‘Se ficar discutindo o sexo dos anjos, esse julgamento não termina’, diz juíza ao repreender defesa de Jairinho
Em meio a mais de seis horas de depoimento do psiquiatra Rafael Bernardon no julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, e de Monique Medeiros pela morte do menino Henry Borel, a juíza Elizabeth Machado Louro repreendeu nesta quarta-feira o advogado Zanone Júnior, integrante da defesa do ex-vereador. Durante a sessão no 2º Tribunal do Júri da Capital, no Centro do Rio, a magistrada interrompeu os questionamentos feitos ao especialista e afirmou que, “se ficassem discutindo o sexo dos anjos”, o julgamento não chegaria ao fim.
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— O doutor está aqui para falar sobre o perfil psicológico. Ele não é testemunha do fato, ele está aqui para traçar um perfil. Eu estou implorando ao senhor. O senhor está nos submetendo a uma verdadeira tormenta — afirmou a juíza.
Zanone rebateu, dizendo que o Ministério Público havia levado cerca de quatro horas na inquirição do psiquiatra enquanto ele só duas.
— Mas eu falei com vocês, ainda não tinha feito esse pedido antes da fala da acusação — respondeu a magistrada.
O interrogatório terminou pouco depois. Agora, o júri vai ouvir a médica Maria Cristina de Souza, responsável por atender o menino no dia da morte.
Defesa questiona atuação de psiquiatra
Convocado pela acusação, Bernardon afirmou ao Conselho de Sentença que, após analisar os autos do processo, percebeu em Jairinho um comportamento que, em sua avaliação, indicaria satisfação ao causar sofrimento em crianças.
— Embora seja uma análise subjetiva minha, eu tive essa percepção e interpretação — disse o especialista, durante perguntas feitas pelo Ministério Público.
A declaração provocou reação imediata da defesa do ex-vereador, que interrompeu a fala para destacar que a conclusão apresentada representava uma interpretação pessoal do psiquiatra. Bernardon reforçou, então, que sua análise estava baseada na leitura técnica dos elementos reunidos na investigação.
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Após o depoimento, os advogados de Jairinho passaram a questionar a legitimidade da participação do especialista no julgamento. O criminalista Rodrigo Faucz afirmou que Bernardon não entrevistou o ex-vereador e que sua manifestação teria violado diretrizes éticas da medicina.
— É um absurdo a oitiva de um médico psiquiatra que, por conta das diretrizes éticas médicas, não poderia sequer se manifestar sobre pessoas que não foram entrevistadas — afirmou Faucz.
O advogado também sustentou que o especialista não presenciou os fatos investigados e foi contratado pela acusação.
— Trata-se de uma pessoa que não presenciou, não entrevistou e apenas foi contratada pela acusação para expor suas impressões pessoais — disse.
Julgamento entra no terceiro dia
Segundo Faucz, a própria magistrada já havia considerado o depoimento irrelevante em fase anterior do processo.
— A própria juíza proibiu, na audiência em primeira fase, que ele fosse ouvido, por considerar irrelevante a opinião de uma pessoa alheia e paga para confirmar a versão acusatória — declarou.
Após a oitiva de Bernardon, ainda estavam previstos os depoimentos do perito Luís Carlos Leal Prestes e da médica Maria Cristina de Souza Azevedo.
O julgamento, iniciado na segunda-feira, já acumula mais de dois dias de sessões, marcadas por longos depoimentos, divergências entre acusação e defesa e sucessivos questionamentos sobre as provas produzidas durante a investigação da morte de Henry, ocorrida em março de 2021.
Defesa de Jairinho consegue liminar para que interrogatório do réu aconteça após o de Monique
Durante o julgamento, a defesa de Jairinho obteve uma liminar em habeas corpus para garantir que o interrogatório do ex-vereador no júri pela morte de Henry Borel seja realizado somente após o depoimento de Monique Medeiros.
O pedido foi apresentado pelos advogados Rodrigo Faucz e Alanis Matzembacher. No início do julgamento, a solicitação já havia sido feita à juíza Elizabeth Machado Louro, mas acabou negada pela magistrada.
Com a decisão do Tribunal de Justiça, Jairinho deverá ser interrogado depois de Monique.
Segundo a defesa, a medida é necessária para assegurar o direito à ampla defesa e permitir que o réu conheça previamente as acusações feitas pela ex-companheira durante o julgamento.
— Não é possível que aquele que está sendo acusado tenha de se manifestar antes da acusação. Isso é básico em qualquer Estado de Direito. Para se defender adequadamente, é necessário conhecer o conteúdo exato da acusação. Continuamos a confiar no Poder Judiciário do Rio de Janeiro para garantir um julgamento justo para Jairo — Rodrigo Faucz
No início do júri, a defesa de Jairinho sustentou que Monique deixou de ocupar apenas a posição de corré e passou também a assumir postura acusatória contra o ex-vereador ao longo do processo.
Na ocasião, a juíza rejeitou o requerimento e afirmou que não caberia ao tribunal trabalhar com hipóteses sobre o comportamento dos réus durante os interrogatórios.
