Saiba o que é o cavado, fenômeno climático que impulsionou chuvas recordes em Juiz de Fora
As intensas chuvas que bateram recorde em Juiz de Fora, em Minas Gerais, e resultaram em pelo menos 16 mortes na cidade, foram causadas pelo excesso de umidade e de calor, cenário típico do verão, e impulsionadas por um "cavado", fenômeno climático que favorece a formação de nuvens carregadas e temporais. Meteorologistas explicaram que, de acordo com a previsão, a pior parte já passou, mas que até o final da semana ainda há mais possibilidade de chuva em Minas e em quase todo o Sudeste.
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Esse mês já se tornou o fevereiro mais chuvoso da história de Juiz de Fora, segundo a Defesa Civil municipal. Até as 10h desta segunda-feira (23), foram registrados 460,4 milímetros de chuva na cidade, 270% a mais que o previsto (170,3 mm). O recorde anterior era de fevereiro de 1988, quando o acumulado atingiu 456 milímetros. A Defesa Civil também bateu recorde de atendimentos: 432, contra 352 em 1988.
Segundo os meteorologistas, não há um fenômeno anormal para o período, mas o recorde ilustra o fato de os extremos climáticos estarem cada vez mais frequentes em todo o planeta. A tempestade de agora foi considerada, em termos técnicos, uma chuva típica de verão, em meio a dias de muito calor e umidade. Mas uma situação, que também não é rara durante o verão e a primavera, favoreceu o temporal: um cavado na região de Juiz de Fora.
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Divulgação
O que é o cavado
Cavado é uma é uma região alongada de baixa pressão, geralmente em médios níveis da atmosfera, que favorece a subida do ar e a formação de nuvens e tempestades. É como se fosse uma área onde o ar está 'mais leve' e em altitudes elevadas, o que cria um efeito de sucção, puxando a umidade do solo para o alto. Em Minas, esse fenômeno ajudou a criar uma fábrica de nuvens, mantendo o tempo instável e propenso a chuvas constantes, mesmo sem a chegada de uma frente fria, explicam os meteorologistas.
— Foi uma tempestade de caráter mais isolado que despejou uma quantidade absurda de chuva em Juiz de Fora, similar ao que aconteceu na Baixada Fluminense. Grande parte do Sudeste está com um aporte de umidade muito grande, e com o calor durante o dia, essas instabilidades crescem acentuadamente durante a tarde e a noite — explica Wanderson Luiz Silva, meteorologista da UFRJ, que credita o recorde de chuva às mudanças climáticas. — Os extremos estão cava vez mais frequentes. Temos um cavado na altura de Minas que ajuda a propiciar essas tempestades típicas de verão.
Toda frente fria tem um cavado, mas nem todo cavado é uma frente fria. Por isso, a tempestade foi considerada isolada. No entanto, nos próximos dias, a frente fria pode vir a se formar, junto com a possibilidade de uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), principalmente entre norte de Minas, Bahia e Espírito Santo.
Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas, diz que, além do cavado, houve outras influências para a chuva.
— Cavado é o principal sistema, mas há outros sistemas que combinam para fornecer mais umidade, por exemplo a Alta da Bolívia (anticiclone que atua na América do Sul no Verão) e o Anticiclone Subtropical do Atlântico Sul (ASAS). O pior já passou, mas pode ser que a ZCAS se forme nos próximos dias, e aí pode levar mais chuvas ao município — explica Barbosa.
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Arquivo pessoal
Mais chuvas no Sudeste, Sul e Centro-Oeste
Andrea Ramos, meteorologista da Defesa Civil do Rio Grande do Sul, destaca ainda a contribuição do corredor de umidade da Amazônia, e diz que as regiões Sudeste e Centro-Oeste devem ter chuvas relevantes nessa semana.
— Você já tem a influência da frente que alongou o sistema de baixa pressão e proporcionou esse cavado, e você tem a convergência de umidade que vem da Amazônia. Então, essa situação pode intensificar as chuvas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste — afirmou Andrea. -- Verão é o período de chuvas com volumes mais significativos, então tem tendência de formar e alongar esses centros de baixa pressão, o que dá origem a esses cavados. Quando tem calor, potencializa a formação de nuvens de tempestades e tem como consequência esse transtorno todo que está sendo vivenciado
No Rio Grande do Sul, já há previsão de uma frente-fria hoje, explica Andrea. Mas a intensidade das chuvas vai depender da formação, ou não, das ZCAS.
Alerta do Inmet
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu nesta terça um aviso de “Grande Perigo” para acumulado de chuva que atinge 607 cidades do Sudeste, Sul e Nordeste do país. O alerta começou às 9h45 desta terça-feira e permanece em vigor até as 23h59 da próxima sexta-feira, dia 27. As áreas afetadas incluem:
Zona da Mata (MG)
Vale do Rio Doce (MG)
Central do ES
Noroeste do ES
Oeste de MG
Sul/Sudoeste de MG
Sul do ES
Campo das Vertentes (MG)
Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG)
Sul Fluminense (RJ)
Vale do Paraíba (SP e RJ)
Noroeste Fluminense (RJ)
Litoral Norte do ES
Baixadas (SP e RJ)
Centro Fluminense (RJ)
Vale do Mucuri (MG)
Litoral Sul de SP
Região Metropolitana do RJ
Região Metropolitana de SP
Norte Fluminense (RJ)
Sul da BA
Região Metropolitana de Curitiba (PR)
O Inmet orienta que a população desligue aparelhos elétricos e o quadro geral de energia, observe alterações em encostas e permaneça em local abrigado. Em caso de inundação, a recomendação é proteger os pertences da água, envolvendo-os em sacos plásticos.
Para mais informações ou em situações de emergência, o órgão indica contato com a Defesa Civil, pelo telefone 199, e com o Corpo de Bombeiros, pelo 193.
