'Safári humano': Áustria investiga dois suspeitos por pagarem para matar civis durante guerra da Bósnia

 

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As autoridades da Áustria abriram uma investigação formal contra dois suspeitos ligados às denúncias dos chamados “safáris humanos” durante o cerco de Sarajevo, um dos episódios mais brutais da Guerra da Bósnia nos anos 1990.

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Segundo o Ministério da Justiça austríaco, um cidadão austríaco e um segundo indivíduo ainda não identificado passaram oficialmente a ser investigados por possível participação nos supostos “tours de franco-atiradores” realizados durante o conflito.

Segundo o jornal inglês The Sun, as acusações envolvem alegações de que turistas ricos estrangeiros teriam pago combatentes sérvios para atirar deliberadamente contra civis nas ruas de Sarajevo durante o longo cerco imposto à cidade entre 1992 e 1996.

O Ministério da Justiça confirmou que a investigação foi aberta em 25 de abril e classificou o caso como relacionado a possíveis crimes de guerra extremamente graves. A iniciativa foi impulsionada pela ex-ministra da Justiça austríaca Alma Zadic, do Partido Verde, que vem pressionando por aprofundamento das apurações.

— Essas alegações dizem respeito aos mais graves crimes de guerra e devem ser investigadas minuciosamente. Não pode haver espaço para impunidade — afirmou Zadic ao Parlamento austríaco.

Segundo ela, a ideia de estrangeiros pagando para matar civis — incluindo mulheres grávidas e crianças — representa “uma crueldade quase inimaginável”.

Acusações ganharam força após documentário

As denúncias sobre os chamados “safáris humanos” ganharam projeção internacional em 2022, após o lançamento do documentário “Sarajevo Safari”, do cineasta esloveno Miran Zupanic.

O filme reuniu depoimentos de testemunhas e ex-integrantes de serviços de inteligência que alegam ter visto estrangeiros ricos participando de operações de tiros contra civis durante o conflito nos Bálcãs.

Segundo relatos, os participantes seriam oriundos de países como Reino Unido, França, Alemanha, Espanha, Rússia, Canadá e Estados Unidos.

Listas de preços para matar civis

As acusações mais chocantes envolvem supostas “listas de preços” utilizadas pelos grupos armados. Segundo documentos e relatos citados pelo jornal The Times e pelo livro “Pay and Shoot”, do jornalista croata Domagoj Margetic, diferentes valores eram cobrados conforme o perfil das vítimas.

Homens e mulheres adultos teriam custado cerca de 80 mil marcos alemães da época. Mulheres jovens valeriam mais. Já mulheres grávidas seriam consideradas “alvos premium”, chegando a 110 mil marcos. Há ainda testemunhos afirmando que crianças também eram deliberadamente escolhidas como alvos.

A Itália já havia aberto investigação semelhante no ano passado. Promotores italianos chegaram a interrogar um ex-caminhoneiro de 80 anos e outro suspeito em fevereiro.

O caso também voltou aos holofotes após a divulgação de imagens antigas que supostamente mostrariam o presidente sérvio Aleksandar Vucic segurando um rifle em posições estratégicas durante o cerco.

Vučić enfrenta acusações recorrentes sobre possível envolvimento em atos de violência durante a guerra, embora negue participação em crimes.

O cerco de Sarajevo durou quase quatro anos e é considerado o mais longo da guerra moderna. Durante o conflito, mais de 10 mil pessoas morreram em consequência de bombardeios e ataques de franco-atiradores realizados contra civis na capital da Bósnia e Herzegovina.A principal avenida da cidade ficou conhecida mundialmente como “Sniper Alley” (“Alameda dos Atiradores”), devido à frequência dos ataques.