Saudável, mas capaz de causar problemas: conheça as consequências do descarte irregular do coco-verde
Na Rua Constante Ramos, em Copacabana, em frente ao número 44, onde funciona a Sorveteria Itália, uma cena comum se repete quase todos os dias. Ao fim do expediente, uma vendedora ambulante de água de coco que trabalha no local de segunda a sábado deposita na calçada, como lixo comum, as cascas de cocos-verdes utilizados ao longo do dia.
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No sábado retrasado, o descarte se repetiu. O material permaneceu acumulado no mesmo ponto durante todo o fim de semana e ainda estava lá na segunda-feira de manhã, conforme verificou a equipe do GLOBO-Zona Sul. Embora seja tratado por muitos como lixo orgânico, o coco-verde descartado dessa forma representa um problema ambiental e urbano muito maior do que aparenta.
Descarte. Restos de coco deixados por ambulante na Constante Ramos
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Especialistas explicam que a casca da fruta é extremamente resistente e pode levar até dez anos para se decompor quando abandonada no ambiente. Diferentemente de restos de comida, ela não se integra rapidamente ao solo e, quando deixada na rua, pode entupir bueiros, dificultar o escoamento da água da chuva e contribuir para alagamentos — um risco recorrente em bairros densamente urbanizados como Copacabana.
Além disso, a estrutura rígida da casca favorece o acúmulo de água, criando condições ideais para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika e chikungunha. O problema se agrava quando o resíduo permanece dias sem recolhimento.
Nas áreas costeiras, o impacto é ainda mais sensível. Cascas deixadas próximas à areia ou carregadas pela chuva até o mar interferem na dinâmica natural das praias, prejudicam a fauna marinha e podem afetar, inclusive, áreas de desova de tartarugas. O que começa como um resíduo urbano acaba se transformando em poluição ambiental.
Outro fator pouco conhecido é o custo desse descarte inadequado. O coco-verde é pesado e volumoso. Transportá-lo como lixo comum sobrecarrega a coleta pública e ocupa espaço em aterros sanitários.
Quando recolhida de forma correta, a casca do coco pode ser triturada e transformada em substrato agrícola, fibra para jardinagem, vasos biodegradáveis e até insumo para a construção sustentável. Sem esse tratamento, porém, o resíduo perde seu potencial e se torna apenas mais um problema para a cidade.
O caso da Rua Constante Ramos ilustra uma situação cotidiana, mas reveladora: a falta de informação e de fiscalização faz com que um produto associado à praia, ao verão e à natureza se transforme em um agente silencioso de degradação urbana.
Procurada, a ambulante disse que deixa o seu lixo amarrado no poste e não quis fazer mais comentários sobre o assunto.
A Secretaria municipal de Ordem Pública esclarece que a vendedora ambulante tem inscrição municipal ativa desde 2017. Já a Comlurb informa que qualquer descarte ilegal é passível de notificação e multa. A companhia avisa que vai enviar uma equipe para vistoriar o local e verificar se os cocos vendidos na Constante Ramos estão sendo descartados irregularmente. Diz ainda que os cocos são resíduos comuns e não devem ser jogados nas vias e, sim, lançados em contêineres da companhia.
A Secretaria municipal do Meio Ambiente e Clima mantém, em parceria com a Comlurb e a Orla Rio, o projeto “Coco no ponto”, no trecho da Praia do Leme, onde há 16 estruturas exclusivamente para recebimento de cocos. A coleta é feita com carrinhos elétricos movidos a energia solar; e o recolhimento, realizado majoritariamente por mulheres, uma oportunidade de renda e empoderamento para populações em situação de vulnerabilidade. O material é transportado pela Comlurb para a Fábrica Verde, unidade de processamento dos cocos, onde é convertido em novos recursos: fibra, biofertilizante e biomassa.
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