O Brasil deve colher 367,1 milhões de toneladas de grãos na safra 2026/27, aponta o primeiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab. O volume é recorde e supera em 1,4% a temporada anterior.
Nem todas as lavouras entram nessa conta. A produção de arroz recua 2,9% e chega a 10,8 milhões de toneladas.
O feijão fica 0,7% abaixo do ciclo passado. Os dois alimentos formam a base do prato popular.
Enquanto milho e soja puxam o recorde, o abastecimento interno dá o primeiro sinal de alerta. O arroz e o feijão pesam no orçamento da família de baixa renda.
Uma alta na prateleira aparece rápido nesse grupo. O consumo dos dois grãos não desaparece em ano ruim.
A família segue comprando arroz e feijão toda semana, com ou sem safra cheia. O crescimento da safra vem da área plantada, não do ganho por hectare.
O país deve semear 85,4 milhões de hectares, alta de 2,3%. A produtividade média nacional recua 0,9%.
Produzir mais com a mesma eficiência significa depender de mais terra, mais insumo e mais crédito. O milho sustenta a expansão, com mais de 148 milhões de toneladas e alta de 2,4%.
Na análise da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo, a Faesp, o cereal responde por 71,7% de todo o incremento da safra. A demanda da indústria de etanol de milho e a exportação explicam o interesse do produtor.
O milho deixou de ser apenas ração. As usinas de etanol de milho, concentradas no Centro-Oeste, transformaram o cereal em matéria-prima energética.
Boa parte do milho brasileiro sai da segunda safra, plantada depois da soja na mesma área. O calendário apertado deixa o cereal exposto ao clima do cerrado.
A soja, maior produto da pauta, tem estimativa de 181,6 milhões de toneladas. O avanço é de 0,7% sobre a safra anterior.
A área de soja chega a 49,3 milhões de hectares, quase três quintos de toda a superfície plantada com grãos. Soja e milho seguem para o porto e sustentam boa parte das divisas do agronegócio.
O arroz e o feijão ficam no país. A Faesp aponta clima adverso e problemas fitossanitários nas regiões produtoras.
O impacto recai justamente sobre as lavouras que abastecem a mesa do brasileiro. O feijão tem ciclo curto e sente rápido o efeito do clima.
Uma estiagem ou um fungo derruba a lavoura em poucas semanas. O arroz irrigado precisa de água em boa parte do ciclo.
A disponibilidade hídrica pesa direto no rendimento da lavoura. O Rio Grande do Sul concentra a maior parte do arroz colhido no país.
Uma quebra no principal estado produtor costuma chegar ao preço da saca e à prateleira. Em anos de safra menor, o país recorre ao arroz importado para completar o abastecimento.
A conta sai em dólar. Em São Paulo, a Faesp projeta 12,43 milhões de toneladas de grãos, alta de 1,2%.
A área cresce 3,5%, mas a produtividade estadual cai 2,2%. O padrão paulista repete o nacional, mais terra e menos rendimento por hectare.
O milho paulista cresce 4,9% na produção, com área 7,8% maior. A soja do estado avança só 0,3%, mesmo com mais área semeada.
O recorde de volume não garante renda no campo. Custo de produção, preço de venda e clima definem o resultado financeiro do produtor.
A expansão de área sem ganho de produtividade encarece a safra. Cada hectare novo exige mais fertilizante, mais diesel e mais crédito bancário.
Os estoques públicos operados pela Conab são o instrumento clássico para segurar o preço em ano de safra menor. A companhia também acompanha as lavouras toda semana.
O segundo levantamento nacional da safra 2026/27 está marcado para sexta-feira, 13 de novembro. A Conab revisa as estimativas a cada rodada, e um número menor em novembro muda o tamanho do problema no abastecimento.
As projeções ainda dependem do clima até a colheita. Uma lavoura estimada em outubro pode mudar de tamanho até o fim do ciclo.
Um país que colhe mais de 360 milhões de toneladas de grãos e reduz a lavoura do arroz com feijão mede a segurança alimentar pelo que exporta, não pelo que come. A conta do milho e da soja fecha no porto.
O prato do brasileiro depende de outra lavoura. O levantamento de 13 de novembro vai mostrar se o recuo do arroz e do feijão para no primeiro número.
Até lá, o recorde dos grãos serve à balança comercial, não à mesa do brasileiro.
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