Saiba como a escolha das cores na roupa se relaciona com comportamento e a imagem pessoal

 

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A moda é frequentemente percebida como uma escolha estética, mas também pode ser analisada a partir de aspectos comportamentais e psicológicos. A relação entre cores, autoconfiança e comportamento vem sendo estudada pela psicologia há anos, indicando que decisões aparentemente simples, como a escolha de uma peça de roupa ou de um acessório, podem se relacionar a estados internos, padrões de proteção e formas de expressão subjetiva.

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Para o stylist Diego Romero, antes da marca, do corte ou do preço, a cor se destaca como primeiro elemento de leitura. "Ela não pede permissão. Ela expõe. E, quase sempre, revela mais sobre autoestima do que qualquer discurso", afirma.

Na mesma linha, a a Cintia Castro observa que moda e cor funcionam como uma linguagem não verbal, capaz de expressar conteúdos psíquicos nem sempre conscientes.

"Porque, sabemos que o que não é simbolizado, encontra outras formas de expressão. E o corpo, junto com tudo que o envolve torna-se um desses canais. A roupa é, muitas vezes, uma tentativa de organização interna. Um contorno. Um modo de sustentar algo que, por dentro, ainda não encontrou forma. Vestir-se todos os dias é, de certa forma, reeditar uma narrativa interna...às vezes de proteção, às vezes de afirmação, às vezes de defesa", explica.

Segundo Diego, determinadas cores operam como sinais de presença e intenção. Vermelho, dourado, branco e azul profundo, por exemplo, não se limitam à estética. "Elas projetam presença, controle e valor. O vermelho impõe. O dourado legitima. O branco organiza. O azul sustenta. São atalhos visuais para estados internos que, muitas vezes, ainda estão em construção", diz o stylist.

Cintia concorda e amplia essa leitura ao apontar que cores mais intensas podem funcionar como suportes simbólicos. "Cores potentes podem funcionar como espécies de apoios simbólicos. Como se a pessoa ao vestir determinada cor pudesse antecipar uma sensação que ainda não está totalmente consolidada por dentro. Como quem veste coragem antes de senti-la por completo", destaca.

No outro extremo, o uso frequente de tons neutros também pode carregar significados para além da estética. Para Romero, essa escolha nem sempre está restrita ao campo visual. "O uso contínuo de cinza, bege apagado e paletas excessivamente neutras pode não ser apenas uma escolha estética, pode ser um comportamento. Uma tentativa de passar sem ser notado. De não ser questionado. De não ocupar espaço", observa.

Cintia acrescenta que, em alguns casos, esse movimento pode estar relacionado a experiências anteriores de exposição: "E, muitas vezes, essa escolha não nasce da simplicidade... nasce da história. De experiências em que aparecer teve um custo. Em que ser visto significou ser julgado, criticado ou até rejeitado. Então, a pessoa aprende a se proteger diminuindo sua presença."

Por que as cores da roupa podem revelar estados emocionais

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Entre os extremos, o preto ocupa um lugar particular no imaginário da moda e também de interpretações simbólicas. Diego enfatiza que a cor pode assumir funções distintas a depender da intenção de quem a usa.

"O preto é poder quando existe intenção. É elegância quando existe construção. Mas, quando se torna padrão automático, pode deixar de ser estilo e passar a ser proteção. O preto, em excesso, não comunica força. Comunica defesa. Ele distancia. Ele silencia. Ele esconde", pontua.

Para ele, a questão não está na cor em si, mas na forma como ela é incorporada ao repertório pessoal: "Dosar o preto não é abandoná-lo. É sofisticá-lo. Textura, corte e contraste transformam o preto em presença. Ausência de variação o transforma em armadura."

A terapeuta integrativa e astróloga Fernanda Palhares acrescenta uma leitura energética ao tema. Segundo ela, o preto pode funcionar como uma forma de proteção em determinadas situações.

"Sempre sugiro às pessoas que usem preto quando estão em evidência, dando uma palestra ou em uma entrevista de emprego, por exemplo. Em ambientes com energia mais pesada, competitiva ou desconhecida, o preto acaba sendo uma escolha consciente e boa. Existem momentos em que nosso campo energético pede cores específicas", diz.

Fernanda também frisa que outras cores podem estar associadas a estados internos específicos: "Aliás, o vermelho é a cor do chakra raiz e se estamos em um momento muito racional, traz o aterramento e a autoconfiança. Quando temos necessidade da cor cinza é porque estamos precisando de pausa e descanso. Costumo dizer que usamos essa combinação quando queremos passar despercebidos ou para ficarmos neutros em determinadas situações. De todas as cores, o preto energeticamente falando, é a cor mais segura e eficiente."

Cintia pondera, no entanto, que existe uma diferença entre usar o preto como escolha e se apoiar exclusivamente nele como forma de invisibilidade. Para a psicanalista, o ato de se expor envolve sempre algum grau de risco. "Porque ser visto não é simples, implica risco, a possibilidade de não corresponder, de não agradar, de não sustentar a imagem que se imagina que o outro espera", explica.

"Mas há um ponto essencial: não se trata de abandonar o preto, e sim de se reposicionar diante dele. E isso é o que mais importa: quando aquilo que parecia estilo se torna padrão... quando o que parecia elegância começa, silenciosamente, a funcionar como proteção", completa a especialista.

Ao final, Romero resume a discussão a uma relação mais ampla entre vestimenta e posicionamento subjetivo. "Nenhuma cor cria autoestima. Mas todas revelam como você está se posicionando no mundo. E talvez a pergunta mais desconfortável e necessária seja: você está se vestindo para ser visto… ou para não ser percebido? A moda nunca foi sobre roupa. Sempre foi sobre o que você tem coragem de mostrar", conclui.