'Se o Brasil lesse mais Guimarães Rosa, nossa história seria outra', diz biógrafo do escritor
É assim, com devoção e entendimento de quem conhece profundamente o autor e sua obra, que Leonêncio Nossa fala de Guimarães Rosa. O jornalista, nascido em Vitória, no Espírito Santo, e radicado em Brasília, estudou a escrita e a vida de Rosa por vinte anos. Tudo para cumprir a sua sina pessoal: escrever uma biografia do autor de livros fundamentais da literatura brasileira, como 'Grande Sertão: Veredas', que completa 70 anos em 2026; 'Sagarana', 'Tutameia' e tantos outros.
Nessa entrevista à CBN, Leonêncio conta um pouco sobre como foi a incursão por documentos, cartas, registros em jornais e conversas sem fim com parentes e amigos de Rosa. Tudo para colocar de pé a primeira biografia do diplomata, médico e autor, morto há mais de 60 anos.
O jornalista destaca o caráter universal da obra do escritor mineiro, nascido em Cordisburgo, e que viveu no Rio de Janeiro por muitos anos, onde escreveu livros fundamentais que se tornaram clássicos. Nessa conversa, ele conta curiosidades da história do seu biografado, que dizia "ter rolado no chão com o demo", enquanto escrevia 'Grande Sertão' e contava a saga dos jagunços, jogando luz sobre personagens tão ricos como Riobaldo e Diadorim.
Se o sertão é dentro da gente, como dizia Guimarães Rosa, sua obra se encarrega de contar ao mundo as curvas e as veredas desse sertão, um lugar mítico, mágico, distante (será?) e universal.
Confira a entrevista completa:
Vocês fizeram um trabalho importantíssimo de pesquisa sobre a vida e a obra do Guimarães Rosa. Conta um pouco pra gente como foi esse garimpo. Como foi esse processo? Afinal, foram duas décadas de pesquisa.
Leonêncio Nossa - Em 2003, nos 50 anos da publicação do livro 'Grande Sertão: Veredas', estava forte o debate sobre o fato de não haver uma biografia do Guimarães Rosa no mercado. Era estranho porque já tinha passado muito tempo da morte dele e meio século da publicação de dois dos seus principais livros. E foi nesse momento que resolvi reunir material para publicar uma biografia dele. Fui trabalhando, sou jornalista, mas sempre com esse intuito, com essa vontade de fazer uma biografia. Afinal, seria a primeira biografia de um autor considerado por muitos o maior escritor brasileiro.
Eu queria dizer para você assim, sem cabotinismo, porque um livro é feito por uma equipe muito grande. São duas editoras, a Nova Fanta Terra e a Top Books. E eu acho que posso dizer que é um grande momento do mercado editorial publicar uma biografia de Guimarães Rosa, porque é um autor muito intenso, complexo e importante no cenário da literatura universal. É algo muito importante que nunca foi feito. É histórico, sim.
O Guimarães Rosa traz em sua obra o sertão de forma muito forte, praticamente um personagem com vida própria. Ele fala desse Brasil distante do grande centro. E o curioso, que muita gente não sabe, é que ele produziu muitas obras justamente no Rio, onde morou grande parte da vida....
Leonêncio Nossa - Pois é... Ele escreveu o 'Grande Sertão' no Rio, e também o 'Tutaméia'. E outros dois que ele morreu sem publicar, o 'Essas histórias' e o 'Ave Palavra', foram todos escritos no apartamento dele em Copacabana. E olha só que interessante: o prédio dele ficava justamente em frente à praia entre o Forte de Copacabana e o Arpoador, a Praia do Diabo. E o diabo é uma figura marcante na obra do Guimarães Rosa.
