm em apenas 24 horas no dia 04/01.
Acumulado de chuvas no final de semana
O GLOBO
Apesar da chuva também ter atingido áreas que abastecem reservatórios como a Cantareira — a exemplo de Joanópolis, em São Paulo, próximo ao sul de Minas Gerais, onde fica a Serra da Mantiqueira, que concentra nascentes — o volume foi insuficiente, aponta o meteorologista da Tempo OK, Celso Oliveira. Foram apenas 21 milímetros na cidade no sábado, segundo dados do Inmet.
Oliveira explica que a área dos reservatórios que abastecem a capital estão classificadas como em estado de seca grave pelo Monitoramento de Secas da Agência Nacional de Águas.
— Qual é a chuva boa para reservatório? São chuvas que acontecem durante vários dias seguidos, mesmo que com volumes baixos, para que o solo consiga absorver um pouco a cada dia e se torne mais permeável. No cenário de agora, mesmo que caia 150 mm em 24h, a maior parte dessa chuva é perdida por escoamento superficial ou evaporação, já que o solo está denso e compactado — diz Oliveira.
Maiores acumulados de chuva no último final de semana
Reprodução
O cenário foi preocupante ao longo de todo o ano passado e o prognóstico para os próximos meses não é animador, afirma César Soares, meteorologista do Climatempo.
— Não é uma pancada de chuva ou a chuva de um período que vai solucionar praticamente um ano inteiro com chuva ineficiente nas áreas de captação. O ano de 2025 foi marcado por seca nas áreas de captação, a gente só teve o mês de abril com chuva acima da média, isso joga muito contra, a gente vai precisar de vários meses de chuva acima da média, persistente, até mesmo de temperaturas um pouco mais baixas, que não é a previsão — diz Soares.
Na comparação com a crise hídrica que atingiu o estado entre 2014 e 2015, os números são preocupantes. O nível da Cantareira está mais baixo que o registrado em janeiro de 2014, poucos meses antes da crise (20,2% agora contra 26,7% em 2014). O mesmo pode ser observado com relação ao sistema integrado metropolitano, que hoje marca 26,7% ante 40,9% neste mesmo dia em 2014.
Plano de contingência
O abastecimento de água na região metropolitana segue plano de contingência divulgado pelo governo estadual. No momento, a pressão da água é reduzida no período noturno durante 10h, entre 19h e 5h. Segundo o governo, as medidas "garantem uma economia diária equivalente a mais de 1,2 milhão de caixas d’água de 500 litros, ou 50,4 mil caixas por hora".
Segundo o governo, as represas do SIM funcionam de forma integrada "conectando grandes e pequenos mananciais, adutoras e estações de tratamento. Esse modelo permite a transferência de água entre sistemas, reduzindo riscos de desabastecimento, mas também faz com que a pressão sobre um sistema impacte todo o conjunto".
Após o consumo de água disparar em até 60% após a onda de calor no fim de ano, a Sabesp divulgou que vem monitorando de forma permanente os sistemas. “Desde a desestatização, em 2024, a Sabesp já investiu R$ 1 bilhão em ações de redução de perdas como troca de tubulações, inovação tecnológica na pesquisa e reparo de vazamentos, combate a fraudes e regularização de áreas informais. Os investimentos programados devem alcançar R$ 9,7 bilhões até 2029, alta de 60% frente ao período anterior”.
Medidas de emergência no litoral
A situação mais crítica do final de semana concentrou-se em Ubatuba, onde a chuva atingiu a impressionante marca de 178 milímetros. Esse volume representa mais de 65% da média climatológica para todo o mês de janeiro, caindo em um intervalo curtíssimo de tempo. A consequência imediata foi a interdição total da rodovia Mogi-Bertioga no domingo, após o registro de 200 milímetros acumulados em apenas três dias, tornando o tráfego pela região insustentável devido ao risco iminente de novos deslizamentos de terra.
Os municípios que lideraram os índices de precipitação nas últimas medições foram:
Ubatuba (Sertão da Quina): 178mm
São Vicente (Jardim Rio Branco): 114mm
Bertioga (Jardim Lido): 103mm
Caraguatatuba (Tabatinga): 100mm
Praia Grande (Alice): 83mm
O impacto social não se restringiu aos locais com maior volume de água. Mongaguá emergiu como o ponto de maior desassistência habitacional, contabilizando centenas de pessoas que precisaram abandonar seus lares devido a alagamentos severos e falhas estruturais causadas por rajadas de vento e enxurradas.
Apesar de ter registrado 58mm (um volume significativamente menor que os 178mm de Ubatuba), a cidade concentra a imensa maioria dos desabrigados e desalojados do estado (324 das 369 pessoas afetadas no total).
O balanço consolidado pelo Gabinete de Crise revela a magnitude da operação, com o registro de 39 ocorrências meteorológicas que mobilizaram as equipes de emergência por todo o território paulista. No total, foram registradas 133 pessoas desabrigadas e outras 236 desalojadas, números que refletem a severidade dos danos estruturaias em casas e vias públicas.
Entre os episódios mais críticos, destacam-se o extravasamento do Rio Pilões em Cubatão, que inundou residências e forçou o acolhimento de famílias em igrejas e sedes sociais, e o isolamento do distrito de Ana Dias, em Itariri, provocado pelo transbordamento de rios que destruiu pontes e bloqueou o acesso principal da localidade.
Além disso, a força dos ventos no Vale do Ribeira causou o desabamento de uma residência em Juquiá, deixando uma vítima com escoriações, enquanto em Rio Grande da Serra, o deslizamento de um barranco atingiu diretamente a estrutura de imóveis no Jardim Guiomar, evidenciando o perigo da saturação do solo em áreas de encosta.
Para conter o avanço de uma tragédia maior, a Defesa Civil do Estado mobilizou ferramentas como o sistema Cell Broadcast, que dispara alertas invasivos diretamente nos aparelhos celulares em áreas de risco.
Essa estratégia, aliada a quase quatrocentos avisos meteorológicos enviados por canais digitais, foi fundamental, segundo o órgão, para a ausência de óbitos até o momento, permitindo que turistas e residentes em locais como Peruíbe fossem resgatados preventivamente com o auxílio de botes.
