A Santa Sé anunciou nesta sexta-feira (30) o adiamento da visita oficial dos bispos da Nicarágua ao Vaticano, alegando a falta de condições apropriadas para a realização do encontro. O bispo Carlos Enrique Herrera Gutiérrez, presidente da Conferência Episcopal do país e atualmente exilado, confirmou que a medida visa proteger os clérigos diante da forte perseguição da ditadura de Daniel Ortega.
A decisão foi tomada porque a Santa Sé identificou que não existem condições apropriadas para que os bispos realizem a chamada visita 'ad limina'. O principal motivo é o clima de repressão imposto pelo governo de Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo.
Existe um temor real de que, caso os bispos que ainda permanecem em solo nicaraguense saiam para o encontro em Roma, eles sejam impedidos pela ditadura de retornar ao país, agravando ainda mais a crise religiosa local e deixando as dioceses sem o acompanhamento de seus pastores oficiais.
A expressão 'ad limina apostolorum' significa 'ao limiar dos apóstolos'. Trata-se de uma obrigação dos bispos de todo o mundo, que devem viajar ao Vaticano a cada cinco anos.
Durante essa estadia, eles se reúnem com diversos departamentos administrativos da Igreja, chamados de dicastérios, para apresentar relatórios detalhados sobre a situação social e religiosa de suas dioceses. O ponto alto da agenda é uma audiência privada com o papa, servindo como um momento de prestação de contas e de fortalecimento da unidade entre a liderança global e as igrejas locais.
A estrutura da Igreja no país está severamente debilitada pela perseguição política. Dos nove bispos ativos, quatro já vivem no exílio por pressão do regime, incluindo o presidente da Conferência Episcopal, dom Carlos Herrera, expulso recentemente.
Além disso, a ditadura proibiu a ordenação de novos padres e diáconos em várias regiões, como Matagalpa e Estelí. O bispo emérito Abelardo Mata, de 80 anos, é o caso mais recente de cerceamento, estando confinado em sua residência e sob vigilância após realizar orações públicas pela liberdade religiosa.
O controle da ditadura chega ao ponto de proibir que os nomes dos bispos que foram forçados a sair do país sejam mencionados publicamente ou em celebrações. Segundo especialistas que monitoram ataques contra a Igreja, a relação entre o Estado e a instituição atravessa seu pior momento, o que torna qualquer movimentação diplomática um risco.
A última vez que os bispos nicaraguenses conseguiram realizar a visita oficial completa ao Papa foi em 2017, evidenciando como o cerco autoritário tem isolado a comunidade católica nicaraguense do restante do mundo. Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo.
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