Guimarães Rosa com cachorro em seu apartamento no Arpoador
Arquivo Público Mineiro (APM)
E sobre essa coisa do sertão... ele diz sempre que o Sertão está em todo lugar, né. O personagem Riobaldo diz isso. Na verdade, o livro 'Grande Sertão: Veredas' acontece no trecho que pega um pedaço de Minas Gerais, Bahia, Goiás e onde hoje é o Distrito Federal. É uma região grande. Mas, no fundo, o Guimarães Rosa fala, na verdade, do homem e da mulher e da criança do Brasil, né? Desse Brasil do interior. E, na construção das personagens, ele recorria às ruas, seja a rua do centro do Rio, das pessoas que ele via no centro ou em Minas, nas viagens que ele fazia a cavalo.... Ele buscava todos os tipos de fontes para a obra dele. E ela é muito atual por isso, porque ele vai ao encontro das linguagens, das falas do brasileiro.
Muita gente não sabe ao certo se ele realmente fez todas as viagens no lombo do cavalo pra escrever Grande Sertão....
Leonêncio Nossa - Em 1946, ele publica o primeiro livro dele, de contos, 'Sagarana'. São contos ambientados em Minas Gerais, não apenas naquela região do Sertão, mas também na região central. Aí, em 56, que ele vai publicar dois longos livros, que são 'Grande Sertão' e um outro livro de novelas, 'Corpo de Baile'. Entre esse intervalo do 'Sagarana' para o 'Corpo de Baile' e para o 'Grande Sertão', são 10 anos. Nesse período, ele vai fazer, sim, duas grandes viagens a Minas. Ele faz uma longa viagem para aquela região de Veredas, de Buritizais. Veredas, que são caminhos de águas e Buritis. E essa viagem foi muito importante porque é ali nascem de fato esses dois livros.
E teve uma viagem ao Pantanal também, né?
Leonêncio Nossa - Isso. Ele também fez, ainda nos anos 30, uma viagem para o Pantanal. E ela também foi importante. Especialmente porque ali ele conheceu os boiadeiros, o pessoal que cuidava de boi. Então o 'Grande Sertão' tem essas características nesses vários lugares.
O seu livro traz muita informação até então desconhecida. Tem alguma coisa ali que a gente pode falar assim: "Isso mais me surpreendeu, isso eu não imaginava".
Leonêncio Nossa - Todos fatos que iam surgindo sobre ele tinham sua importância, porque o Guimarães Rosa que eu conhecia, era um grande escritor. E com a pesquisa vai aparecer muito o homem também. Esse homem tem dívidas, problemas para pagar a escola das filhas, se sustentar, enfrenta dificuldades mesmo quando já era diplomata. Ele passava muitos perrengues, inclusive quando ele estava fazendo o 'Grande Sertão'. Foi um sufoco financeiro. Porque ele se dedicava ao Itamaraty, mas as contas se acumulavam.
Guimarães Rosa, escritor e diplomata
Arquivo Público Mineiro (APM)
Tem muita coisa curiosa. A própria experiência dele como diplomata em Hamburgo, no período na Alemanha durante a guerra, ele foi fichado pela política nazista. Ao longo da vida vão ter episódios relevantes. Ele que vai assumir, por exemplo, as negociações com o Paraguai quando teve um problema de fronteira e que vai resultar na formação do Lago de Itaipu.
E o livro vai revelando episódios do homem e da obra. Eu vou tentando buscar as origens dos personagens, as situações que ele descreve tem a ver com a vida dele. No fundo, ele é muito autobiográfico, não tira as coisas do nada.
A alma mineira tem um certo mistério, algo insondável. Você acha que essa mineiridade, apesar do Guimarães ter morado em outros estados e outros países, é um fator fundamental para a obra?
Leonêncio Nossa - Não só a mineridade, mas a minerice. Ele falava que havia mineridade, alteridade do mineiro e a minerice, que é a forma de sobrevivência, a forma divertida de viver. Eu diria que, quanto mais eu viajava por Minas, mais ficava perplexo pelo cenário da criação da obra do Guimarães Rosa. Porque Minas, como o Rosa disse, são muitas. Você tem os Gerais, lá em cima, o Norte mineiro, aqueles desertos. Tem a região de boiadas, e você tem as Minas propriamente ditas, que são essa região de São João do Rei, Ouro Preto, do ciclo do ouro, onde Rosa também andou. E a região de Belo Horizonte. E quando ele fala que o sertão é o mundo, é a leitura dentro do mundo, uma literatura universal. Eu vejo a possibilidade de dizer que Minas é o mundo.
