'Se não oferecemos outra forma de ser homem, os meninos buscam validação nos piores lugares da internet', diz Guilherme Valadares, do PapodeHomem

 

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Dúvida da semana: Como criar meninos que entendam o que é machismo, misoginia, assédio e consentimento?

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Quatro pilares importantes na criação de meninos, por Guilherme Valadares, cofundador e diretor de pesquisa no Instituto PDH | PapodeHomem

É muito difícil ser o que a gente não consegue ver.

Os meninos precisam ver e conviver com homens que praticam o consentimento e respeito com as mulheres, que exercem o cuidado em casa, que limpam, cuidam e praticam a equidade. Não dá para achar que só falar vai funcionar, o exemplo precisa ser vivido para que os meninos absorvam.

Seguem abaixo alguns pilares que acredito serem muito importantes nesse debate, com base no que aprendemos em nossas pesquisas:

1. O silêncio é cúmplice, mas o exemplo arrasta

Não adianta explicar o que é machismo se o menino cresce em um ambiente onde as tarefas domésticas são invisíveis para os homens ou onde comentários depreciativos sobre mulheres são aceitos como "piada". Os meninos são excelentes observadores e péssimos ouvintes. A forma como você trata as mulheres da sua vida e como você se posiciona quando ouve algo machista em um grupo de amigos educa mais do que qualquer livro.

2. Consentimento começa em casa

Precisamos ensinar consentimento desde cedo, em situações cotidianas. "Você quer dar um abraço no tio agora? Não? Tudo bem, seu corpo, sua escolha." "Pode fazer cosquinha? Parou de ser legal? Então a gente para na hora." Quando a criança entende que tem autonomia sobre o próprio corpo e que deve respeitar o limite físico do outro no brincar, o conceito de consentimento sexual, anos mais tarde, será uma extensão natural de um valor que ela já vive.

3. Nomear as violências

Misoginia e assédio são nomes complexos para comportamentos que podem ser explicados de forma mais simples:

Misoginia: é quando alguém acha que ser mulher, ou ter características lidas como femininas, é um defeito ou algo "menor".

Assédio: é invadir o espaço do outro, física ou verbalmente, sem que a pessoa queira ou tenha dado abertura. Precisamos ajudar os meninos a identificar isso nos filmes, nos games e nas letras de música. "Você viu como aquele personagem tratou ela? O que você acha que aquela mulher sentiu?". Isso desenvolve a escuta ativa e a empatia, que são passos importantes para refletir sobre quais outras ações poderiam ser tomadas e o que significa sempre tratar todas as mulheres e meninas com respeito e sem violência.

4. Oferecer uma alternativa à "Caixa do Homem"

O machismo sobrevive porque oferece aos meninos um senso de pertencimento e poder. Se não oferecemos outra forma de ser homem, uma que valorize a vulnerabilidade, a equidade de gênero, o cuidado e a amizade real, eles vão buscar validação nos piores lugares da internet (como as comunidades redpill). Precisamos validar que ser homem também é ser gentil, é saber perder e é não precisar dominar ninguém para se sentir forte.

Educar um menino para o mundo de hoje é, em certa medida, um trabalho de formiguinha, de conversas desconfortáveis e, principalmente, de estarmos dispostos a olhar para os nossos próprios pontos cegos.

Se você tem perguntas sobre a educação dos seus filhos, mande para a gente ao final desta newsletter. Muitas vezes, a sua inquietação é também a de outros pais e mães que estão tentando acertar todos os dias.

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Referências para pais, mães e cuidadores

📖 "Precisamos falar de consentimento: Uma conversa descomplicada sobre violência sexual além do sim e do não" (Bazar do Tempo)

O livro, escrito por Arielle Sagrillo Scarpati, psicóloga, Beatriz Accioly Lins, antropóloga, e Silvia Chakian, promotora de justiça, reúne diferentes olhares para propor uma reflexão sobre o que caracteriza consentimento na relação sexual.

📖 "Pornland: como a pornografia sequestrou nossa sexualidade" (Editora Caqui)

Neste livro, a socióloga e crítica de mídia Gail Dines investiga como a indústria pornográfica moldou de forma perturbadora as percepções e experiências da sexualidade na sociedade contemporânea.

🔗 PapodeHomem

O PapodeHomem é um espaço de pesquisa, conteúdo, projetos e treinamentos focados em temas como masculinidades, saúde mental e construção de pontes entre pessoas que pensam de maneiras diferentes. Os conteúdos produzidos pelo instituto podem ser acessados gratuitamente. A seguir, indicamos alguns deles:

Perfil oficial no Instagram

Filme "O silêncio dos homens", disponível gratuitamente no YouTube e que é parte de um projeto que ouviu mais de 40 mil pessoas em questões a respeito das masculinidades.

Como os pais podem explicar consentimento aos filhos e filhas: dicas práticas. Um passo a passo que reúne vídeo e sugestões de como lidar com essa questão em cada faixa etária.

🔗 Instituto Liberta

O Liberta é uma organização social que trabalha pelo fim de todas as violências sexuais contra crianças e adolescentes.

O Guia para familiares e educadores, trabalho publicado pelo grupo, traz diálogos simples, divididos por faixa etária, que ajudam crianças e adolescentes a compreenderem o próprio corpo e a desenvolverem um senso de autoproteção.

O que o GLOBO já publicou sobre o tema 🗞️

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