Saiba quem é Alessandro Carracena, advogado que foi do primeiro escalão no Estado à prisão

 

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Preso desde setembro de 2025, acusado de avisar traficantes do Complexo do Alemão sobre operações policiais, o advogado Alessandro Pitombeira Carracena — ex-secretário estadual de Esportes e Lazer e ex-subsecretário estadual de Defesa do Consumidor — também é suspeito de ter atuado para retardar a extradição de um traficante internacional. A informação consta no inquérito da Polícia Federal que baseia as três fases da Operação Anomalia: na primeira, deflagrada segunda-feira, ele foi alvo de novo mandado de prisão. Carracena teria se reunido em Brasília, em novembro de 2023, com o ex-presidente da Alerj e atual secretário de Assuntos Parlamentares da Presidência, Andre Ceciliano (PT), para discutir o processo, segundo mensagens que trocou na época com interessados no caso.

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Ceciliano nega que o encontro tenha ocorrido.

— Eu sequer conheço essa pessoa. O que ocorre nesses casos é venda de prestígio, em que alguém diz que conhece outra pessoa — disse.

Na época, Carracena ocupava o cargo de subsecretário de Defesa do Consumidor. De fato, o prosseguimento da extradição do holandês Gerel Lusiano Palm não avançou. Procurado pela Interpol por tráfico e tentativa de homicídio, ele está preso no Brasil desde 2021.

Propina de R$ 150 mil

Ainda segundo o relatório, Carracena teria recebido R$ 120 mil da advogada do holandês, Patrícia Carvalho Falcão, para interferir no processo — outras duas pessoas teriam sido recompensadas com R$ 15 mil, cada uma, por participação na trama. Uma delas foi o delegado federal Fabrizio José Romano, preso, assim como a defensora, por agentes da corporação na última segunda-feira.

O inquérito informa que a pessoa a ficar com os outros R$ 15 mil foi o ex-policial penal e ex-subdiretor-geral de Informática da Alerj Luciano de Lima Fagundes Pinheiro, o Bonitão. A ele coube, de acordo com as investigações, intermediar os contatos entre a advogada e Carracena. Nomeado para o cargo na Casa por Ceciliano, então presidente da Alerj, Luciano ficou pouco mais de um ano no posto — saiu em março de 2019. Ele foi exonerado após a publicação de uma reportagem mostrando que o ex-agente penitenciário tinha sido condenado por tráfico e posse ilegal de arma.

Antes, em 2014, Luciano — que hoje está foragido — havia sido preso pela PF, numa operação paralela a uma ocupação militar do Complexo da Maré. Na época, Luciano foi acusado de intermediar contatos entre o então chefe do tráfico da Maré, Marcelo Santos das Dores, o Menor P, e Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, que liderava o tráfico na favela da Zona Sul.

Ceciliano disse ontem que Luciano foi nomeado para o cargo a pedido do ex-deputado estadual André Lazzaroni, que não foi localizado pela reportagem.

Segundo a investigação, o delegado Romano e Carracena continuaram a manter contato depois da suposta reunião em Brasília. Em dezembro de 2023, Fabrizio enviou para Carracena dados pessoais da própria esposa e da cunhada de Luciano, o que a PF entendeu como uma tentativa de indicá-las para cargos públicos. Meses depois, a mulher do delegado foi nomeada para um cargo comissionado em Caxias, e a cunhada de Luciano, para outro posto de confiança na Secretaria estadual de Saúde.

Conversa com traficante

O relatório da PF afirma ainda que Carracena tem ligações com o Comando Vermelho: atua como “braço político” do ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias, também preso por ligação com o tráfico. Em conversa interceptada em 29 de janeiro de 2024, o traficante Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, teria pedido a TH Jóias para “tirar o Choque da Gardênia e tentar fazer botar PM normal”. Na época, o Batalhão de Choque chegou a iniciar a construção de uma cabine de segurança na Gardênia Azul.

Em seguida, TH enviou a Índio um print de uma ligação de 7 minutos e 5 segundos para um contato salvo como “Carracena Secretário de Governo”. O interlocutor respondeu que falaria com o comandante-geral para ver “o que pode ser feito”. Dias depois, o Choque deixou o local, e a responsabilidade pelo policiamento da área voltou a ser do 18º BPM (Jacarepaguá).

Os advogados de Carracena e do delegado Romano disseram que não iriam comentar o caso porque ainda não tiveram acesso aos autos. As defesas dos demais citados, por sua vez, não foram localizadas pelo GLOBO.