O ex-ministro da Fazenda e candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), estreou como entrevistado de uma série de sabatinas do GLOBO, CBN e Valor na manhã desta quarta-feira (19), em São Paulo.
ulante defendeu a continuidade das investigações contra Fábio Luís, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sem interferências indevidas.
Afirmou que o candidato à presidência Flávio Bolsonaro é um "grave risco institucional".
E disse que vai passar um “pente fino” em todos os contratos de privatização, mas não se comprometeu com a reestatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).
A entrevista foi conduzida por Vera Magalhães, colunista de O Globo, Marcello Corrêa, editor de Política do Valor, e Guilherme Muniz, apresentador do matinal CBN São Paulo.
Nesta quinta-feira (20), será a vez do governador de São Paulo e candidato à reeleição Tarcísio de Freitas (Republicanos), no mesmo horário.
Os convites foram baseados no desempenho dos candidatos na pesquisa Quaest divulgada em 29 de julho.
Caso Lulinha: ‘passar a régua’
Haddad defendeu a continuidade das investigações da Polícia Federal (PF) contra um dos filhos de Lula, Fábio Luís, o Lulinha, que estaria envolvido com uma lobista no caso das fraudes nas aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O candidato disse que o PT, "como toda agremiação", dificilmente consegue se "blindar da ação deletéria de pessoas interessadas em obter vantagens com o serviço público".
— Por exemplo, no caso do Banco Master, tentaram colar o caso Master no governo Lula.
A gente teve quatro ministros do Bolsonaro recebendo dinheiro do Vorcaro, o Flávio Bolsonaro — rebateu Haddad.
— Então, eu sou a favor de passar a régua em quem quer que seja.
A pessoa errou? Não quero saber o partido, a religião, ela paga.
Eu respeito o governo Lula porque eu nunca vi o presidente mexer um dedo por quem quer que seja, pode ser amigo ou parente.
O petista argumentou que a PF e o Ministério Público Federal (MPF) agem com "100% de liberdade sempre" e que Lula não irá "passar pano para ninguém".
Ao mesmo tempo, afirmou que as investigações precisam demonstrar se, de fato, Lulinha fez algo errado.
— Acho que tem que apurar se a pessoa fez ou não fez mesmo.
Uma coisa é você ter um amigo, outra coisa é você ter dado um passo e favorecido quem quer que seja.
Eu respondo por mim, pela minha mulher e pelos meus filhos.
Não tenho problema nenhum, se você achar alguma coisa que está fora de ordem, cumpra a lei e pronto.
Flávio: 'risco institucional’
O candidato comparou a disputa ao governo de São Paulo com Tarcísio a uma "luta de Davi contra Golias" e afirmou que o senador Flávio Bolsonaro representa "grave risco institucional" na eleição presidencial contra Lula (PT).
— O Brasil corre um grave risco institucional.
Não sei se todo mundo conhece o Flávio Bolsonaro como eu conheço, mas esse rapaz é um risco para o país do ponto de vista econômico, social e institucional.
Ele é um problema muito grande e não posso conceber a hipótese de ele assumir a presidência da República.
Então, estou num projeto nacional e estadual — disse.
Diferentemente do plano nacional, em que Flávio não conseguiu formar alianças contra Lula, Haddad enfrenta uma coligação ampla do outro lado com Tarcísio, a qual se refere como uma união entre "Centrão e bolsonarismo" pela defesa de um governo aquém do esperado.
O atual governador conta com partidos como PL, MDB, PSD, União Brasil e PP, enquanto o ex-ministro de Lula repete a coligação do padrinho em nível nacional, com PSB, PDT, PSOL e outras siglas de esquerda.
— Não sei se vou ter tempo, em 60 dias de campanha, de mostrar que a fila do SUS aumentou, que a educação caiu para 10º lugar e o que está acontecendo com a segurança, o crescimento da economia paulista vis a vis outros estados e a deterioração das finanças — enumerou o petista.
Sucateamento de delegacias e B.O 'por zap'
Durante a sabatina, Haddad criticou a política de segurança de seu oponente Tarcísio Republicanos, em especial a gestão das polícias Militar e Civil.
Além disso, reclamou da forma como o programa de câmeras nas fardas dos policiais civis foi executado.
Segundo ele, o sistema das bodycams tem custo irrisório diante dos benefícios para a proteção da população vulnerável e também dos policiais na atuação diária.
— O que custa não é nada comparado com as vidas que vai salvar.
Essas tecnologias estão sendo barateadas a todo tempo.
Vamos ter uma tecnologia comprovada e aprovada que funciona.
