‘São decisões, mas fiquei muito sentido’, diz Pepa sobre demissão do Cruzeiro

 

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Na onda do sucesso de técnicos portugueses no Brasil, o até então pouco conhecido Pepa chegou ao país em 2023 e teve passagens relevantes por Cruzeiro e Sport. Um ano após deixar o time de Recife e ainda sem clube, o treinador participou do “Toca e Passa”, videocast do GLOBO, refletiu sobre a carreira de altos e baixos, tanto como jogador quanto como técnico, e se emocionou ao falar sobre a relação com Ronaldo em sua passagem pela Raposa.

Para começar, uma pergunta que nunca der ter ouvido (risos). Seu nome é Pedro Miguel. Por que Pepa?

Já ouvi essa (risos). Quando era criança, no no meu bairro, todos tinham um apelido e eu não tinha. Eu bebia muita Coca-Cola e muita Pepsi. E começaram a me chamar de Pepsi durante uns dias, mas depois rapidamente a galera foi do Pepsi para Pepa... E ficou. A “Peppa Pig” veio depois (risos). O meu já tem 40 anos.

Vocês está livre no mercado há um ano. Como você tem aproveitado esse tempo livre?

Aproveitando ao máximo a família, algo que eu não me lembro de ter feito nos últimos dez anos. Eu gosto muito de andar de bicicleta. Gosto muito de levar a minha filha à escola, passear com a esposa... Também aproveito para ver campeonatos, equipes ou alguns jogos que, quando estava trabalhando, não dava tempo. Evito ir ao estádio porque dá uma nostalgia muito grande. Gosto mais de ver em casa, dá para voltar (a transmissão).

Você parou de jogar aos 26 anos, por causa de lesões. Em que momento percebeu que seria treinador?

Sempre tive muita paixão pelo treino, por perceber questões táticas. Não queria só entender a minha posição de centroavante. Mas daí a ser treinador, foi só quando comecei a ter problemas físicos. Tive um tumor no pé, tive pubalgia... A do joelho foi a última, foi a que me derrubou. Perto do fim da carreira, com os meus 23, 24 anos, quando percebi que a carreira como jogador estava ficando comprometida, investi na minha formação com cursos, workshops, computador, melhorei meu inglês. Entrei na faculdade, mas não dei continuidade.

Nessa época, você tinha outro plano fora do futebol?

Não passei fome, não passei nada disso, mas foi duro. Não tive pé de meia. Enquanto jogador, não deu para ter casa paga, não deu para ter carro pago. Não tive o cuidado de juntar quando tinha 19 ou 20 anos. Eu pensava que ia jogar até os 40. Não tive muito tempo para lamentar porque tinha filhas para dar de comer. E então, fui dar aulas extra curriculares de educação física nos colégios, nas escolinha. Estava preparado para tudo, porque não tenho vergonha de trabalhar. Mas tudo correu tão rápido no futebol.

Você, que foi centroavante, teve a chance de trabalhar no Cruzeiro, que era comandado pelo Ronaldo. Como foi isso?

Era “fanzaço” do Ronaldo. Eu era camisa 9 e tinha duas referências: Van Basten e Ronaldo. Quando surgiu a oportunidade do Cruzeiro, com ele sendo o dono, não digo que tenha sido esse fator que pesou mais ou não, mas claro que ajudou. Ter a possibilidade de treinar o clube em que o Ronaldo era o dono era fantástico.

Na época, Ronaldo disse que não devia ter te demitido. Vocês conversaram depois?

Não, mas eu compreendo. Quando eu ouvi o Ronaldo dizendo isso, encheu-me de orgulho. Ao mesmo tempo quase fiquei com uma lágrima no olho de pena, de “por que deixaste isso acontecer? Segura aí o barco”. São decisões. Mas fiquei muito sentido, com lágrima no olho, quando ele reconheceu que não deveria ter tomado aquela decisão.

Você ainda se vê treinando um time do Brasil? Recentemente falaram que teve contato do Botafogo.

Houve umas situações. Coisas que não posso nem devo falar. Nunca vou dizer não a um projeto, a um clube. Projeto é a tal história de que falamos há pouco. É um povo, é um país, jogadores, torcida, de que gostei muito. Se vou voltar um dia ou não, não faço a mínima ideia. Agora, sinto que ainda ficou por fazer e por ganhar muito mais coisas. Deu para ganhar algumas coisas. Mas fica aquilo atravessado. Ainda não deu para fazer o que eu queria, que era ficar um ano e meio, dois anos, num clube. É difícil.

A pressão da torcida no Brasil é maior do que em Portugal?

Muito. A única coisa que me deixou triste no Brasil foi a forma como saí tanto de um lado, como do outro. Foi muito por ruído externo. E basta ver o trabalho no Bahia, o tempo que estão dando ao Rogério (Ceni), ao Abel (Ferreira, do Palmeiras)... É preciso tempo, paciência. Há fases menos boas. E é nessa fase que esperava um respaldo maior onde estive. Eu compreendo que, para a direção, não é fácil segurar o treinador, infelizmente. E, às vezes, não é a torcida toda, basta um certo grupo e pronto.

Você acha que na Europa isso está mudando? Vemos clubes tradicionais trocando de técnico em uma velocidade que não víamos há dez anos.

Está acontecendo muito. Em Portugal, Espanha, Inglaterra... Na Europa, isso não acontecia muito porque os clubes eram associativos. No ano de eleições, havia mais turbulência, mas depois havia dois, três anos de maior estabilidade. Quando o futebol começou a ficar muito mais negócio, com donos de clubes, a parte do clube em si, tradicional, está cada vez se perdendo mais. Se não tem resultados imediatos, muda treinador como quem muda uma roda de um carro. O mercado também está saturado, tem muitos treinadores. Acho que está evoluindo para isso continuar.