'Sandálias da humildade': o que pensam os jovens de esquerda eleitos ao Congresso, que Lula quer na campanha

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Bem votados em seus estados para a Câmara dos Deputados, jovens de partidos de esquerda criticam a estratégia de comunicação usada pelo PT para buscar a reeleição do presidente Lula e propõem ajustes para o segundo turno. Eleitos pelo próprio PT e pelo PSOL, o grupo pede uma “virada de chave” na campanha, que passa pela ampliação do uso da linguagem das redes sociais e pela diminuição do enfoque no passado dado até agora pelas peças publicitárias, substituindo-o pela discussão sobre o futuro que os eleitores desejam para o país. Segundo turno: Lula se cerca de petistas bem votados no Nordeste após Edinho ser criticado por rumos da campanha E mais: Petista adota estratégia para aumentar rejeição a Flávio e diz que adversário fará 'tesouraço’ em programa sociais A necessidade de mudança no tom da campanha foi expressa pela estudante de Direito e influenciadora Ana Elisa (PT-MG), eleita no domingo como a mulher mais jovem e mais votada da história de Minas Gerais para a Câmara. Ela terminou a eleição em segundo lugar, atrás somente de Nikolas Ferreira (PL-MG), que concorreu à reeleição. Aos 21 anos, a mineira cresceu on-line com vídeos sobre política, contrários a parlamentares bolsonaristas, e também investiu em conteúdos sobre feminismo, racismo e políticas sociais. Após a vitória nas urnas no final de semana, ela viralizou com uma crítica à atuação de apoiadores de Lula. — Eu gostaria de deixar realmente um apelo para toda a esquerda. É o momento de nós deixarmos realmente a ignorância de lado, calçarmos a sandália da humildade e entendermos que, com a rede social, a gente precisa sim aprender — disse em um vídeo publicado em seus perfis no Instagram e no TikTok. — É preciso entender que não existe mais separação entre as redes e as ruas. O diagnóstico a levou a ser convidada para uma reunião hoje com Lula para a discussão de estratégias digitais. Em Brasília desde ontem, ela apareceu ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) em um post. “A Ana Elisa chegou. A onça vai beber água. Bora Lula”, escreveu ele na legenda. De Recife, o historiador Jones Manoel (PSOL), 36 anos, também conta que tem conversado com integrantes da coordenação da campanha de Lula para a discussão sobre o que pode ser feito para a mobilização digital. Segundo deputado federal mais votado em seu estado, ele considera que a comunicação digital petista precisa se tornar “mais ágil” e aprender a se “conectar mais com público urbano das grandes cidades”. O influenciador argumenta que os motes escolhidos para a campanha não têm gerado conexão com a maior parte da população. — A ideia de defesa da democracia tem pouca ressonância na classe trabalhadora e na consciência popular, considerando que a maioria do nosso povo vive numa situação de salário baixo, desemprego, precariedade, falta de serviços públicos, violência estatal e ameaçado pelo crime organizado — diz Jones. Dialogar com a realidade A mesma abordagem é defendida por Ana Júlia Ribeiro (PT), 26 anos, a mulher mais votada para a Câmara pelo Paraná, após quatro anos na Assembleia Legislativa. Ela considera que a campanha presidencial deu pouca ênfase à discussão sobre o futuro esperado, especialmente pelos eleitores mais novos. — O jovem hoje não tem mais perspectiva de casa própria, de mercado de trabalho, de emprego, de lazer. A gente precisa conseguir dialogar com essa realidade material das pessoas, precisamos mostrar esse Lula que conversa, que escuta, que entende a realidade do povo e que quer transformá-la. A questão é que nós temos a verdade do nosso lado, mas nós precisamos expô-la melhor — afirma. Eleito para a Câmara pelo PSOL em São Paulo, Guilherme Cortez, por sua vez, considera que um dos principais “erros” foi a aposta em uma campanha focada no passado. Apesar de considerar importante a ênfase na história de Lula, o jovem argumenta que “não basta só falar das conquistas do governo”, mas também dialogar com “o sentimento de desconfiança da população sobre o futuro”. Ele diz que pretende ajudar com a produção de conteúdos e com a mobilização de influenciadores digitais, focando nos mais jovens, que compõem o seu eleitorado. — Candidatos mais bem votados nesta eleição, tanto da esquerda quanto da direita, foram os que têm atuação forte nas redes sociais e desbancaram políticos veteranos. Isso só mostra que as pessoas se informam, consomem, discutem política, sobretudo pela rede, e isso transborda para a vida real. A direita entendeu isso faz tempo, a esquerda demorou — disse Cortez. Pelas redes, a nova leva de parlamentares de esquerda tem buscado bater de frente com a direita bolsonarista, que domina a linguagem digital há mais tempo, e diverge da comunicação considerada mais “analógica” do governo. — Eles buscam fazer o uso da linguagem das plataformas digitais para trazer um equilíbrio ou fazer uma afronta à forma como os jovens da direita têm usado as redes com sucesso. Há uma certa espontaneidade nisso, que contrasta com a comunicação do governo, que parece estar presa aos velhos meios de comunicação do século passado — diz Paulo Nicolli Ramirez, cientista político e professor da ESPM. A comparação com a forma de se comunicar da oposição também é feita por Pedro Rousseff (PT), sobrinho da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e eleito deputado federal por Minas no final de semana. Com Ana Elisa, ele pretende participar do encontro com Lula hoje e propor um “cavalo de pau de 180° na estratégia de comunicação”. Rousseff argumenta que a população não está interessada nos programas sociais criados, tratados até agora como prioridade nas peças publicitárias, por ter “memória curta”, e sugere que o grupo político passe a explorar os desejos de mudança e de melhora.

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