A letalidade policial subiu 80% no governo Tarcísio.
A morte de policial em serviço e fora dele, inclusive por suicídio, aumentou.
Tem que voltar com as câmeras, eu sou a favor disso desde 2022, e ele fica ziguezagueando — opinou.
Nas palavras do petista, o atual governador alterna suas posições sobre as câmeras "quando fica mal com a elite" ou "com as polícias".
Na eleição passada, Tarcísio chegou a defender a retirada dos equipamentos dos uniformes dos PMs, sob o argumento de que os equipamentos limitavam a ação das forças de segurança.
Durante o mandato, admitiu que "estava completamente errado" e defendeu o sistema de acionamento remoto pela preservação das baterias e registro mais eficiente de imagens.
Haddad reforçou na entrevista a intenção de criar uma "agência antifacção" no governo do estado, reunindo as polícias, órgãos federais e o Ministério Público.
A meta, segundo ele, é "torná-la perene" através de um projeto de lei na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), mas o gabinete pode ser criado rapidamente por uma opção do Executivo.
Ele também comentou outras propostas para a eleição deste ano, como o registro de boletins de ocorrência por meio de mensagens no WhatsApp, de modo a reduzir a taxa de subnotificação de alguns crimes, como roubo e furto de celulares.
Haddad apontou um sucateamento nas delegacias do estado, em mais um aceno aos policiais depois de questionar dados oficiais de segurança e relatar um possível caso de intimidação ao motorista, na semana passada.
— Você já entrou em uma delegacia ultimamente? Já viu quanto tempo leva para ligar um computador? Outro dia um conhecido foi a uma delegacia e demorou 50 minutos para começar a fazer o BO.
Os policiais civis são pessoas qualificadas, formadas, gente que está disposta a ajudar, mas eles estão sem nenhuma condição de investigar nada.
´Pente fino’ nos contratos de privatização
Haddad, disse que, caso eleito, irá passar a limpo os contratos de privatização feitos pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Apesar disso, não se comprometeu em reverter o processo de privatização da Sabesp, do qual costuma ser crítico.
— Já antecipo: reestatizar uma empresa recém-privatizada é um imbróglio jurídico medonho.
Vou sentar de boa-fé com a Sabesp e dizer: ‘do jeito que está, não pode ficar’ — disse, ao citar que a Sabesp é “campeã de reclamações no Procon por causa da qualidade do serviço e do aumento da conta de água.
No caso da concessão das linhas de trem da CPTM, Haddad defendeu a "leitura minuciosa" para reavaliar os contratos.
— Passar um pente fino nos contratos é obrigação de qualquer gestor.
E temos problemas nos pedágios free flow, que ele adiou a implantação.
Com a CPTM, nas linhas em que aconteceram acidentes quase fatais — concluiu.
O petista procurou se posicionar como um defensor das parcerias público-privadas, citando a sua participação na Lei das PPPs e com o ProUni, classificado por ele como "a maior da história desse país".
— Estou completamente aberto, mas venda de patrimônio, quando é estratégico, eu sou contra.
Acho que as privatizações do (governo de Jair) Bolsonaro, no que diz respeito à óleo e gás, são desesperadoras.
A privatização de refinarias, dos dutos de óleo e gás, da distribuição: um descalabro, um terror.
A privatização do gás do jeito que foi feita penalizou São Paulo, que tem um gás mais caro que o resto do país.
O Tarcísio era o cara da cozinha do Bolsonaro, ele não sabe?
‘FMI petista’ e taxa das blusinhas
Com sua gestão criticada por opositores, o ex-ministro da Fazenda defendeu a política fiscal que desenhou para o terceiro mandato do presidente Lula e rechaçou críticas ao PT como partido contrário à responsabilidade fiscal.
— Nós fizemos o terceiro maior ajuste nas contas do mundo, que foi reconhecido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) — afirmou, chamando para si a autoridade da instituição baluarte da austeridade fiscal no mundo — O FMI é petista?
Ao comentar sobre a “Taxa das Blusinhas”, apelido dado ao imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 , Haddad afirmou que a demanda partiu dos governadores.
Segundo ele, Lula se irritou por ficar com o ônus de um tema com o qual também discordava.
— Recebi os secretários de Fazenda do país inteiro reivindicando que, como eram os Correios que traziam as encomendas para o Brasil, que essas remessas não entrassem como se fossem um presente de uma pessoa para outra como acontecia.
Todos os secretários de Fazenda, inclusive o de São Paulo, pediram esse convênio, e a gente criou uma plataforma — disse.
