Durante muito tempo, a vida profissional foi imaginada como uma linha reta: estudamos, trabalhamos por algumas décadas, acumulamos patrimônio e, por volta dos 60 ou 65 anos, nos aposentamos. O aumento da longevidade desafia esse roteiro.
Se vamos viver mais, devemos simplesmente poupar mais ou também planejar uma segunda carreira? Os números ajudam a dimensionar a questão.
Segundo o IBGE, uma pessoa que chegava aos 60 anos em 1940 tinha, em média, outros 13,2 anos de vida. Em 2024, são 22,6 anos.
Entre as mulheres, 24,2 anos. De cada mil brasileiros que chegavam aos 60 anos em 1940, apenas 213 alcançavam os 80.
Hoje, a estimativa é de 623. Financeiramente, viver mais traz uma consequência simples: precisamos financiar um período maior.
Uma pessoa que deixa de trabalhar aos 60 anos pode precisar sustentar seu padrão de vida por 25 ou 30 anos, talvez mais. Por isso, antes de pensar em uma segunda carreira, existe uma prioridade: poupar e formar patrimônio.
A segunda carreira não deveria servir como justificativa para poupar menos. Não sabemos se teremos saúde, disposição ou oportunidade para trabalhar aos 70 anos.
O planejamento financeiro mais prudente é aquele em que o patrimônio acumulado permite que continuar trabalhando seja uma escolha, e não uma necessidade. Isso não significa que uma segunda carreira deva ficar fora do planejamento.
Ela pode gerar renda e permitir uma transição mais gradual para a aposentadoria. E não significa necessariamente trocar de profissão.
Pode representar trabalhar menos horas, prestar consultoria, ensinar ou transformar a experiência acumulada em uma atividade mais flexível. Imagine alguém que pretenda encerrar sua atividade principal aos 60 anos e estime despesas de R$ 15 mil mensais.
O planejamento deveria calcular quanto precisa acumular para sustentar esse padrão de vida sem depender do trabalho. Mas suponha que, dos 60 aos 70 anos, consiga gerar R$ 5 mil mensais em outra atividade.
Precisará retirar do patrimônio apenas R$ 10 mil por mês. O efeito se acumula ao longo do tempo.
Além de reduzir as retiradas mensais, a renda complementar permite que uma parcela maior do patrimônio permaneça investida e produzindo rendimentos. Alguns anos de renda adicional podem, portanto, aumentar a duração do patrimônio nas décadas seguintes.
Mas há um detalhe importante: uma segunda carreira não começa quando termina a primeira. Ela precisa ser planejada antes.Assim como a aposentadoria financeira deve ser preparada com antecedência, uma nova etapa profissional também pode exigir tempo.
É preciso avaliar quais conhecimentos continuam tendo valor fora do cargo atual, quais habilidades precisam ser desenvolvidas, se será necessária formação adicional e quanto tempo a nova atividade poderá levar para gerar renda. Um executivo, por exemplo, pode imaginar que no futuro prestará consultoria algumas horas por semana.
Ter décadas de experiência, porém, não significa automaticamente transformá-las em renda. Pode ser necessário construir relacionamentos, atualizar conhecimentos e testar essa atividade enquanto ainda exerce a ocupação principal.
Surge, então, uma forma diferente de pensar a preparação para a longevidade. Podemos construir dois tipos de capitais.
O primeiro é o capital financeiro: investimentos e patrimônio capazes de sustentar nossas despesas quando deixarmos de trabalhar. O segundo é o capital profissional: conhecimentos, habilidades, experiência e relacionamentos que permitem continuar gerando renda caso desejemos.
Essa lógica faz parte de uma visão mais ampla do planejamento financeiro. Entre os conhecimentos exigidos na certificação CFP® está o planejamento de aposentadoria, incluindo o dimensionamento do capital necessário a partir de fatores como orçamento esperado, sobrevida e retorno dos ativos.
Planejar a aposentadoria vai além de escolher investimentos. É projetar como receitas, despesas e patrimônio poderão se comportar durante uma etapa que pode durar décadas.
Um planejamento pode considerar dois cenários. No primeiro, mais conservador, a renda profissional termina completamente na idade prevista para a aposentadoria.
No segundo, uma atividade complementar continua gerando renda por mais alguns anos. Um planejador financeiro certificado pode comparar as hipóteses e avaliar quanto a renda futura altera a necessidade de acumulação e o risco de depender dela.
A maior longevidade não significa que devemos obrigatoriamente trabalhar por mais tempo. Significa que precisamos planejar uma vida financeira mais longa.
Isso envolve pensar em dois cenários: o financeiro, que nos dá condições de parar, e o profissional, que nos dá condições de continuar. Um bom planejamento financeiro deveria nos preparar para os dois, porque a segurança estará justamente em poder escolher.
*Michael Viriato é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro. E-mail: michael@carteiradevalor.com.br
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