"Tem uma cultura negra, indígena, cigana, garimpeira, portuguesa.... Quer dizer, um caldeirão de culturas decisivo para a obra do Rosa", destaca
Você começa a sua pesquisa vendo o Sertão de uma forma e enxerga esse espaço de outra maneira quando encerra o livro? Enfim, dá para definir exatamente esse Sertão, além dessa questão de ser universal?
Leonêncio Nossa - Desde o início da colonização, Sertão era tudo que estava longe de Rio e São Paulo. Mas se você olhar do interior para as grandes cidades, você vai ver que o distante, na verdade, é o centro, são os centros urbanos.
Agora, o que eu acho que o mais marcante para mim é a capacidade do Rosa de valorizar a linguagem do outro. Respeitar o outro. E é pela pela linguagem que surgem as relações e os seus preconceitos, os distanciamentos, né? E ele tornou essa linguagem do brasileiro uma linguagem tão multifacetada, uma linguagem indígena, africana, do imigrante português. Ele mistura muito isso, né? Ele dá uma nova roupagem e extrai isso, justamente, a musicalidade dessas palavras. Ele mostra como esse brasileiro do interior fala de um jeito que tem uma sonoridade, uma musicalidade. O que mais importante do Rosa não são as palavras, talvez. Eu acho que é a musicalidade dessas palavras, desse português arcaico, desse português de tantas origens.
E foram mais de 900 neologismos, né...
Leonêncio Nossa - São muitos sim, mas, sinceramente, acho que muitas coisas que as pessoas falam que é neologismo, na verdade o povo fala assim. Claro que tem neologismo, ele distorce as linguagens, o jeito de falar mais simples, para criar aquela sonoridade, aquela obra diferente. Mas viajando por aí, a gente percebe que esse linguajar do (personagem) Riobaldo, de Diadorim (personagem), é muito presente na vida brasileira ainda.
Olha essa história: eu estava em Belo Horizonte fazendo pesquisa no arquivo público mineiro. Aí numa carta, o Rosa agradece um amigo dele que tinha mandado um dinheiro para ele num momento difícil. O Rosa fala assim: "Esse dinheiro chegou aqui com uma chuvinha gostosa". Aí eu saí do arquivo com aquela coisa na cabeça: "eu tenho que pesquisar mais os arquivos para encontrar esse Guimarães Rosa". Bom, fui pra rodoviária de Belo Horizonte para voltar para Brasília. No guichê falei pra moça: "me arruma uma passagem nesse último ônibus para Brasília porque senão, não vou conseguir chegar amanhã cedo". E ela disse que não tinha jeito. Depois acabou conseguindo me colocar no último ônibus. Aí eu falei: "Ufa". Do nada, ela me disse: "Que chuvinha gostosa que caiu aí". A mesma expressão! No mesmo dia, no mesmo dia! E essa coisa da chuvinha está muito presente no livro 'Sagarana', por exemplo. São pequenas expressões que viram algo grandioso.
Então, esse é o legado do poeta. Ele mostrou que o povo brasileiro é muito poético, apesar de levar uma vida muito dura.
"Ele consegue arrancar da brutalidade brasileira, desse país desigual, injusto, violento, a musicalidade, a poesia, personagens fabulosos", acrescenta.
A gente está falando de uma coisa etérea e me lembrei que ele fala que a escrita do Grande Sertão foi feita meio que como num transe, uma coisa transpsíquica...
Leonêncio Nossa - O pessoal comenta muito isso mesmo. Teve uma vez, que o Antônio Calado, grande escritor, disse para o Rosa que o conto 'A terceira margem do rio' era muito bonito. E perguntou onde ele tinha se inspirado. Aí, ele respondeu assim: "Ah, Calado! Foi tão bonito que realmente depois que eu acabei de escrever, fui rezar".
"Uma vez ele contou que rolou no chão com o demo, quando ele tava escrevendo o 'Grande Sertão"', conta.
