Samba-enredo para todos: intérpretes de Libras e audiodescrição na Sapucaí

 

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No setor 13 da Marquês de Sapucaí, adaptado e acessível, a intérprete de Libras Adriana Lopes atua em dupla com outro profissional da empresa All Dub Estúdio — Natan Santos Da Conceição — na tarefa de traduzir os sambas-enredos para o público surdo que vai curtir os desfiles. A peculiaridade das letras pede preparo antecipado.

— Fazemos um estudo prévio, já que não conhecemos todos os termos. Mesmo as palavras de matrizes africanas e origem iorubá têm um sinal específico ou correspondente — explica Adriana, detalhando outra especificidade dos sambas-enredo: — São mais rápidos. É diferente de quando atuamos num show de pagode, por exemplo. Sem contar que não é todo intérprete de libras que se encaixa nesse perfil, já que, além dos sinais com as mãos, tem toda uma expressão corporal. Nos revezamos de 20 em 20 minutos, o trabalho exige esforço físico e mental, e conversamos para definir os sinais.

Entre os sambas mais complexos para traduzir este ano, ela aponta: Beija-Flor, pelos termos sagrados do candomblé, que não podem ser traduzidos ao pé da letra e pedem muito cuidado cultural; Mangueira, pois mistura ancestralidade, espiritualidade e natureza, com um tempo que não é linear; Unidos da Tijuca, pela dificuldade em mostrar a dor e a subjetividade do texto; e Acadêmicos de Niterói, que tem muita história e política condensada em poucos versos.

Adriana Lopes: intérprete de Libras apresenta os desfiles no setor 13 do Sambódromo

Divulgação

Adriana, que atua na Marquês de Sapucaí pelo segundo ano, relata que a demanda do público é grande, e a empolgação com o espetáculo realizado pelas escolas é nítida.

— Há uma ideia de que surdos não gostam de música, o que não é verdade, pois eles sentem a vibração e querem entender. Quando a gente traz o sentido daquilo por meio dos sinais, eles fazem as conexões. Como a letra do samba se repete durante o desfile, chega um momento em que eles acabam reproduzindo e é como se estivessem todos cantando com a gente — conta a intérprete, que é servidora do Instituto Nacional de Educação de Surdos e filha de pais surdos: — Meus pais se tornaram surdos na infância, um por meningite e outro por acidente envolvendo bomba. Filhos de pais surdos acabam se tornando intérpretes por natureza. Mas hoje, além de ser do Instituto, o que dá orgulho ao meu pai, que foi aluno de lá, eu dou aula de libras na Uerj. Não trocaria minha profissão por qualquer outra.

Audiodescrição

No mesmo setor 13, o público cego pode contar com o serviço de audiodescrição. Ana Motta, CEO da All Dub, já faz esse trabalho há oito anos durante os desfiles e lembra de situações curiosas que enfrentou.

— A gente descreve tudo o que está acontecendo. Num carro alegórico em que todas as mulheres estavam com os seios de fora, falamos isso. Alguém bateu na nossa cabine e perguntou: “Dá para descrever como são os peitos?” — lembra ela, com bom humor.

Como o setor 13 está localizado já no final da Passarela do Samba, muitas vezes as escolas passam pelo local preocupadas com o tempo de desfile:

— Se a escola está atrasada, a gente narra isso, e os cegos chegam a se desesperar. Como os componentes passam por ali com alguma rapidez, é muito importante a gente explicar o enredo da escola antes de ela chegar. Falamos tudo antecipadamente. Porque quando a agremiação está ali na frente, precisamos falar rápido. Somos dois audiodescritores, como dois comentaristas conversando simultaneamente — detalha Ana.

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