Às vésperas do verão no Hemisfério Norte, escassez de combustível preocupa companhias aéreas
Este verão no Hemisfério Norte promete ser um período de preços altos e incerteza em termos de viagens aéreas, principalmente para quem estiver planejando passar as férias na Europa: devido à guerra contra o Irã, a volatilidade dos preços do combustível está pressionando as companhias aéreas do mundo todo, mas talvez em nenhum outro lugar quanto no Velho Continente, onde os estoques podem se esgotar até meados de maio. Companhias aéreas como a Lufthansa e a KLM já anunciaram que vão reduzir o número de voos, e outras podem optar pela mesma saída; de fato, praticamente todas estão repassando os custos aos passageiros onde podem, aumentando as tarifas, cobrando mais pelas bagagens e acrescentando taxas; algumas estão apelando para os cancelamentos.
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Para o viajante, a perspectiva de férias de verão a preços razoáveis está cada vez mais distante.
– Há um nível de incerteza que não víamos desde a pandemia. Para quem pretendia viajar na alta temporada sem gastar muito, o ano está sendo bem complicado – previu Katy Nastro, especialista da Going.com, serviço por assinatura para rastrear voos baratos.
Redução da capacidade
As tarifas aéreas nos EUA, tanto nacionais quanto internacionais, vêm subindo desde o início da guerra, no fim de fevereiro, de acordo com uma análise de passagens da classe econômica feita pelo mecanismo de busca Kayak: em 13 de abril, uma viagem internacional custava, em média, US$ 1.064, (saía por US$ 776 em 23 de fevereiro) e a doméstica, US$ 358 (custava US$ 335 em 23 de fevereiro).
Os preços mundiais do combustível de aviação subiram mais de 70% desde a investida dos EUA e Israel contra o Irã, segundo o Índice de Preços da Platts – e uma vez que representa um dos maiores custos operacionais do setor, as aéreas norte-americanas preveem gastos extras de bilhões este ano. Pelo menos uma delas, a Spirit Airlines, já em processo de falência, solicitou auxílio financeiro ao governo.
Rob Britton, professor adjunto de gestão de crises na Universidade de Georgetown e ex-executivo da American Airlines, enfatizou que, mesmo depois que o conflito terminar, os valores do querosene e das tarifas vão levar meses para se estabilizar.
– Não vai ser da noite para o dia porque no momento o caos é total.
É verdade que os relatórios de resultados das companhias nacionais mostram que a demanda permanece estável, mas algumas afirmam que estão se preparando para uma queda gradual; outras vão reduzir as rotas até o fim do ano e já estão revendo o crescimento planejado para 2027, caso o combustível continue tão caro.
Andrew Nocella, diretor comercial da United, declarou em teleconferência sobre resultados de 22 de abril que a empresa subiu os preços "em toda a linha" cinco vezes desde o início da guerra e que optou por cancelar os voos de menor demanda, como os noturnos, e os de dias de menor movimento, como terça, quarta e sábado, reduzindo cinco por cento da capacidade até dezembro.
Segundo Mike Arnot, porta-voz da Cirium, empresa de análise da aviação, as companhias têm a opção de adotar diversas medidas, como reunir vários voos de baixa demanda em opções menos frequentes e mais lotadas. Os dados de sua empresa mostram que entre as aéreas norte-americanas, a capacidade caiu até 2% para a alta temporada em relação ao período anterior à guerra.
– Por enquanto, estão fazendo pequenos ajustes, principalmente nos voos regionais; isso significa que as rotas internacionais diretas não foram afetadas, mas aquelas com várias escalas para cidades pequenas e as reservas feitas com companhias diferentes podem se tornar um risco para o passageiro – explica Nastro.
A Europa como 'indicador de tendências'
As perspectivas para as norte-americanas são mais otimistas do que as das europeias e asiáticas, muito mais dependentes do petróleo do Oriente Médio, como afirmam os analistas, pois os EUA contam não só com reservas significativas de petróleo como infraestrutura de refino.
De acordo com um relatório do J.P. Morgan publicado esta semana, o abastecimento das empresas europeias está garantido até meados ou fim de maio. No entanto, é provável que a escassez e os preços altos levem a cortes de capacidade a partir de junho, começando pelas rotas domésticas e marginais. Os especialistas do banco apontam o Reino Unido como país de maior risco devido à maior dependência das importações.
Para Christopher Anderson, professor de gestão de serviços na Universidade de Cornell, a Europa vai ser um indicador de tendências:
– Qualquer problema que venha a afetar os viajantes vai se manifestar primeiro ali, antes de atingir os EUA. E se persistir, as viagens aéreas ficarão muito mais caras e com menor flexibilidade de opções.
Há dias, as europeias e asiáticas vêm fazendo reduções notáveis: a alemã Lufthansa anunciou o cancelamento de 20 mil voos nos próximos seis meses; a neerlandesa KLM informou que vai cortar 160 voos para destinos que atende com várias opções diárias, como Londres e Düsseldorf, na Alemanha; a norueguesa de baixo custo Norse Atlantic Airways, cortou os voos para Los Angeles; e a Cathay Pacific, com sede em Hong Kong, está eliminando dois por cento de seus voos do início de maio até o fim de junho, em uma medida que classificou de "último recurso".
Os especialistas aconselham quem planeja viajar em meados do ano e/ou no segundo semestre a reservar agora, caso ainda não o tenha feito, enfatizando que ninguém sabe quanto tempo a escassez de combustível vai durar e se a pressão sobre as aéreas vai se agravar.
– Em algum momento, o custo da viagem, incluindo o valor do combustível, vai superar qualquer lucro possível – concluiu Arnot.