Mas, olhando de forma muito fria, acho que esses transes só são possíveis para pessoas que mergulham com muita intensidade na história do país. Viajam muito pelo país para conhecer as pessoas. Eu acho que o transe só é possível quando o escritor acumula muita informação. Se o escritor ficar no apartamento, no ar-condicionado, não vai ter transe não. (risos) Claro, pode ter o sobrenatural, mas é preciso levar em conta que era um homem que dizia que tinha transe na escrita, mas que, claro, fazia muito trabalho de pesquisa.
E ele tinha os famosos caderninhos também, não é?
Leonêncio Nossa - O Rosa tinha as cadernetas, ele ia para os lugares e começava a anotar. Uma vez, ele foi para Manaus como diplomata. E a turma resolveu ir no cabaré da cidade. Ele chegou, assentou, aí sentou uma moça e ele passou a noite inteira interrogando a moça e anotando as falas dela. Ele queria saber de tudo. E é assim que escreve os livros, conversando com as pessoas, valorizando essas pessoas. O Rosa ouvia muita gente. Isso que eu acho mais legal nele.
Guimarães Rosa, escritor e diplomata
Arquivo Público Mineiro (APM)
Você não acha que falta um acesso maior ao público brasileiro à obra de Guimarães Rosa?
Leonêncio Nossa - Há um mito de que a obra dele é difícil. Ela, no primeiro momento, pode ser até ser complicada. Mas eu já dei cursinhos para jovens indígenas, por exemplo, meninos lá do interior do Amazonas e vou te falar: eles podiam até nem interpretar de forma tão intensa os contos, mas entravam no universo do Rosa. Seria muito bom que o brasileiro tivesse mais acesso aos livros, não apenas do Guimarães Rosa, mas de outros também.
"Seria muito bom, nesse momento de tanta intolerância, que as pessoas lessem mais a obra de Guimarães Rosa", ressalta.
Ele reúne as pessoas, une os diferentes. Então, se o Brasil lesse mais o Guimarães Rosa, acho que a história seria outra, porque o Rosa é o escritor da tolerância, da valorização das pessoas mais simples. Ele viveu esse mundo intolerante também. Viveu na Alemanha nazista e esses momentos turbulentos do mundo. Talvez por isso a obra dele é tanto um apelo à união dos povos, ao fim das intolerâncias.
Qual o simbolismo dos lançamentos da biografia no Rio de Janeiro?
Leonêncio Nossa - O Rio Janeiro é muito importante, eu fui muito para o Rio para pesquisar. E no Rio eu encontrei mais de 50 pessoas que conviveram com ele. Embora esse homem tenha morrido há quase 60 anos (em 1967), tem muita gente que conviveu com ele e pôde dar depoimentos. E foi no Rio que o Rosa escreveu a maioria dos seus livros.
"Cada pessoa é uma biblioteca. Então, essas bibliotecas são tão importantes quanto os acervos documentais"
Eu conversei com muita gente, por exemplo, o Alberto Costa Silva, o Azambuja, com outros diplomatas do Itamaraty, com pessoas da família... Então, foi possível fazer uma biografia não apenas com documentos, mas com história oral. Eu entrevistei uma pessoa, por exemplo, no interior de Minas, que era primo dele. Na época, ele tinha 103 anos e pôde falar da da juventude do Guimarães Rosa. Cada pessoa é uma biblioteca, né? Então, essas bibliotecas são tão importantes quanto os acervos documentais. E figuras que foram importantes para o Guimarães Rosa viraram personagens.
A gente tem, em 2026, os 70 anos do lançamento de 'Grande Sertão: Veredas', que foi lançado em julho de 1956. Mas tem muita gente falando de Guimarães desde o início do ano, o que é bom né....
Leonêncio Nossa - Foi uma coisa muito importante das editoras Topbooks e a Nova Fronteira trazerem essa biografia para provocar esse debate sobre a obra de um escritor importante para a sociedade brasileira, principalmente nesse momento tão difícil para o Brasil.
